Se você o perguntasse a definição de inferno, ele não diria fogo ou enxofre. Peter diria o sofá da sua sala. Três noites. Três noites inteiras dobrado feito um canivete cego naquele monte de mola estragada porque sua mãe cismou que seu quarto era o lobby de uma praga bíblica.
— Tudo começou com as baratas. Elas estavam em todo lugar. No banheiro, na cozinha, perto dos potes de veneno... aliás, eu tinha quase certeza de que ia acabar engolindo aquele pó branco por acidente numa noite de sonambulismo.
— Eu não duvido que você tomaria de propósito — o Jason soltou, sem nem tirar os olhos da guitarra. Ele estava encostado no amplificador, ajustando a afinação com aquele sorrisinho.
— Cala a boca, Jason — resmungou, voltando à sua narração. — Enfim. A coisa fudeu de verdade quando apareceu a porra de um rato na cozinha. Minha mãe deu um grito que deve ter acordado a rua inteira e cismou que o bicho tinha saído direto do meu armário. Me chutaram do meu próprio quarto no mesmo dia. Chamaram a dedetização, espalharam veneno até nas paredes e simplesmente me largaram na sala. Ninguém me avisava de nada. Eu parecia um refugiado na minha própria casa.
Os dois continuavam ouvindo com atenção. Mais ou menos.
— No terceiro dia, eu não aguentava mais sentir minhas costas estalando. Levantei, fui até o meu quarto, que ainda cheirava a cemitério de inseto, mas o quarto tava limpo. Só que quando eu voltei pro corredor... lá estava ela. Uma barata cascuda, do tamanho do meu polegar, saindo bem debaixo da porta do quarto da Sarah.
Jason parou de mexer nas tarraxas e o encarou.
— Eu entrei naquela porcaria de quarto — continuou, engrossando a voz. — E adivinha? Embaixo da cama daquela garota parecia o lixão da cidade. Resto de salgadinho, embalagem de chocolate derretida, farelo de biscoito de dois anos atrás. A desgraçada tava criando um ecossistema próprio ali dentro e a culpa caindo nas minhas costas!
Silêncio na garagem.
A Tracy estava encostada na parede, de braços cruzados, segurando o baixo pendurado no ombro. Ela soltou uma risada seca e debochada, balançando a cabeça.
— Que historinha emocionante, Peter — ela disse, rolando os olhos. — Sério, é a quarta vez que você falta no ensaio este mês. Eu tenho que reconhecer, pelo menos as suas desculpas estão ficando mais criativas.
— Não é mentira, porra! — aumentou o tom, batendo com a baqueta no prato de condução, fazendo um barulho estridente. — Meu quarto tá fedendo a produto químico até hoje!
— Esse cheiro de podre exalando de você não é dedetização não, meu filho — Tracy retrucou, apontando o dedo. — É a porcaria do cigarro impregnado na sua pele.
— Chega, os dois — o Jason interrompeu, suspirando e finalmente ajeitando sua postura. — Peter, papo reto. Da próxima vez que você furar, você tá fora da banda. A gente tem a apresentação da escola chegando e não dá pra subir no palco sem baterista.
Peter engoliu em seco. Olhou para os dois, mantendo a postura mais indiferente e arrogante que conseguiu arranjar. Trancou os braços sobre o peito e deu um sorriso de canto, como se a ameaça dele fosse a coisa mais patética do mundo.
— Claro, me expulsem. Mas boa sorte arrumando outro compositor do meu nível.
A Tracy resmungou um xingamento e começou a afinar o baixo de novo, ignorando sua fala. O Jason deu uma risadinha fraca e voltou a olhar pra guitarra. Peter continuava girando a baqueta em seus dedos fingindo não se importar que sua amizade com o ruivo dependia dessa banda.
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After Dark | Your Boyfriend
FanfictionGosto de pensar nessa história como o passado que premeditou Your Boyfriend. Eu não sei, na minha opinião o Peter teve motivos pra se isolar de todos no meio de uma floresta enfiado numa cabana, eu faria o mesmo se descobrisse que minhas ações (que...
