Estar a bordo do Nadia Keane é um tanto confuso.
Desde o soco que Hall me deu, minhas lembranças parecem um quebra-cabeça. Lembro do Octopos em chamas e de nossa luta.
Abro os olhos devagar. Estou deitado em uma rede, cercado por piratas fedorentos que roncam bem, bem alto.
Me levanto e cambaleio até o convés, em busca de ar fresco. Minha cabeça gira e meu abdômen arde por debaixo das bandagens.
- Droga... estou sangrando. - murmuro zangado comigo mesmo.
Vejo Patrick escorado na amurada, olhando para o mar. Não tenho forças para discutir com ele agora, mas me aproximo mesmo assim.
- Tudo bem? - Pergunto, parando ao lado dele. Não é o tipo de coisa que perguntariamos um para o outro normalmente. Principalmente vindo de mim.
Ele se vira para me encarar. Por um segundo meu coração dá uma leve falhada. O que diabos está acontecendo comigo?
Por um instante, penso que ele vai simplesmente me ignorar, mas então ele balança a cabeça em afirmação, e diz:
- Sinto muito.
Inclino a cabeça, confuso.
- Sente muito pelo quê?
- Pelo Octopos. - ele se vira para o mar novamente. - Por que está acordado?
Me apoio na amurada, sentindo dor no abdômen. Tento não parecer tenso.
- Caramba, você é inescrutável. - minha voz sai rouca. Ele volta a me encarar, então respondo sua pergunta, meio sem graça: - Eu perdi o sono.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Ergo os olhos e vejo nuvens escuras engolirem as poucas estrelas que haviam ali. Alguns raios cortam o céu e a chuva começa a cair timidamente.
Volto meus olhos para Patrick e percebo que ele já estava me observando. Abro a boca para dizer algo, mas o convés parece girar.
Aperto a mão contra o abdômen. O calor viscoso escorre entre meus dedos. Quando afasto a mão, ela está coberta de sangue.
Patrick dá um passo a frente e tento recuar por reflexo, mas meu corpo cede e perco o equilíbrio. Ele me segura e passa o braço pela minha cintura, me guiando até sua cabine.
- Você é um idiota.
- Já ouvi isso antes - murmuro e tento rir, mas tudo dói e começo a tossir.
- Claramente não ouviu o suficiente. - ele diz num suspiro cansado.
Patrick passa um dos meus braços por cima dos ombros e me guia pelo corredor estreito do navio. Tento acompanhar seus passos, mas minhas pernas parecem feitas de chumbo.
O balanço do mar não ajuda.
Ergo os olhos para ele.
Faz anos desde a última vez que estivemos tão perto. Consigo sentir o cheiro de maresia impregnado em suas roupas, que se confunde ao de chuva. Uma pequena cicatriz atravessa seu maxilar, sobe pela bochecha, desaparece por um instante e volta a surgir na sobrancelha.
Quando foi que ele ficou tão... diferente? Eu lembro daquele garoto magricela do orfanato, tão... sensível. O homem ao meu lado ainda é ele.
Só que o tempo foi cruel com nós dois.
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Bem debaixo do seu nariz | KirkHall
FanfictionApós o naufrágio do Octopos, John e sua tripulação passa um tempo no Nadia Keane, até sairem do Mar Oculto e chegar em Kamalari. Durante esses dias, Patrick e John se aproximam mais que o desejado.
