A sede da Fazenda Horizonte repousava em silêncio sob o céu escuro de Itiquira. Ao redor da mansão, o pomar balançava suavemente com a brisa morna da noite. Mangueiras antigas, pés de jabuticaba e limoeiros espalhavam um perfume fresco que invadia a varanda sempre que o vento passava. Mais adiante, uma longa fileira de eucaliptos cercava a propriedade, quebrando a força das rajadas que cruzavam os campos.
A casa estava quase toda apagada. Apenas a luz do abajur no quarto do casal permanecia acesa. Valentina estava recostada na cabeceira da cama, um livro aberto entre as mãos. De vez em quando um sorriso discreto surgia ao acompanhar a história, mas logo desaparecia quando seus olhos, quase por instinto, buscavam o relógio sobre o criado-mudo.
Já passava das onze. Heitor havia saído cedo para resolver assuntos na cidade e ainda não tinha voltado. Ela fechou o livro por alguns segundos, escutando apenas o zumbido distante dos insetos e o som ritmado das folhas do pomar sendo embaladas pelo vento.
Antigamente, costumava esperar na sala, inventando desculpas para permanecer acordada. Fazia um café fresco, ligava a televisão sem realmente assistir a nada e, sempre que os faróis iluminavam a varanda, seu coração acelerava, até descobrir que a expectativa machucava mais do que a ausência.
Sorriu para si mesma, um sorriso pequeno, quase resignado. Na manhã seguinte completariam três anos de casamento. Não esperava flores, nem presentes ou que ele lembrasse da data.
Com cuidado, colocou o marcador entre as páginas, deixou o livro sobre o criado-mudo e apagou o abajur. O quarto mergulhou na penumbra, iluminado apenas pela luz da lua que atravessava as cortinas de linho.
Não sabia quanto tempo havia passado quando ouviu o discreto clique da maçaneta. A porta se fechou sem fazer barulho, e uma silhueta alta atravessou o quarto retirando a jaqueta dos ombros. Mesmo na escuridão, Valentina reconheceria aquele homem em qualquer lugar.
O cheiro de bebida chegou antes que ele se aproximasse. Ela franziu a testa. Em três anos de casamento, podia contar nos dedos as vezes em que o marido havia bebido além da conta.
- Heitor, tudo bem?
Ele ergueu os olhos ao ouvir sua voz. Por um instante permaneceu parado, apenas olhando-a. Era um olhar diferente. Não carregava a distância de sempre, nem a frieza que aprendera a aceitar. Havia algo desarmado nele, quase juvenil.
Ele caminhou devagar até a cama. Quando parou à sua frente, levantou a mão e afastou delicadamente uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela.
Valentina prendeu a respiração. Não se lembrava da última vez em que ele a tocara sem que fosse por mera formalidade. Os dedos dele deslizaram por sua face com uma delicadeza inesperada.
- Você é tão bonita... - A voz saiu baixa, rouca, arrastada pelo álcool.
Ela sorriu sem perceber.
- Você bebeu?
Ele soltou uma breve risada.
- Um pouco. - Os olhos dele continuavam presos aos dela, como se a estivesse vendo pela primeira vez. Então levou as duas mãos ao rosto da esposa. - Minha mulher.
As duas palavras atingiram Valentina de um jeito que ela jamais conseguiria explicar. Durante três anos, ouvira seu nome pronunciado com educação, respeito e distância. Nunca daquele jeito. Nunca com tanto carinho.
As lágrimas encheram seus olhos antes mesmo que pudesse impedi-las.
- Não chora... - Ele enxugou uma delas com o polegar, atrapalhado. - Você fica mais bonita sorrindo.
Ela riu entre o choro. Era estranho, inesperado, mas, acima de tudo, o que ela sonhara ouvir desde o dia em que se casara.
Sem pensar, envolveu a cintura dele com os braços. Heitor correspondeu ao abraço imediatamente, escondendo o rosto entre seus cabelos. Ela sentiu o calor de sua respiração, o perfume amadeirado do sabonete misturado ao leve cheiro de uísque e, pela primeira vez em três anos, não havia um abismo entre os dois.
Naquela madrugada, ele a beijou como um homem que encontrava o caminho de casa depois de muito tempo perdido.
Cada gesto, cada carinho e cada palavra dita em voz baixa alimentavam uma esperança que ela havia tentado sufocar durante anos. Talvez o coração dele tivesse levado mais tempo do que o dela. Talvez aquele casamento finalmente estivesse começando.
Quando tudo se aquietou, ela permaneceu alguns minutos deitada ao lado dele, observando seu rosto relaxar aos poucos até o sono chegar.
Levantou-se em silêncio e foi até o banheiro. A água quente escorria por seus cabelos enquanto um sorriso insistia em permanecer em seus lábios. Fechou os olhos e deixou que as gotas corressem por seu rosto, sem conseguir distinguir quais vinham do chuveiro e quais eram lágrimas.
Naquela noite, pela primeira vez desde o casamento, ela acreditava que Deus finalmente respondera às orações que fazia em silêncio antes de dormir.
Vestiu uma camisola limpa e voltou ao quarto. Heitor já dormia profundamente, respirando de maneira tranquila, completamente alheio ao turbilhão que havia provocado no coração da esposa.
Valentina aproximou-se devagar, levantou o lençol e deitou-se ao seu lado. Por alguns segundos apenas o observou. Depois, vencida pelo carinho que transbordava em seu peito, acomodou-se cuidadosamente contra ele, apoiando a cabeça sobre seu peito largo. Se aquela fosse a forma que o amor encontrara para chegar até eles, não se importava por ter esperado três anos.
Adormeceu abraçada ao homem que amava, acreditando, com toda a sinceridade do seu coração, que ao amanhecer começaria a parte mais bonita da história dos dois.
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Sombra da noite, luz do amanhã
RomanceDurante três anos, Valentina tentou conquistar o coração do homem que amava e fracassou. Convencido de que a esposa era uma interesseira, Heitor nunca lhe negou luxo, conforto ou dinheiro, apenas o que ela mais desejava: seu amor. Mas quando ela par...
