Capítulo 1 - O Dia do Despertar

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A manhã chegou com cheiro de pão queimado e o barulho de galinhas brigando no quintal.

Catreia abriu os olhos devagar. O teto de madeira escura era o mesmo de sempre - tábuas mal encaixadas por onde entrava uma linha fina de luz. Ficou ali deitada mais um instante, sentindo o coração bater rápido demais para uma manhã qualquer.

Mas não era uma manhã qualquer.

Hoje ela completava quinze anos. Hoje era o dia do Despertar.

- Catreia! - A voz da mãe veio da cozinha, abafada pelo crepitar do fogo. - Se não levantar agora, vai chegar atrasada na Igreja e os sacerdotes não vão esperar por você.

Ela se sentou na cama estreita e olhou para as próprias mãos. Mãos de quem carregava baldes d'água e arrancava ervas daninhas desde que aprendeu a andar. Mãos de plebeia. Nada de especial.

Pelo menos era o que todos diziam.

Catreia vestiu a túnica limpa que a mãe havia separado na noite anterior - a melhor que tinham, remendada apenas duas vezes - e desceu a escada rangente. Na cozinha, a mãe mexia uma panela de mingau com o rosto cansado de quem acordou antes do sol. O pai já tinha saído para o campo.

- Come rápido - disse a mãe sem olhar para ela. - E não faz essa cara de quem vai pra forca. É o Despertar, menina. Devia estar feliz.

- Eu estou feliz - mentiu Catreia, enfiando uma colherada de mingau na boca.

A verdade é que estava apavorada.

Na vila de Elden, o Despertar era a coisa mais importante na vida de qualquer pessoa. Você entrava na Igreja dos Cinco Dragões Primordiais como criança e saía com uma classe e uma magia. Guerreiro, curandeiro, paladino, mago - o que quer que os dragões decidissem, aquilo definiria o resto da sua existência.

Para os filhos de nobres, o ritual era uma celebração. Chegavam em carruagens, vestidos de seda, com famílias inteiras torcendo por classes raras. Para os plebeus como Catreia, era uma loteria. A maioria recebia classes comuns - trabalhador, artesão, fazendeiro - e voltava para a mesma vida de antes, só que agora com um título oficial para a miséria.

Catreia terminou o mingau, lavou a tigela e saiu de casa.

A vila de Elden era pequena o bastante para que todos se conhecessem e mesquinha o bastante para que todos se vigiassem. As casas de pedra e madeira se amontoavam ao redor de uma praça de terra batida, e no centro dela, erguida como um punho de mármore branco, ficava a Igreja.

Outros jovens já estavam reunidos na frente do templo. Catreia reconheceu todos - eram os mesmos rostos que via desde que nasceu. Alguns riam de nervoso, outros fingiam indiferença. Dois filhos do prefeito da vila exibiam capas novas bordadas com fio de prata.

Ninguém chamou Catreia para conversar. Ninguém nunca chamava.

Não era crueldade, exatamente. Era mais como se ela fosse transparente. A garota quieta que morava na casa do fim da rua, filha de camponeses sem nome, que nunca fez nada digno de nota. Invisível por natureza.

Ela apertou os punhos dentro das mangas da túnica e entrou na Igreja junto com os outros.

O interior do templo era a coisa mais bonita que existia em Elden. Cinco estátuas colossais se erguiam em semicírculo atrás do altar - os Cinco Dragões Verdadeiros, esculpidos em pedra de cores diferentes. O negro de Alart. O dourado de Cereste. O azul profundo de Agaramar. O verde florido de Aurola. O vermelho e negro de Ainscede. Cada estátua tinha olhos feitos de pedras preciosas que pareciam brilhar com luz própria.

Catreia sempre sentiu algo estranho quando olhava para aquelas estátuas. Uma espécie de zumbido baixo no fundo do peito, como se algo dentro dela respondesse à presença delas. Nunca contou isso a ninguém.

O sacerdote principal - um homem velho de barba branca e olhos fundos - ergueu as mãos pedindo silêncio.

- Jovens de Elden. Hoje vocês se apresentam diante dos Cinco Primordiais. Eles olharão para dentro de vocês e revelarão aquilo que já existe em suas almas. Não temam. Não resistam. Apenas se entreguem.

Um por um, os jovens foram chamados ao altar.

O primeiro filho do prefeito recebeu a classe de espadachim. Aplausos. O segundo, paladino. Mais aplausos. Uma garota loira recebeu curandeira e chorou de alívio. Um rapaz forte virou guerreiro e socou o ar. Artesão. Fazendeiro. Fazendeiro. Arqueiro.

- Catreia.

O nome dela soou estranho no silêncio do templo, como se não pertencesse àquele lugar.

Ela caminhou até o altar com as pernas tremendo. O sacerdote colocou as mãos sobre sua cabeça e fechou os olhos. O círculo mágico gravado no chão de mármore começou a brilhar - um brilho suave e branco, como sempre acontecia.

Então algo mudou.

O brilho branco se intensificou. Não aos poucos - de uma vez, como se alguém tivesse acendido um sol dentro do templo. Catreia sentiu o chão vibrar sob seus pés. O ar ficou denso, pesado, carregado de algo que ela não sabia nomear.

O sacerdote arregalou os olhos e recuou um passo.

As cinco estátuas brilharam.

Não uma. Não duas. As cinco, ao mesmo tempo. O negro de Alart pulsou com uma escuridão que engoliu as sombras ao redor. O dourado de Cereste faiscou como se o próprio tempo hesitasse. O azul de Agaramar ondulou como o céu se curvando. O verde de Aurola floresceu - pequenas flores de luz brotaram nas rachaduras da pedra. O vermelho e negro de Ainscede tremeu, e por um instante o ar ficou frio como o hálito de um túmulo.

Durou três segundos. Talvez menos.

Depois, tudo parou. O brilho se apagou. As estátuas voltaram a ser pedra. O silêncio caiu sobre o templo como uma lâmina.

Catreia estava de pé no centro do altar, ofegante, sem entender o que tinha acontecido.

O sacerdote a encarou com uma expressão que ela nunca tinha visto no rosto de um adulto - não era admiração, não era medo. Era as duas coisas ao mesmo tempo, misturadas com algo que parecia incredulidade pura.

Ele engoliu em seco. Olhou para o círculo mágico no chão, onde as inscrições ainda fumegavam.

- Classe... maga - disse ele, a voz rouca. - Afinidade... luz.

Só isso. Disse só isso.

Mas Catreia viu. Viu que as mãos dele tremiam. Viu que ele olhou para as cinco estátuas uma por uma, como se procurasse uma explicação que não existia. Viu que ele abriu a boca para dizer mais alguma coisa e depois a fechou, como quem decide guardar um segredo que é grande demais para ser dito em voz alta.

- Pode voltar ao seu lugar - murmurou o sacerdote.

Catreia voltou.

Ninguém aplaudiu. Maga não era uma classe rara o bastante para impressionar, e luz era uma afinidade considerada bonita mas fraca. Alguns dos outros jovens trocaram olhares de tédio. Os filhos do prefeito nem se deram ao trabalho de olhar.

Mas Catreia não estava prestando atenção neles.

Estava prestando atenção no que sentia dentro de si.

Algo tinha mudado. Algo enorme, silencioso e impossível de ignorar. Era como se cinco rios tivessem se aberto dentro do seu peito ao mesmo tempo - cinco correntes de algo que não era exatamente mana, mas que pulsava junto com ela, entrelaçado, vivo. Uma escuridão profunda. Um brilho dourado. Uma vastidão azul. Um calor verde. Um frio vermelho e negro.

Cinco presenças. Cinco bênçãos.

Catreia fechou os olhos e apertou as mãos sobre o peito.

Ninguém sabia. Nem o sacerdote, que tinha visto as estátuas brilharem mas não entendia o que aquilo significava. Nem os outros jovens, que já tinham esquecido o nome dela. Nem sua mãe, que esperava em casa com mais uma panela de mingau.

Ninguém sabia que, naquela manhã, numa vila esquecida chamada Elden, uma garota invisível tinha sido tocada por cinco deuses.

E o mundo ainda não fazia ideia do que isso significava.

A Escolhida Dos PrimordiaisStories to obsess over. Discover now