Prólogo

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— Meredith, não corra tão longe! — a mãe chamou, mas já era tarde.

A menina estava de frente para os portões brancos de casa. Sempre fora assim, impulsiva, ansiosa, queria logo chegar até o carro e entrar no zoológico para ver os leões. Enquanto outras crianças podiam se assustar com as feras, os  olhos selvagens, a força, o perigo, pareciam tentadores para a pequena garota.

— Você vai me matar do coração, Meredith — ela disse, se aproximando e alisando o cabelo castanho da filha. — Sinto que um dia vai correr tão rápido que a perderei de vista. 

— Não sou tão rápida mamãe.

Foram questões de segundos, enquanto sua mãe entrava dentro de casa, para pegar as chaves do carro, seu irmão corria no andar de cima, discutindo com o pai e então, o céu mudou de cor. Começou com uma sombra escura por cima da casa, que logo ganhou uma cor rosada e então, vermelha. 

Meredith lembrava do som. Um estrondo que não vinha de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo. Como se o próprio ar tivesse sido rasgado por uma explosão. 

— Para o carro! — o pai conseguiu gritar. — Vai, vai, vai!

Mas foi tarde demais, quando a garota correu, desejando ser tão rápida quanto a mãe lhe falara, seu corpo foi impulsionado com tanta força, que as casas se tornaram borrões e seus pés não sentiram mais o chão. 

Quando conseguiu abrir os olhos, a menina não pode enxergar direito. Com a pouca visão, observou, sem conseguir abrir a boca ou soltar sequer um som, pessoas correrem em todas as direções, um formigueiro humano em pânico. Meredith não entendia o que estava acontecendo, mas sentia medo. O coraçãozinho estava apertado. A respiração curta. E a dor era horrível. Suas costas queimavam.

Foi então que, tomando parte de sua pouca visão, uma silhueta azulada se aproximou. Meredith piscou, os olhos lacrimejando, mas ela não conseguia desviar o olhar daquela luz. Flutuava no ar, movendo-se lentamente, como um dente-de-leão carregado pelo vento.

Uma flor, pensou. Não, não é isso, constatou se forçando a enxergar melhor. 

As pétalas eram longas e pontiagudas, lembrando asas abertas, num tom azul-escuro tão profundo que beirava o negro. Pequenos pontos bioluminescentes salpicavam sua superfície, azul-violeta, como um céu estrelado em miniatura. No centro, filamentos brilhantes pulsavam, emitindo uma luz azul intensa, rítmica, como os batimentos de um coração. O seu coração.

A flor flutuou até ela. E mesmo que quisesse se afastar, a pequena criança não conseguia se mexer. Seu corpo não respondia aos comandos e a dor aumentava a cada tentativa. Seus olhos apenas acompanharam aquele ser minúsculo, belo e estranho, enquanto ele tocava seu pulso.

Logo a admiração deu lugar a sensação angustiante de ser eletrocutada. A dor que já não era nada suportável se intensificou, mas em seu braço, caminhando e queimando até seu coração. Sua cabeça começou a sentir uma pressão tão grande, que ela pediu para morrer.

Por favor, Deus, Deus, faça parar. Eu não aguento, mãe! Mamãe, por favor! Sua boca não conseguia dizer tais palavras, mas as lágrimas se acumulavam em seu rosto, formando uma pequena poça no asfalto. 

Ela podia ver as listras azuladas, como veias, tomarem conta de todo seu braço, desenhando algo em seu pulso. A flor começava a perder o brilho e ficar apagada, quando a escuridão finalmente lhe proporcionou paz. 

O mundo continuou a ser bombardeado, casas desmoronaram, prédios caíram, carros foram arremessados e aviões despencaram, mas naquele dia, aquela pequena criança sobreviveu e foi escolhida. Assim como muitos outros seriam. 


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