✨ Além dos Holofotes ✨
Catarina Lottin não se deixa impressionar por fama - nem por Jude Bellingham.
Quando se conhecem numa festa, é troca de provocações e desafios do começo ao fim.
O apelido que começou como ironia... pode acabar virando o amor m...
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Os raios de sol de fim de tarde entravam pelas janelas gigantes da sala de ensaios da Uno Models, pintando de dourado as paredes claras e as fileiras de roupas que se espalhavam por todo o canto. Eu respirei fundo, ajustando a postura diante do espelho inteiriço que ocupava quase toda a parede daquele ambiente que, aos poucos, se tornou mais do que um simples local de trabalho: era o lugar onde eu tentava, dia após dia, provar quem eu realmente sou.
Meu nome é Catarina Lottin. Tenho 22 anos, moro em Madri há quase três anos, e sou modelo. Parece uma frase simples, não é mesmo? Mas dói o quanto ela é difícil de fazer ser ouvida de verdade. Porque para quase todo mundo que conhece mim antes de qualquer coisa, eu nunca sou apenas Catarina. Eu sou sempre, primeiro e acima de tudo, "a irmã do Kylian Mbappé".
Não me entenda mal: amo o meu irmão mais velho com todas as forças. Ele é o meu porto seguro, quem sempre me defendeu, quem me ensinou a nunca abaixar a cabeça para ninguém, quem esteve ao meu lado em cada passo dessa caminhada. Kylian é um jogador incrível, uma pessoa admirável, e tenho um orgulho danado de ser sua irmã. Mas ser irmã dele é parte de mim, não é a minha identidade completa. E é exatamente isso que ninguém parece querer entender.
Cheguei na Uno Models depois de passar por um processo seletivo longo, cansativo e muito rigoroso. Foram três etapas diferentes, com fotógrafos, produtores e diretores de agência que avaliaram cada detalhe: minha postura, a forma como me portava diante das câmeras, a capacidade de me adaptar a estilos diferentes, a expressão que eu conseguia transmitir sem precisar falar. Estudei movimentos, estudei moda, passei noites pesquisando sobre a história das grifes, praticando poses na frente do espelho do meu quarto, treinando como falar com elegância mas sem perder a minha personalidade. Me esforcei muito, dediquei horas e dias da minha vida para chegar até aqui, e quando recebi a ligação confirmando que eu tinha sido aprovada, senti que finalmente tinha conseguido algo meu, algo que era fruto do meu próprio trabalho. Mas a realidade foi bem diferente do que eu sonhei.
Desde o primeiro dia que pisei aqui, percebi que muitos só me olhavam com olhos de curiosidade por saber quem é o meu sobrenome. Alguns eram educados, outros tinham até uma certa simpatia, mas outros... outros pareciam ter prazer em diminuir tudo o que eu fazia, como se cada conquista minha fosse apenas um reflexo da fama do meu irmão. E ninguém faz isso com tanta frequência, tanta insistência e tanta maldade quanto Lívia.
Lívia também é modelo aqui na agência, tem a minha idade, e desde que eu cheguei, ela fez questão de se colocar como quem sabe tudo, como se tivesse alguma autoridade para julgar cada passo meu. No começo eu até tentei ser simpática, puxar assunto, fazer amizade. Mas logo percebi que era inútil: ela nunca perde uma oportunidade de fazer um comentário cortante, de dar uma indireta, de lembrar para todos ao redor e principalmente para mim mesma que eu não estou ali por mérito próprio.
- Nossa Catarina, você conseguiu esse ensaio novo mesmo? Que sorte a sua, né? - falou ela passando por mim naquela tarde, parando ao lado do espelho onde eu estava terminando de ajustar o tecido de um vestido para uma sessão - Dizem que foi o seu irmão que deu um jeito para você, não é mesmo? Ainda bem que ele é famoso, senão você não passaria de uma garota comum, não é?
Eu respirei fundo, contando até dez mentalmente para não perder a compostura que eu treinei tanto para manter. Virei devagar para ela, mantendo o olhar calmo mas firme: - Não, Lívia. Eu consegui esse ensaio porque apresentei o meu portfólio, fiz a seleção e agradei ao cliente. Meu irmão não tem nada a ver com isso.
Ela soltou uma risada baixa, cheia de desdém, passando a mão pelo cabelo como se eu tivesse dito a maior bobagem do mundo: - Ah claro, claro... é isso que você gosta de pensar, não é? Todo mundo aqui sabe a verdade. Você faz qualquer coisa, e as pessoas já vão logo: "ah é a irmã do Kylian, claro que vai dar certo". Nem precisa se esforçar tanto assim, menina, o sobrenome já faz tudo por você.
Essas palavras cortavam mais do que qualquer crítica dura que eu já tivesse ouvido. Porque ela toca exatamente na ferida que eu tento esconder de todos: o medo constante de que um dia todos acreditem nela. O medo de que todo o meu esforço, todas as noites que eu cheguei em casa cansada até os ossos, todos os dias que eu acordei cedo antes do sol nascer para chegar no horário dos compromissos, todos os conselhos que eu ouvi e erros que eu corrigi, não valham de nada apenas por causa de um sobrenome.
Mas eu nunca deixo transparecer o quanto aquilo me machuca. Eu aprendi a transformar cada uma das provocações dela em força para querer ir mais longe ainda. Eu faço o meu trabalho com toda a atenção possível, chego antes do horário marcado, estudo cada campanha nova, procuro entender o que cada marca quer passar, tento dar o melhor de mim em cada clique da câmera. Quero que um dia, quando alguém me ver ou ouvir o meu nome, a primeira coisa que pensem não seja "irmã do Mbappé", mas sim "aquela é a Catarina, a modelo que faz um trabalho lindo".
Além de Kylian, tenho poucas pessoas que realmente me enxergam como eu sou, sem máscaras e sem rótulos. Tenho Carolina, minha melhor amiga desde os sete anos de idade, que esteve comigo antes de qualquer fama, antes de qualquer destaque, e que sempre me trata como a mesma menina com quem eu brincava na rua. E tenho Vinícius Júnior, amigo de infância do meu irmão, que se tornou um grande amigo meu também, e que sempre brinca comigo dizendo que um dia eu vou conseguir fazer todo mundo ver o quanto eu brilho sozinha. São essas pessoas que me dão forças para continuar, mesmo quando ouço coisas como as que Lívia diz.
Ela não parou por ali naquele dia, claro. Depois de alguns minutos, quando o produtor passou elogiando a forma como eu tinha conseguido transmitir a leveza que eles queriam nas fotos, Lívia comentou baixinho com outra modelo ao lado, mas alto o suficiente para que eu ouvisse perfeitamente: - Elogiam ela porque ninguém quer arrumar confusão com o irmão famoso dela. Se fosse qualquer uma de nós, teríamos que suar muito mais para ouvir uma coisa dessas.
Eu segurei firme a ponta do casaco que eu estava segurando, sentindo os dedos formigarem de raiva e tristeza ao mesmo tempo. Mas eu não me virei, não falei nada, não dei o gostinho de ver que ela tinha conseguido me atingir. Eu só respirei fundo, levantei um pouco mais o queixo e me preparei para a próxima pose.
A minha rotina como modelo não é feita só de vestidos bonitos e flashes piscando, como muita gente pensa. Tem dias que eu passo oito, dez horas em pé, trocando de roupa a cada vinte minutos, mudando de pose repetidamente até ficar exatamente como o fotógrafo quer. Tem dias que acordo com dores no corpo todo, por ter ficado horas mantendo posições desconfortáveis. Tem dias que recebo críticas que machucam, que ouço que não sirvo para determinado estilo, que não tenho o perfil que procuram. Mas cada vez que isso acontece, eu penso: é assim que eu vou aprender. É assim que eu vou crescer. E um dia, ninguém mais vai poder dizer que eu só estou aqui por causa do meu irmão.
Lívia representa tudo o que eu mais luto contra: a ideia de que eu não tenho valor próprio, de que a minha vida e as minhas conquistas não passam de reflexo da vida de outra pessoa. Mas ela também é um motivo para eu querer dar ainda mais certo. Para mostrar que sim, eu tenho um sobrenome conhecido, e tenho muito orgulho da minha família, mas que eu também tenho a minha própria história, os meus próprios sonhos e a minha própria capacidade.
Quando o expediente finalmente chegou ao fim, eu guardei minhas coisas devagar, olhando ao redor de todo aquele espaço que é o meu lugar de luta e de esperança. Lívia já tinha saído faz tempo, mas as suas palavras ainda ecoavam na minha cabeça, como sempre faziam. Mas ao invés de me sentir para baixo, eu senti aquela vontade crescendo no peito, mais forte do que tudo: a vontade de fazer o meu nome. De ser, acima de qualquer coisa, Catarina.
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💌 Recadinho rápido antes de terminar
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