Epílogo

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Wanda acordava às cinco

Às cinco da manhã,
o despertador não tocava.

Ele cumpria sentença.

Wanda abria os olhos
como quem devolve um corpo
ao mundo.

Ainda era noite.

A cidade dormia
com a tranquilidade
de quem nunca precisou acordar cedo
para sobreviver.

O apartamento era pequeno.

Não pequeno de arquitetura.

Pequeno de futuro.

Uma geladeira que fazia mais barulho
do que companhia.

Uma pia
onde os pratos pareciam esperar
que alguém lhes desse um motivo
para existirem.

Uma janela
que dava para outra janela.

Era isso.

O horizonte
morava no apartamento dos outros.

O café tinha gosto de pressa.

Ela nunca soube
se gostava de café.

Talvez gostasse apenas
da desculpa de sentir alguma coisa quente
antes que o dia esfriasse tudo outra vez.

Cinco e quarenta.

O ônibus.

Os mesmos rostos.

As mesmas olheiras.

Era curioso.

Ninguém parecia infeliz.

Mas ninguém parecia vivo.

Como se a vida tivesse sido adiada
para um domingo
que nunca chegava.

No trabalho,
Wanda aprendia um idioma estranho.

"Bom dia."

"Claro."

"Sem problemas."

"Pode deixar."

Era uma língua
em que todas as frases
escondiam o que realmente queriam dizer.

Ela sorria.

Recebia ligações.

Respondia e-mails.

Pedia desculpas
por erros que não eram seus.

Agradecia
por favores que eram obrigações.

Almoçava em vinte minutos.

Engolia.

Não a comida.

O relógio.

Voltou.

Mais planilhas.

Mais metas.

Mais uma reunião
sobre crescer.

Engraçado.

Quanto mais falavam em crescimento,
menor ela se sentia.

Dezoito horas.

O expediente acabava.

O cansaço,
não.

No caminho de volta,
ela observava as janelas acesas
dos prédios.

Perguntava-se
se alguém ali
esperava por alguém.

Ou se todos apenas esperavam
o sono.

Chegou em casa.

Silêncio.

Cartas rabiscadas-MANUAL DE COMO PERDER ALGUÉM QUE TE AMAVAStories to obsess over. Discover now