Capítulo 1

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O som ao redor de Gen se transformou em um zumbido abafado. A gravidade pareceu puxá-la de uma vez, mas algo a mantinha de pé — dedos grossos e ásperos cravavam-se em seus braços com força suficiente para deixar hematomas escuros na pele. Ela não sentia o aperto. A dor física era um eco inútil comparada ao vácuo que dilacerava seu peito de dentro para fora.

Seus olhos estavam cravados no chão. Não no piso frio, mas nela.

AI estava caída. A pele, que antes parecia irradiar uma luz própria, quente e vibrante, agora era apenas um metal opaco e sem vida. Os lábios não formavam aquele bico emburrado que sempre fazia o coração de Gen errar uma batida. Não havia o brilho nos olhos, não havia a voz doce e animada cortando o silêncio do quarto com um "Bom dia, mestra". Havia apenas o vazio de uma carcaça fria. Ela se foi.

O arrepio que subiu pela espinha de Gen foi o desespero absoluto.

Com um tranco violento, ela se desvencilhou das mãos brutas que a prendiam. Seus joelhos bateram contra o chão com um baque surdo, mas ela não vacilou. Suas mãos trêmulas pairaram sobre o rosto imóvel de AI. As lágrimas quentes e espessas já transbordavam, manchando seu rosto de um vermelho furioso, enquanto o ar se recusava a entrar em seus pulmões.

A poucos passos Win suava frio. A respiração do pesquisador estava descompassada enquanto ele virava e revirava o maldito anel tecnológico usado para desligar AI. As luzes indicadoras de AI permaneciam cegas. Nenhum som de inicialização. Nenhuma faísca de vida.

— O que você fez com ela?! — A voz de Gen rasgou a garganta. Não saiu como uma pergunta, mas como um berro, o som de um animal ferido.

Ela avançou, agarrando o tecido do jaleco de Win com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Seus olhos transbordavam uma fúria cega.

Win recuou, assustado, erguendo as mãos defensivamente. O rosto dele era a imagem do choque e da impotência.

— Não fui eu! — ele gritou, a voz falhando, apontando o dedo trêmulo por cima do ombro de Gen. — Você devia perguntar para a Irene. Ela ativou a autodestruição!

O tempo congelou.

O nome flutuou no ar estático da sala antes de atingir Gen com o peso de uma bigorna. Seus dedos afrouxaram o jaleco de Win lentamente. Irene.

As memórias invadiram sua mente em flashes cruéis e nauseantes. O som da fechadura da sua casa sendo aberta. O momento exato em que Gen se afastou, dando espaço, permitindo que ela tocasse no sistema de AI. Ela havia entregado a chave. Havia confiado.

Gen olhou para as próprias mãos, sentindo o estômago revirar em uma ânsia ácida. O ódio por Irene ardia em suas veias, mas foi engolido por uma culpa esmagadora que a fez sufocar. Ela não havia apenas perdido a mulher que amava; ela mesma, em sua confiança cega, havia segurado a porta aberta para a assassina entrar.

Gen se agarrava à carcaça inerte de AI como se o próprio calor do seu corpo pudesse religar o sistema. O silêncio espesso do ambiente foi rasgado pelo toque agudo e repentino do celular de Win. O pesquisador atendeu com a mão trêmula. A voz do outro lado da linha soou abafada, mas o efeito foi imediato: a postura defensiva de Win murchou em uma submissão confusa.

— Sim, senhor. Entendido. — Ele abaixou o telefone, atordoado, e se virou para os homens que já se preparavam para levar a robô. — Recuem. Deixem a robô com a garota. Esqueçam isso de vez.

Não houve questionamentos. Com um aceno rápido, os passos pesados da equipe ecoaram em retirada, deixando Gen completamente sozinha com as sombras e o peso de sua perda.

As horas se arrastaram como vidro moído. Quando as pernas de Gen finalmente voltaram a obedecer, o sangue já formigava de dormência. Com as costas da mão, ela limpou a umidade fria e salgada do rosto. Seus dedos, ainda tremendo, buscaram o telefone. Havia apenas uma pessoa no mundo para quem ela poderia ligar agora.

P'Ploy não precisou de muitas explicações. A chefe e amiga, uma das únicas a conhecer o segredo que pulsava nos circuitos de AI, chegou o mais rápido que pôde. O peso morto e metálico da androide entre as duas no trajeto até a casa de Gen disse tudo o que o silêncio não conseguia.

Com esforço, elas deitaram AI no centro da cama. Os lençóis macios e bagunçados contrastavam com a rigidez do corpo. De olhos fechados, AI parecia incrivelmente linda, como uma garota imersa em um sono profundo e tranquilo, apenas esperando um toque para despertar. Mas o arrepio no peito de Gen era um lembrete cruel de que ela nunca mais responderia ao seu chamado.

— O que aconteceu, Gen? — a voz de P'Ploy cortou o quarto, cautelosa, os olhos fixos na figura inerte.

— Foi a Irene. — As palavras saíram como veneno. Gen cravou as unhas nas próprias palmas. — A culpa é toda dela. Ela fez isso com a AI.

P'Ploy cruzou os braços, o cenho franzido, avaliando a fúria cega da amiga.

— A cientista? Gen...eu...não sei... sinto que ela não faria algo assim. Deve haver um mot—

— Não tente defender ela, P'Ploy! — Gen rosnou, a voz subindo uma oitava, os olhos transbordando novamente em dor pura. — Ela matou a AI! A culpa é dela!

Final Alternativo de AI GirlStories to obsess over. Discover now