Arrasto a enxada com uma camada fina de terra. O cheiro úmido e abafado invade minhas narinas. Não gosto, mas está tudo bem, me ajuda a acordar enquanto o sol não termina de nascer. Fico alguns minutos nessa atividade até ouvir vozes esganiçadas. Masculinas. Ouço três, talvez quatro pessoas pela estrada. Entro em casa. Já sei o que querem. Devo me preparar.
A minha armadura está no lugar de sempre, e a espada, de prontidão ao lado do portal. Me aproximo. A madeira do portal, com suas rachaduras cada dia mais aparentes, vibra e estala ao sentir a minha aproximação. Isso é bom. A mestra ainda está do outro lado. E eu, deste lado, não deixarei ninguém atravessar.
Pego o peitoral em cima da pequena mesa de madeira. As vozes ficam mais altas. Vou até a janela, sorrateiro. A cortina transparente me permite contar com precisão... 3... são todos jovens. Por volta dos vinte, assim como eu. Descuidados. Falam alto, não estão atentos aos arredores. Aperto o peitoral de metal, sinto as ranhuras profundas. Por quanto tempo tem me protegido enquanto compro meu encargo?
Visto a armadura. Eles já estão aqui — em frente à janela. Vieram procurar, como tantos outros o fazem. Que desistam e vão embora para o bem deles.
— Onde está, Lúcio?! Você não disse que era aqui?
Um de cabelos assanhados ruge. Voz estridente, veias saltando no pescoço.
— Ei, o que é que há? Não venha pôr a culpa em mim — o garoto gordo treme, a corda do seu arco vibra como as de um alaúde — foi aquele careca que passou a informação errada. Como eu iria saber?
— Xiiu, calem a boca!! O terceiro do grupo aponta para a janela ao lado. Afasta sua capa amarela para trás e segura firme no cabo prateado de uma adaga. Observa, meticuloso — Lúcio, o tal careca falou que haveria uma casa por aqui?
Nã... não, nenhuma casa — apenas o portal.
— E o que tem? É só uma casa! — o nervoso volta a reclamar — vamos entrar e ver o que tem dentro.
— Não — estende o braço e bloqueia o caminho do colega — antes disso, use a sua habilidade, veja o que tem lá dentro.
— O que? — empurra a mão que bloqueia o seu caminho — não vou gastar minha preciosa energia numa casa abandonada, posso resolver isso do jeito mais fácil.
— Parece uma casa abandonada pra você? — ele aponta outra vez, para os arredores da minha pequena casa. Tem pouco mais de seis anos de construída e cuido muito bem dela para o retorno de minha mestra. Tem um gramado verde circulado por uma cerca branquinha. Telhado limpo e ornado com plantas penduradas no lado de fora. Ela me ensinou a cuidar de plantas e de uma casa.
— Tá bom, então vamos lá ver se tem alguém — o irritado fala e começa a dar passos rumo à minha porta. Me afasto da janela, devo proteger a porta. O piso de madeira range do lado de fora.
— Não, antes veja se tem alguém dentro, use a sua habilidade
— e daí se tiver! Eu tô louco pra espancar alguém, mesmo.
— Esse garoto vai ser um problema. Não vou deixar que entrem, não podem encontrar o portal. Mais uma vez não vai dar pra resolver isso sem uma luta.
Abro a porta subitamente. O que vinha à frente, com a mão esticada para a maçaneta, estremece. Todo o sangue lhe foge. Os outros dois que vêm logo atrás, param. Eles me observam congelados. Estou usando o meu velho elmo, o conjunto de armadura ? — gasto — ainda reflete a luz matinal vinda do horizonte.
— Pois não? — A iniciativa é minha, eles não reagem. Continuo os encarando, esperando um movimento brusco. Nada.
— Âhuu — um som gutural, trêmulo. Finco os olhos no dono do ruído. Ele ainda está segurando o cabo da sua adaga. Agora parece mais um reflexo instintivo de autopreservação do que uma tentativa de ameaça.
CZYTASZ
Obediência e Esperança
FantasyUm jovem cavaleiro aguarda a sua mestre enquanto protege o portal por onde ela passou tempos atrás. Ele deve protegê-lo não apenas de invasores mas de si mesmo, de sua vontade de desobedecer e ir atrás dela.
