I.

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A serra fluminense não abraça o Colégio Interno São Jorge de Alcântara; ela o sufoca.

Construído no final do século XIX como um refúgio para barões do café que queriam isolar seus herdeiros das febres e das revoltas da capital, o instituto parecia menos uma escola e mais uma fortaleza esquecida no topo do mundo. De maio a outubro, o nevoeiro subia pelos cânions com a precisão de um relógio, engolindo os pinheiros centenários, as estátuas de fundadores e as torres pontiagudas que rasgavam o céu. Para quem chegava de fora, era um cartão-postal aristocrático. Para quem chegava pela estradinha sinuosa, envolto pela neblina, o São Jorge parecia um castelo retirado diretamente de um conto de fadas — um lugar onde o ar cheirava a pinho, papel antigo e promessas de grandiosidade.

Por dentro, a magia da instituição era palpável. A biblioteca principal era um templo de sonhos e proporções vertiginosas, com estantes de mogno que alcançavam tetos a mais de doze metros de altura, iluminadas por vitrais coloridos que projetavam mosaicos de luz rubi e safira sobre o chão de carvalho. Salas de aula com lareiras sempre acesas, laboratórios de ciências repletos de instrumentos de latão polido e galerias adornadas com obras de arte originais faziam com que qualquer aluno sentisse o privilégio intelectual de caminhar por aqueles corredores.

O São Jorge funcionava sob um apartheid invisível e nada discreto. Do lado norte, voltado para o vale banhado pelo sol da manhã, ficavam os dormitórios e as alas privativas da elite — herdeiros de dinastias políticas, magnates industriais e barões da tecnologia. Seus aposentos desfrutavam de camas com seda, pisos aquecidos e janelas francesas com vista panorâmica para a serra. Eles circulavam pelos corredores largos em blazers de lã pura com brasões bordados, tratando o luxo do colégio como um direito natural de nascença.

Do outro lado da linha invisível, confinados na ala sul, estavam os bolsistas.
Embora o charme do São Jorge se estendesse por todo o campus, a experiência dos bolsistas vinha com um custo de invisibilidade e esforço triplo. A Ala Sul ocupava as dependências mais antigas do complexo, charmosas por sua rusticidade. Ali, os corredores eram estreitos e o assoalho gemia alto a cada passo, fazendo o vento assobiar nostálgico pelas frestas das janelas de vidro chumbo. Enquanto a Ala Norte dormia sob o silêncio de tapetes espessos, o lado sul ecoava o som de páginas sendo viradas à luz de luminárias de jovens determinados a não desperdiçar a chance de suas vidas.

A hierarquia não era apenas habitacional; ela era mantida por códigos rígidos e não escritos. Os bolsistas pagavam com o próprio suor o privilégio acadêmico de frequentar um dos melhores colégios do país. Para a diretoria, eles eram a cota de prestígio filantrópico; para a elite estudantil — liderada por nomes que estampavam as colunas sociais do Rio —, mesmo que inconscientemente e de maneira indireta, eles eram intrusos tolerados enquanto mantivessem a cabeça baixa e os olhos fixos nos livros.

Iris pertencia ao segundo grupo, mas recusava-se a agir como um fantasma.

As sardas no nariz, o cabelo curto e o sotaque paulista eram secundários quando se tratava da reputação de Iris na São Jorge. Querida por todos os alunos, uma das melhores alunas da turma e presente em diversos grupos de estudos e projetos sociais de melhoria da instituição, Iris fazia questão de ser a diferença no corpo estudantil do internato, tratando todos os alunos sem a mínima diferença e de forma amigável.

Antes de pisar nos chão de mármore do Colégio São Jorge de Alcântara, o mundo de Iris respirava o ritmo frenético de São Paulo. Nascida e criada em um apartamento modesto na Zona Sul da capital, Iris cresceu sabendo valorizar tudo que ganhava. Sua mãe, costureira autônoma que atendia pequenas butiques e clientes particulares, passava os dias em um minúsculo ateliê alugado próximo ao Jabaquara, com a luz artificial e o zumbido constante das máquinas de costura. Seu pai, um desenhista técnico de uma construtora que enfrentava a paralisia do mercado imobiliário daquela década, havia ensinado a Iris a única regra que importava: na vida, quem não tem sobrenome de peso precisa desenhar o próprio destino com precisão milimétrica.

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