É tomada pela dor, pela angústia, o pesar e o medo que escrevo isso. É meia-noite e vinte e quatro. Tomei uma decisão que gerou consequências. Uma parte de mim acha que foi a certa. Outra está com tanto medo que se tivesse durado mais um segundo eu estaria vomitando.
Nada está bem. Nada está bem. Nada está bem.
De todos os meus crimes, o de machucar alguém sempre é o que mais me assusta e hoje eu machuquei. Não qualquer um: um igual. Alguém tão importante e especial que me aperta a garganta toda vez que respiro. Como se a própria existência estivesse me punindo pelo que fiz.
Somos água e óleo. Vinho e cachaça. Noite e dia. E agora finalmente entendo o porquê da distância. Por que alguém nos jogou tão longe um do outro se somos tão parecidos.
Nos mataríamos juntos. Nos destruiríamos até não restar nada. Ainda assim... há sempre um anseio humano e repulsivo, por proximidade, atenção, carinho.
De todas as hipóteses a pior foi essa e agora está feito. Não deveríamos nos encontrar. Sentimos demais. Sofremos demais. Sangramos demais. Meus olhos sangram. Meu estômago arde. Meu corpo quer tanto ceder. Quero tanto costurar minha boca. Não falar mais nada, nunca mais. Evitar aquilo tudo. Não vi seu olhar. Mas o senti. Não vi sua dor. Mas sei que foi tal como a minha. Sei que estou correndo. Fugindo. Desesperada. Assustada. Apavorada. Sei que o meu caminho está para o norte. E o seu para o sul. Sei disso da mesma forma que sei que o sol nascerá amanhã. Mas ainda sim... o temor é tanto que quero nunca mais te ver.
Quero evitar ver as feridas que causamos um ao outro. Quero me afogar em solidão. Um lugar escuro onde não há como machucar ninguém além de si mesmo.
Porra como dói. Sei que me entende. Sei que sente o mesmo. Sei que está queimando como fogo. Sei que quero arrancar meus pulmões e esquartejá-los. Dar meu coração aos tubarões e reduzir tudo ao esquecimento.
Minha decisão foi tomada. Não há caminho de volta. E se eu perder tudo? Não há "e se". Se perdi, perdi. Nada pode ser feito e apodrecerei por completo. Amarrada enquanto estiver viva por uma promessa: "estarei aqui".
Sim. Preciso estar. Mesmo que me custe minha própria saúde e minha própria sanidade. Mesmo que me custe minha alegria. Estarei até que me liberte.
É uma e cinco da manhã. Por mais que haja muito a ser dito, não sou capaz de continuar, se não engasgaria em sofrimento.
