Capítulo 1

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A claridade tênue infiltrava-se por entre minhas pálpebras pesadas sem qualquer convite enquanto rompia o frágil véu do sono. Fiz uma careta e me virei para o lado, sentindo o chão duro e irregular sob meu corpo. A atípica e desconfortável cama era composta por incontáveis pequenos grãos úmidos de areia que se aderiram à superfície de minha pele como se com ela quisessem se fundir. Devia ser madrugada, talvez 4h da manhã, e o sol começara insinuar sua chegada no horizonte espalhando o brilho pálido no céu que ainda pertencia a noite.

Uma leve dor se alojava em minhas costas sujas da areia que se esgueirava por todas as frestas do meu corpo molhado e frio, um incômodo constante e insuportável. Voltar a dormir, embora fosse tudo o que queria, tornara-se difícil agora que a consciência se agarrava a mim com firmeza. Ela tornava cada vez mais nítido o som irritante do vai e vem das ondas que quebravam o canto distante das gaivotas, cortando o ar como o anúncio do amanhecer.

Eu começava a sentir a cabeça girar, e o ar vacilou ao entrar nos meus pulmões. Talvez fosse apenas o cansaço, ou talvez algo pior. Se eu permanecesse de olhos fechados, deixando-me afundar na minha própria escuridão, talvez a sensação passasse. Mas a luz do sol, indiferente à minha vontade, insistia em me puxar de volta.

— Ai! — gritei, o som escapando involuntariamente junto com a dor aguda que latejou no meu dedão do pé. Num reflexo, sacudi a perna com força, como se tentasse me livrar de uma brasa ardente. O maldito caranguejo voou para longe, aterrissando de costas na areia molhada. Meu coração disparou com o susto, e eu observei a criatura se debater por um instante antes de se virar e correr de volta para a água, suas pequenas garras ainda erguidas, como se me desafiasse para um segundo round.

Não tive tempo de observar o animal fugindo, suas inúmeras patinhas ágeis golpeando a areia enquanto ele corria em disparada para a água do mar. Um novo acesso de tosse me sacudiu, mais forte que o anterior, arrancando um gemido involuntário quando uma dor aguda se espalhou pelo meu peito. Antes que eu pudesse sequer me importar com a gota de sangue brotando sob minha unha suja, exatamente onde o crustáceo havia me ferroado, um nó se formou na minha garganta. E então, sem aviso, algo subiu, rasgando meu esôfago em sua ânsia de escapar.

O gosto ardente do sal tomou minha língua antes que eu pudesse reagir, e, em meio a uma tosse convulsiva, jorrei pela boca um jato da água do mar que parecia ter se entranhado nos meus pulmões. O líquido queimava enquanto escapava, e minha garganta e narinas foram inundadas pelo sabor áspero e sufocante. Meus olhos se encheram de lágrimas involuntárias, um reflexo do esforço brutal para expulsar aquilo de dentro de mim.

Por mais horrível que fosse, percebi, assim que ergui o corpo trêmulo sobre a areia, que, de alguma forma, eu tinha escapado de um afogamento. Ainda ofegante, levantei o olhar para o céu. Acima de mim e bem distante, dois abutres giravam lentamente em círculos, um orbitando o outro, como se aguardassem, pacientes, que eu não me erguesse novamente.

Cambaleei quando mantive a cabeça erguida. Minha visão embaçou por um instante, e uma pontada aguda latejou na minha têmpora, tornando a dor ainda mais insuportável. Como era possível eu estar com tanta sede, mesmo estando encharcado dos pés à cabeça? A pergunta ecoou na minha mente enquanto eu passava a língua pelos lábios secos, sentindo o gosto persistente de sal impregnado na boca.

Deslizei as mãos pelo meu próprio corpo, tentando avaliar meu estado. Além de tonto e com toda aquela areia grudada em cada centímetro da minha pele, a constatação demorou, mas veio como um choque frio: eu estava completamente pelado!

– O que? – Gritei atônito e cobri minhas partes íntimas com as mãos.

Apertar minhas bolas encolhidas pelo frio contra o corpo era tão desconfortável pela areia pinicante em minha virilha, quanto inútil agora que percebia minha situação olhando para os lados. Um trio de gaivotas olhou para mim ao longe, mais ninguém. Eu estou sozinho!

LARGADOS E PELADOS: A VIAGEM ESCOLAR QUE TERMINOU EM UMA ILHA DESERTA!Histórias para pegar e não largar. Descubra agora