1. O influente e possessivo Guilherme Araújo

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Eu amava Santo Amaro.

Amava o cheiro de terra molhada depois da chuva, o som dos atabaques longe, o jeito como o sol caía sobre o Rio Subaé e fazia a água parecer ouro sujo. Amava a Bahia inteira com uma fidelidade quase religiosa. Mas eu sabia, desde muito cedo, que ela não ia caber em mim para sempre. Ou, melhor: eu não ia caber nela. Para crescer de verdade, para virar o que eu sentia que podia ser, precisava sair. Precisava do Rio. Precisava do risco.

Foi por isso que desci no aeroporto com uma mala pequena e o coração dividido ao meio. Bethânia estava começando a estourar e eu vinha atrás dela como sombra, como escudeiro, como o irmão que ainda não tinha admitido em voz alta que também queria o holofote só para si. Ninguém sabia meu nome. Eu era só o baiano quieto que carregava o violão da irmã e observava tudo com uma fome antiga.

Foi quando conheci Guilherme Araújo.

Ele era o tipo de homem que entrava numa sala e a temperatura mudava. Produtor, empresário, alguém que já tinha colocado meia dúzia de nomes no mapa. Eu o vi pela primeira vez num ensaio de Bethânia, de camisa branca impecável e um sorriso que parecia calcular o valor de cada pessoa presente. Ele me olhou por tempo demais. Eu deixei.

Parou na minha frente, me olhou de cima a baixo e estendeu a mão.

— Você é o irmão.

— Caetano — corrigi.

Ele sorriu de canto.

— Caetano. Fica bom no cartaz. Melhor ainda na boca do povo.

Nas semanas seguintes ele começou a aparecer. Me levava para jantar em lugares caros. Uma noite, depois do segundo uísque, colocou a mão sobre a minha na mesa e falou baixo:

— O Brasil está pronto para uma voz nova. Mas voz nova sozinha não sobe. Precisa de alguém que abra a porta.

Eu não retirei a mão.

— E você abre?

— Eu abro. Se você deixar.

Não foi amor. Nunca foi. Eu já tinha me envolvido com outros homens antes — em Salvador, em noites discretas, em quartos de pensão onde ninguém perguntava nomes. Sabia o gosto daquilo. Sabia a diferença entre desejo e necessidade. Com Guilherme era necessidade pura. Ele tinha as chaves. Eu precisava delas. Nas semanas seguintes ele começou a me levar para jantar em lugares caros, a falar de contratos, de estúdios, de como o Brasil precisava de uma voz nova, masculina, inteligente, bonita. Eu aceitava os jantares. Aceitava as mãos dele na minha cintura quando estávamos sozinhos. Aceitava o preço. Porque eu queria gravar. Porque eu queria deixar de ser invisível. Porque, naquela altura, eu já tinha entendido que talento e beleza sozinhos não bastavam.

Dedé era a única pessoa com quem eu ainda falava a verdade. Amiga de infância, a única que me tratava como o menino que cantava nas calçadas de Santo Amaro. Eu escrevia cartas longas para ela, contando quase tudo. Quase.

Foi numa noite de 1965 que tudo mudou.

Bethânia tinha um show no Teatro Paramount. Eu fui. Não só por ela. Por curiosidade. O lugar estava lotado de estudantes, de uma energia jovem que o Rio ainda não tinha aprendido a domesticar. Eu fiquei no fundo, encostado na parede, fumando um cigarro que Guilherme tinha me dado.

E então ele subiu no palco.

Eu já o conhecia dos jornais. Chico Buarque de Hollanda. O menino certo. O filho do intelectual. O garoto tímido que escrevia músicas bonitas e parecia ter nascido para agradar às mães e aos críticos ao mesmo tempo. Demasiado limpo. Demasiado certinho. Eu achava que sabia exatamente o tipo.

Até ele começar a cantar.

Alto. Magro. Cabelo escuro caindo sobre a testa. E aqueles olhos azuis que a luz do holofote transformava em algo quase transparente. Quando soltou o primeiro verso de "Olê, olá", a sala inteira parou de respirar. A melodia era simples. A letra, ainda mais. Mas havia nele uma facilidade absurda, uma beleza que não pedia licença. Eu fiquei parado, o cigarro queimando entre os dedos, sentindo alguma coisa se mexer no peito de um jeito que eu não reconhecia.

Não era só atração. Eu já tinha sentido atração antes. Era outra coisa. Mais perigosa. Mais silenciosa. Como se, de repente, o menino certinho dos jornais tivesse se transformado na coisa mais linda que eu já tinha visto na vida.

Quando o show acabou, pedi um pedaço de papel a alguém e copiei a letra inteira de memória. Depois fui para casa e escrevi para Dedé:

"Conheci um cara que é a coisa mais linda."

Não contei que eu tinha esquecido completamente de Guilherme Araújo naquele instante.

Não contei que, pela primeira vez, o interesse me pareceu pequeno demais.

Contei só que ele existia.

E que eu precisava vê-lo de novo.

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Espero que gostem, perdoem a capa de IA.

O verdadeiro amor de Caetano VelosoStories to obsess over. Discover now