Antes de petrificação.
Gen Asagiri, um famoso mágico, estava outra vez em frente a uma câmera. Agora isso já se tornava uma rotina para a vida do mentalista. Sempre em uma gravação, sempre com um sorriso, sempre com truques e diversões para entreter aqueles que o assistiam. Na frente das câmeras, Gen podia ser considerado como uma pessoa alegre, animada e imensamente amável, mas e por trás? Quando as câmeras não estavam ligadas, quando ninguém podia vê-lo, será que o sorriso ainda existia?
Novamente, em frente a uma câmera, realizando um novo truque de mágica para os telespectadores. O sorriso característico preenchendo seu rosto enquanto ele contava algumas piadas para fazer todos rirem, até a equipe técnica atrás da câmera, enquanto suas mãos embaralhavam algumas cartas, preparando-se para o truque que faria.
Como o de costume, após as gravações, elogios eram direcionados à ele que os recebia com um imenso sorriso agradecido, apesar de no fundo não acreditar em uma frase sequer que era falada. Ele se despediu da equipe, inventando novamente uma desculpa para poder retirar-se rapidamente do estúdio, desejando nunca nem ter saído de casa enquanto seus pés se moviam pelos corredores, evitando propositalmente áreas onde sabia que haveria pessoas dispostas a para-lo para conversar ou para apenas elogiar outro programa seu bem sucedido. Já estava farto dos elogios, da falsidade e da rapidez com que aquelas doces palavras saíam dos lábios dos outros, como se ele devesse acreditar naquilo, como se ele tivesse que achar que era realmente uma pessoa incrível. Não entenda errado, Gen se sentia grato pelos elogios, mas era difícil para ele acreditar que poderia existir pessoas por aí que gostassem de verdade do que ele fazia, do que ele era, afinal se conhecessem a sua versão que mantinha escondida por trás daquele sorriso, duvidava se alguém continuaria gostando ou assistindo aos truques e mentiras que ele gravava, se continuariam o elogiando.
O cansaço pesava em seus ombros quando ele enfim saía do prédio, um carro já estacionado em frente pronto para leva-lo embora. Gen agradeceu com seu sorriso costumeiro, almejando a hora que poderia parar de sorrir. Almejando a hora em que poderia finalmente parar de fingir amar a vida que tinha. Ele não era ingrato, realmente sentia-se grato por tudo o que conquistou, mas as vezes não conseguia evitar o pensamento de que talvez ele fosse mais feliz se estivesse morto.
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A porta da enorme casa onde Gen morava demorou-se à abrir, já que demorou para encontrar as chaves em seu bolso. Quando cansado, ele achava quase impossível encontrar qualquer coisa que precisasse. Seus pés se arrastaram pelos corredores da casa após ter trancado a porta, a chave sendo jogada de qualquer jeito no sofá da sala de estar assim que ele se deitou, fechando os olhos para enfim poder respirar de verdade. Se continuasse encolhendo tudo o que sentia, uma hora tudo sumiria. Gen se deu alguns minutos de descanso naquele enorme e solitário sofá antes de forçar o corpo cansado a erguer-se novamente, caminhando em passos lentos e pesados até a cozinha. Ele puxou uma garrafa de coca de dentro da geladeira ao abrir o eletrodoméstico, deixando a garrafa encima da bancada enquanto se agachava para vasculhar uma das gavetas da cozinha em busca de seus remédios que ele triturava toda manhã para misturar a sua bebida favorita. Os comprimidos amassados foram despejados dentro da garrafa de coca, qual ele misturou lentamente para que o gás não explodisse e sujasse toda sua bancada — que por sinal, ele se recusaria a limpar até que ficasse cansado de ver formigas em sua cozinha.
O líquido sumia em seus lábios toda vez que Gen levava o gargalo até a boca, bebendo a coca em goles grandes. Por algum motivo, nunca conseguia beber os comprimidos se não os misturasse com algo que escondesse o sabor azedo e enjoativo daqueles remédios idiotas que ele tinha certeza que não precisava tomar, mas que mesmo assim continuava bebendo para não ter que aguentar ninguém — no caso, seu empresário, que é o único que tenta convencê-lo de que os comprimidos são úteis, já que também é o único que sabe sobre eles — falando no seu ouvido sobre a importância dos remédios idiotas. Eles o deixavam lento e a última coisa que Gen queria era se sentir devagar. Sentir que estava atrasado na vida e que estava perdendo algo de bom, mas era bem provável de que estivesse sim perdendo milhares de coisas boas enquanto ele se afogava em coca e comprimidos bobos.
Sempre antes de deitar, Gen se ajoelhava ao lado da cama. Ele não era religioso e com certeza não acreditava que tinha alguém lá encima ouvindo suas lamentações idiotas, mas estava tão acostumado a juntar suas mãos e conversar com qualquer coisa que pudesse ouvir sua mente barulhenta. Ele contava tudo, desejando milhares de vezes que o mundo deixasse de existir, que as pessoas sumissem e que ele pudesse viver sem ter que fingir. Sem ter que se esconder. De poder respirar livremente sem a pressão nos ombros, sem a preocupação de parecer perfeito por medo do julgamento. Por medo do olhar que o atormentava toda a noite, por causa da vpz que repetia toda hora em sua mente que ele não era nada, que nunca seria algo. Mas porra, ele é alguma coisa, apesar de não se achar ser algo. Sempre que se levantava, após desejar mais uma vez o fim daquele mundo ou o fim de si mesmo, ele se deitava, os olhos já tão pesados de cansaço que normalmente Gen apagava assim que sua cabeça tocasse o travesseiro, mesmo que talvez ainda fosse cedo.
— Se alguém escutar o que esta coisa inútil diz, por favor, a salve desta farsa. A salve de continuar se achando um erro, de continuar se achando uma péssima pessoa, porque no fundo ele era bom, apesar de nunca enxergar suas qualidades. Então a salve, antes que ele junte coragem de acabar com tudo aquilo. Salve-a de si mesmo antes que seja tarde.
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Gen Asagiri
FanfictionGen Asagiri. Quando seu sorriso se tornará verdadeiro? Quando irá parar de desejar que tudo acabe? Quando enfim aceitará que é uma boca pessoa?
