Eu, Harry James Potter, vinte e três anos. Seis anos se passaram desde a noite em que manchei minhas próprias mãos com o sangue do meu alfa.
Seis anos de um silêncio ensurdecedor na minha alma.
Às vezes me pego vagando pelas ruazinhas escuras dos subúrbios bruxos e trouxas, observando de longe as luzes neon piscantes e as sombras nas janelas. Sinto ciúmes das putas, das prostitutas, das mulheres e dos homens do prazer. Olho para eles e sinto uma inveja corrosiva, quase doentia. Eles conseguem sentir algo. Eles sentem prazer com qualquer toque banal, com qualquer nota de galeão ou libras jogadas na mesa, com qualquer corpo quente que se deite ao lado deles por trinta minutos. Para eles, a pele ainda responde. O desejo ainda existe, vulgar e fácil.
Para mim, o mundo se tornou vidro e gelo.
Eu matei o único homem que sabia exatamente onde me tocar, o único que conhecia os atalhos do meu corpo e os segredos do meu aroma. O único alfa que fazia o meu sangue queimar até eu esquecer meu próprio nome. E fui eu quem o destruiu. A magia do vínculo não morreu com ele; ela apodreceu dentro de mim, transformando cada centímetro da minha pele em um deserto anestesiado. Ninguém mais consegue me alcançar. Nenhum toque me aquece. Nenhuma carícia ultrapassa a superfície fria do meu remorso.
Se eu pudesse... Ah, se a magia do tempo não fosse tão cruel.
Se eu pudesse, voltaria no tempo só para aquela noite. Não para mudar o destino, não para salvar o mundo ou bancar o herói arruinado que todos esperam que eu seja. Eu voltaria apenas para sentir, mais uma vez, o peso do corpo dele sobre o meu. Para ouvir a voz grave rosnando no meu ouvido antes que a varinha disparasse o feitiço final. Voltaria só para ser destruído pelo prazer dele uma última vez, antes de me destruir na solidão de estar vivo.
Maldito seja Tom Marvolo Riddle ! Maldito seja o mundo bruxo! Maldito seja o meu lobo interno que ainda se esfrega por aquele maldito pau!
O som do rolo de massa contra a bancada de madeira era o único ritmo que mantinha Harry ancorado à realidade, embora sua mente estivesse a anos-luz dali.
As mãos, outrora acostumadas ao cabo de uma varinha que encerrou uma era, agora estavam cobertas por uma fina camada de farinha branca. Não bastava ter sido o garoto que sobreviveu. Não bastava ter carregado o peso de um mundo inteiro nas costas para, no fim, derramar o sangue do seu próprio alfa. Para fugir do culto sufocante à sua imagem, Harry tomará uma decisão que muitos considerariam uma loucura poética, ou uma forma refinada de autopunição: abandonou o mundo bruxo e montou sua pequena, discreta e quase invisível confeitaria no coração de Little Whinging. Na mesma cidade cinzenta e opressiva onde foi criado por aqueles monstros que chamavam de tios. Retornar ao ninho da sua dor infantil e juventude parecia a única moldura adequada para a sua decadência silenciosa.
Na parede ao fundo, o relógio de madeira escura emitia um clique seco e espaçado a cada segundo.
Tique. Tique. Tique.
Um som desastrosamente torturante. Um lembrete constante de que o tempo continuava a marchar, implacável, enquanto Harry permanecia absolutamente estagnado. A cada badalada curta, a cada minuto que se ia, um suspiro pesado escapava de seus lábios. E com o ar que saía de seus pulmões, vinha o fantasma de uma memória. O peso de uma mão grande e firme na sua cintura. A pressão de dentes afiados contra a curva do seu pescoço. O cheiro de ozônio, magia negra e veludo que impregnava o ar sempre que Tom Riddle decidia reivindicar a sua farda bunda.
A pele de Harry formigava em uma memória fantasma. Ele fechava os olhos por meio segundo e podia sentir o toque do Tom, um toque que nunca era delicado, nunca era gentil, mas que era o único capaz de incendiar sua natureza ômega e fazê-lo esquecer quem era.
Um cheiro acre e ácido cortou o aroma doce da cozinha, trazendo-o de volta à bancada.
Torta de maçã. Mas não qualquer maçã. Maçã verde.
A acidez marcante e o perfume cítrico que invadiam a cozinha pequena não deixavam margem para dúvidas. Harry encarou a tigela cheia de fatias perfeitamente cortadas e sentiu um amargor familiar na língua. Ele sabia exatamente quem tinha feito aquela encomenda anônima na manhã anterior.
Aquele maldito alfa pomposo. Draco Malfoy.
Aquele cheiro inconfundivelmente pecador de maçã verde inundava o ar antes mesmo de qualquer presença física se materializar. Não que Harry não gostasse, a acidez era agradável para o nariz saturado pela doçura da baunilha e do açúcar de confeiteiro. Mas faltava profundidade. Faltava perigo real. Aquele perfume cítrico e polido jamais chegaria aos pés do aroma do seu verdadeiro alfa: uma mistura opressiva e inebriante de magia das trevas, páginas amareladas de livros velhos, whisky envelhecido em carvalho e a promessa explícita de toques pesados. Maçã verde era perfume de quem jogava limpo demais, mesmo quando tentava ser sujo. E Draco Malfoy, com toda a sua aura aristocrática, não era o seu alfa.
Aquele doninha de terno sob medida aparecia na loja com uma frequência quase cômica. Sempre com o mesmo roteiro, sempre tentando deslizar aquela mão de anéis reluzentes pela cintura de Harry, sussurrando promessas de noites luxuosas. Mas a verdade, a nua e crua verdade que Harry guardava para si com uma ironia amarga, era que o pau de Draco simplesmente não tinha a carga, a violência ou a precisão necessária para fazer o Salvador do Mundo Bruxo se desmanchar em lágrimas e gemidos como Tom fazia. Faltava-lhe o peso do abismo.
O som metálico e estridente do sino acima da porta cortou o silêncio da confeitaria com uma pontualidade irritante. Junto com a brisa da rua, veio a onda densa de maçã verde misturada com uma colônia absurdamente cara. E então, a voz. Baixa, arrastada, carregada de uma sedução ensaiada que beirava o poético.
_ Pottah...(Draco murmurou, encostando-se no balcão de madeira com a elegância de quem eufemisticamente finge que não está em uma confeitaria trouxa suburbana.)_A cada vez que eu venho aqui, você parece mais delicioso. O seu cheiro é um vício absolutamente perigoso.
Harry nem sequer se deu ao trabalho de tirar as mãos cobertas de farinha da bancada. Ele apenas soltou um riso fraco pelo nariz, sem um pingo de humor verdadeiro. Claro que Draco achava viciante. O aroma que emanava de Harry era uma contradição biológica grotesca e fascinante: uma mistura profunda de amora silvestre e sangue velho. Doce, metálico, denso... o cheiro exato de um ômega que fora marcado pela tragédia e que carregava o luto na própria pele. Era quente, era excitante, mas era também o cheiro de um cadáver emocional.
Riddle costumava enaltecer essa essência com uma devoção quase doentia. Tom enterrava o rosto no pescoço de Harry, inalava aquele sangue doce e murmurava que ele tinha o aroma da vitória e da rendição combinados. Tom sabia exatamente como devorar aquele cheiro.
Draco Malfoy, por outro lado, apenas o consumia com os olhos, como quem deseja uma obra de arte cara sem ter a menor ideia de como lidar com a maldição que vinha junto no catálogo.
_ Que bom que aprecia o aroma de decadência, Malfoy. (Respondeu Harry, limpando as mãos em um pano encardido com uma calma exasperante, sem encarar o loiro diretamente.)_ A torta de maçã verde está quase pronta.
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Qual o limite da sua dor, Harry?
FanfictionAonde o prazer no pecado se torna um vício que nem as profecias são suficientes para parar. Quando Harry Potter se vê de frente para o seu inimigo selado, onde seus corpos se tocam, e se perdem entre si.
