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A CHEGADA

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Eu sempre achei que mudanças tinham cheiro. A minha tinha cheiro de estrada molhada, de despedida e de um futuro que eu não tinha pedido. A cidade parecia pequena demais para tudo que eu carregava dentro de mim. As casas eram baixas, as ruas estreitas, e o céu parecia mais perto — como se estivesse me observando.

Quando o carro parou em frente à casa dos meus tios, senti o estômago revirar. A varanda estava iluminada por uma luz amarela, e três figuras me esperavam. Junior acenava como se estivesse prestes a explodir de alegria. Jean e Moisés, os mais velhos, me observavam com aquela curiosidade silenciosa que sempre me deixou desconfortável.

Lila correu até mim e me abraçou tão forte que quase tirou meu ar.

— Diana, minha querida! Finalmente aqui.

Eu tentei sorrir, mesmo com o coração apertado.

João pegou minha mala e me guiou para dentro. A casa era simples, mas acolhedora. Cheirava a café, madeira e algo que eu só podia chamar de família.

Junior não parava de falar. Jean me observava como se tentasse entender quem eu era. Moisés sorria como se já soubesse que minha vida ia virar de cabeça para baixo ali.

Naquela noite, deitada na cama nova, ouvi a chuva batendo na janela. A cidade parecia respirar devagar, como se estivesse me dando tempo para me adaptar. Eu fechei os olhos e tentei acreditar que tudo ficaria bem.

E assim começou minha nova vida.

Os dias seguintes foram uma mistura de estranhamento e descoberta. A casa dos meus tios era sempre cheia de vozes, risadas e discussões. Eu ajudava Lila na cozinha, conversava com João sobre coisas simples, e aos poucos, começava a me sentir menos deslocada.

Mas a escola... a escola era outra história.

Na noite anterior ao meu primeiro dia, eu fiquei olhando pela janela, observando as luzes da cidade. O vento frio entrava pela fresta, trazendo o cheiro de terra molhada. Eu me perguntava como seria acordar e caminhar por corredores desconhecidos, encontrar pessoas que nunca tinham ouvido meu nome.

Eu não sabia, mas aquele primeiro dia mudaria tudo...


Acordei cedo, antes mesmo de Lila bater na porta. O céu ainda estava azul escuro, e a casa silenciosa. Vesti a roupa que tinha separado e desci para a cozinha, onde Junior já estava devorando pão com manteiga.

— Nervosa? — perguntou ele, com a boca cheia.

— Um pouco — respondi.

— Relaxa. Vou estar com você o tempo todo.

Saímos juntos. A cidade parecia diferente pela manhã: mais viva, mais barulhenta, mais cheia de possibilidades. O caminho até a escola era curto, mas cheio de detalhes — casas antigas, árvores enormes, cachorros que nos seguiam por alguns metros.

Quando chegamos, senti o coração acelerar. A escola era menor do que a minha antiga, mas parecia pulsar. Grupos conversavam, riam, discutiam. Junior me guiou pelos corredores como se fosse um guia turístico.

— A sala é ali. E meus amigos ficam sempre perto da quadra.

Quando chegamos ao grupo, vi Jean e Moisés conversando com um garoto que eu não conhecia.

Jackson.

Ele levantou o olhar, e por um instante, tudo ficou mais lento. Não sei explicar. Foi como se o mundo tivesse segurado o fôlego.

— Então você é a famosa prima — disse ele, com um sorriso torto.

— Famosa? — perguntei, rindo.

— Junior fala muito.

Junior empurrou o amigo de leve. — Cala a boca.

Jackson estendeu a mão. — Sou Jackson.

— Diana.

Quando nossas mãos se tocaram, senti um arrepio que não fazia sentido nenhum.

Eu não sabia, mas aquele momento seria o início de tudo.

Os dias seguintes foram uma mistura de adaptação e descoberta. A escola tinha seus próprios ritmos, suas próprias regras invisíveis. Eu observava tudo, tentando entender onde eu me encaixava.

E aos poucos, comecei a perceber que algumas pessoas estavam mais interessadas em mim do que eu imaginava.

Especialmente Jackson.

Jackson aparecia nos intervalos, sentava ao meu lado, fazia perguntas sobre minha vida. Às vezes parecia distante, outras vezes intenso demais. Ele tinha aquele tipo de olhar que parecia ver mais do que eu mostrava.

Um dia, enquanto caminhávamos para casa, ele perguntou:

— Você gosta daqui?

— Ainda estou tentando descobrir — respondi.

— Eu também — disse ele. — Às vezes acho que não pertenço a lugar nenhum.

— Acho que todo mundo sente isso.

Ele me olhou como se estivesse tentando decifrar cada palavra.

— Você fala como alguém que já viveu muito.

— Talvez eu só tenha sentido muito.

Ele sorriu, mas havia tristeza naquele sorriso.

E eu senti que queria entender aquela tristeza.

Mas nem tudo era simples. Nem tudo era leve.

Junior começou a mudar.

E eu comecei a perceber que meus sentimentos estavam criando sombras onde antes havia luz.

Entre o Fogo e o AbrigoDes histoires addictives. Découvrez maintenant