✦ 𝑪𝒂𝒑𝒊́𝒕𝒖𝒍𝒐 𝑼𝒎: 𝑻𝒘𝒆𝒆𝒕 𝒏𝒂 𝑪𝒐𝒏𝒕𝒂 𝑬𝒓𝒓𝒂𝒅𝒂 ✦

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Lamine Yamal

A televisão gigante no quarto da concentração da Espanha parecia a única coisa viva e desperta no cômodo. O brilho excessivo da tela projetava um clarão verde-gramado constante contra as paredes brancas do hotel em Chattanooga no Tennessee, acompanhado pelo som abafado da torcida e pela narração em espanhol acelerado.

Era dia 19 de junho de 2026. A Copa do Mundo nos Estados Unidos estava no seu auge e, enquanto a nossa seleção descansava para o próximo desafio da fase de grupos, o resto do planeta parava para ver futebol.

- Passa o controle aí, Lamine! ¡Tío, você só sabe monopolizar essa porra de controle! - reclamou Nico Williams, jogado na ponta da cama de casal, jogando uma almofada pesada na minha direção. Esquivei por milímetros.

- Pega leve, Nico. O garoto tá hipnotizado, ¿no lo ves? - zombou Pedri, sentado no chão encostado na cama, sem tirar os olhos do próprio celular. - Brasil e Haiti. O jogo tá bom mesmo ou você só tá esperando alguém entrar pra dar vida a essa partida?

- ¡Cállate la boca, Pedri! - resmunguei, ajustando minha posição nos travesseiros e cruzando os braços. - Tô só vendo futebol, ué. Querem que eu coloque um desenho animado pra vocês pararem de encher a porra do meu saco?

A verdade é que o primeiro tempo tinha sido meio morno, com o Brasil cozinhando o jogo sem grandes sustos. Mas, no meio do segundo tempo, o Ancelotti decidiu mexer no time. A placa luminosa do quarto árbitro subiu na beira do gramado: sai o camisa 9, entra o número 19.

Endrick.

O estádio na transmissão pareceu tremer por alguns segundos com a torcida brasileira. Assim que ele pisou no campo, dando aquele pique curto de aquecimento, ajustando o calção nas coxas e arrumando a postura com a cabeça erguida, meu estômago deu uma leve e incômoda girada.

Não dava para ser hipócrita: o cara era um absurdo de presença. A força física brutal para a nossa idade, as pernas desenhadas pelo treino pesado, a autoconfiança de quem sabe exatamente o peso da camisa que veste... E, puta merda, aquele calção azul bem ajustado marcando um corpo ridículo de forte. Toda vez que a câmera dava um plano aberto e ele dava uma arrancada, meu olho ia direto nas pernas e na bunda dele, desenhadas pela compressão do uniforme. Tinha um impacto visual ali que sempre me travava. Eu tentava agir com naturalidade perto dele nos poucos jogos que tivemos juntos, mas a verdade é que a presença do Endrick me desarmava completamente.

Deitei um pouco mais no travesseiro e peguei meu celular no automático.

Eu tinha uma conta secundária no X (o antigo Twitter), meu famoso perfil priv. Era uma conta trancada, sem foto minha, com um user genérico que só meia dúzia de amigos íntimos do Barcelona acompanhavam. Era lá que eu postava besteiras, reclamações de treino, memes sem graça e pensamentos sem filtro algum, coisas que se a assessoria de imprensa da RFEF ou o meu empresário vissem, teriam um colapso na hora.

Com a transmissão rolando no fundo, o ângulo da câmera pegando o Endrick de costas na ponta direita e ele travando a bola com aquele físico absurdo, abri o aplicativo, cliquei no botão de novo tweet e digitei sem pensar duas vezes:

eu tentando prestar atenção no jogo do brasil e o endrick entrando em campo com aquele calção apertado e aquele corpo... irmão é inacreditável o quanto esse garoto é gostoso

Sem releitura. Sem checar a aba de contas. Sem o menor cuidado.

Só apertei "Publicar", dei uma risadinha de canto de boca com a minha própria besteira e joguei o celular de tela para baixo em cima do colchão.

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