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Apenas Chá

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A chave girou lentamente na fechadura, disparando um clique metálico que ecoou pela quietude do apartamento antes que a porta cedesse. Loid entrou primeiro, fechando-a com cuidado rigoroso atrás de si. Por alguns instantes, permaneceu imóvel no hall de entrada, reconhecendo o conforto familiar daquele lugar como quem busca se ancorar de volta à realidade. A missão havia terminado há menos de uma hora, mas o cheiro impregnado de perfumes caros e fumaça de charuto ainda parecia perseguir seus sentidos.

Com movimentos fluidos e automáticos, afrouxou a gravata com a ponta dos dedos e desfez-se do paletó, pendurando-o no cabideiro. O gesto tinha a precisão mecânica de um hábito repetido mil vezes. Contudo, sua mente recusava-se a acompanhar o ritmo do corpo; ainda percorria os corredores excessivamente iluminados e aveludados do bordel de luxo onde passara a tarde inteira infiltrado.

Operacionalmente, a missão fora um sucesso. O contato fora estabelecido, as informações obtidas e a identidade do financiador confirmada. Tudo ocorrera em perfeita concordância com o plano. Ainda assim, algo daquela noite permanecia preso em sua mente.

Loid lembrou-se das mulheres em trajes provocantes e luxuosos, ostentando sorrisos perfeitamente ensaiados e olhares treinados que mudavam conforme o homem diante delas. Lembrou-se, sobretudo, dos clientes. Homens de riso fácil e vozes altivas que cruzavam aqueles salões convencidos de que podiam tocar, julgar e descartar vidas humanas como se fossem meras mercadorias expostas em uma vitrine requintada.

O maxilar de Loid se contraiu num gesto imperceptível. Quantos deles sequer enxergam aquelas mulheres como seres humanos?, questionou-se em silêncio. Não era a primeira vez que testemunhava a sordidez velada da alta sociedade em suas missões de espionagem, e certamente não seria a última. Como Twilight, aprendera há muito tempo a separar sentimentos de missão. Ainda assim, absorver aquilo como algo aceitável ou normal transcendia até mesmo sua extraordinária capacidade de desapego.

Um suspiro abafado escapou de seus lábios no instante em que o som do metal na fechadura o trouxe abruptamente de volta ao presente. A porta se abriu pela segunda vez, revelando Yor.

Ela entrou devagar, fechando a porta atrás de si com um cuidado quase tímido antes de descalçar os sapatos. Bastou um único olhar clínico para que Loid lesse as entrelinhas de sua postura: os ombros sutilmente descaídos, a lentidão quase imperceptível dos passos e as articulações travadas pela tensão acumulada. Os ombros estavam baixos, os passos mais lentos do que de costume. Até o sorriso parecia exigir esforço. Ainda assim, ao erguer os olhos e encontrá-lo ali, o rosto de Yor iluminou-se em um sorriso genuíno e doce.

— Estou em casa — disse ela, com a voz suave pelo cansaço.

— Bem-vinda de volta — Loid retribuiu de imediato, e a suavidade no tom surgiu sem qualquer esforço de atuação.

Yor caminhou alguns passos até ele e, por um segundo suspenso no tempo, ambos apenas trocaram um olhar silencioso e cúmplice no espaço pequeno da entrada. Loid ofereceu-lhe um pequeno sorriso de acolhimento.

— Foi um dia difícil na prefeitura?

— Bastante... — Yor soltou uma risada baixa e cansada enquanto retirava o casaco. — Hoje apareceu trabalho atrás de trabalho. Parecia que a pilha de arquivos nunca diminuía. Achei que não veria o fim daquela papelada.

Uma mentira impecável. Na realidade, boa parte de sua tarde fora gasta nas sombras, eliminando silenciosamente alvos estratégicos de uma organização criminosa sob as ordens diretas do Garden. Ela limpara as mãos com sabão neutro até a pele ficar vermelha, garantindo que não restasse nenhum vestígio de ferro ou sangue. Mas o cansaço físico que pesava em seus músculos era brutalmente real.

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