Capítulo 1 - O Filho de Duas Lendas

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O trovão ecoava em Wakanda, mas não vinha do céu. Era o pulsar ritmado dos grandes tambores de guerra, um som que fazia o próprio solo de Vibranium tremer sob as montanhas sagradas.

Lá fora, os reluzentes agulheiros de metal e a arquitetura ancestral do reino brilhavam sob o sol dourado da tarde. Milhares de cidadãos preenchiam a praça diante do Palácio Real para saudar o futuro. No entanto, no interior do corredor de pedra obsidianina, o ar parecia rarefeito para Azari T'Challa.

Ladeado pelo silêncio vigilante das Dora Milaje, o jovem príncipe ajustou a túnica cerimonial. O tecido trazia bordados intricados em prata e azul elétrico — uma fusão visual entre a sobriedade majestosa de seu pai e a força elemental de sua mãe.

Ele não precisava erguer os olhos para sentir os olhares.

— Olhe para ele... — o murmúrio da multidão atravessava até as paredes grossas do palácio. — A força do Rei, o domínio dos céus. O herdeiro perfeito.

Azari apertou os punhos. O herdeiro. Raramente usavam seu nome. Ele era a soma de dois gigantes, uma lenda viva em construção antes mesmo de ter a chance de decidir quem desejava ser.

Ao fim do corredor, no pátio elevado, o Rei T'Challa o esperava com a postura impecável de quem carrega a pantera no peito. Ao seu lado, com os cabelos brancos fluindo como uma tempestade contida, estava Ororo Munroe.

Ao se aproximar, Azari curvou a cabeça brevemente, tentando disfarçar a rigidez nos ombros. Seu pai, contudo, via através de qualquer camuflagem.

— O peso de uma coroa invisível é sempre o mais difícil de carregar, meu filho — disse T'Challa em tom baixo, aproximando-se e pousando uma das mãos firmes sobre o ombro do rapaz.

— Não é a coroa que me preocupa, pai — murmurou Azari, encarando os olhos calmos do rei. — É o que esperam que eu faça quando ela for minha.

T'Challa deu um leve sorriso, o olhar transbordando compreensão ancestral.

— Você superou os testes das Dora Milaje aos doze anos, mapeou circuitos de Vibranium com a tia Shuri e invocou seu primeiro raio aos dez. O povo não espera um milagre, Azari. Eles apenas veem o potencial que você recusa aceitar.

Mais tarde, com o fim das formalidades, Azari buscou o isolamento dos jardins suspensos. Ali, a tecnologia utópica de Wakanda se misturava em perfeita harmonia com a vegetação intocada. Mas nem mesmo a brisa fresca conseguia acalmar sua mente.

— Pensamentos turbulentos atraem céus turbulentos.

Azari virou-se para encontrar sua mãe. Ororo caminhava suavemente entre as flores reluzentes, os olhos fixos na atmosfera acima deles.

O jovem olhou para cima e sobressaltou-se. Nuvens escuras e denso ar estático se acumulavam em um pequeno redemoinho justo sobre a cabeça dele. Físcas de eletricidade azul riscavam o ar com um chiado suave.

— Eu não percebi... — disse ele, fechando os olhos e concentrando-se. Ele respirou fundo, desacelerando o próprio pulso até que a eletricidade se dissipasse e as nuvens se desatassem em vento fraco. — Ainda sinto como se o poder estivesse me controlando, e não o contrário.

— Porque você o trata como uma força externa, como algo a ser dominado — Ororo colocou a mão espalmada sobre o peito do filho, onde o coração ainda batia acelerado. — O elemento não é uma ferramenta, Azari. Ele é a sua voz quando as palavras falham. Não lute contra o que você é.

Pela madrugada, a necessidade de respostas transformou-se em impacto físico.

No centro do complexo de treinamento subterrâneo, o som de metal colidindo ecoava sem parar. Azari esquivava, saltava e golpeava. Seus movimentos eram precisos, fluindo com a agilidade natural dos guerreiros da Pantera, mas seus olhos mostravam o cansaço.

Três drones de combate de última geração circulavam o jovem, aumentando progressivamente a velocidade dos ataques. Azari bloqueou um disparo de energia, girou sobre o próprio eixo para derrubar o segundo, mas o terceiro drone aproveitou o microssegundo de hesitação e o atingiu com uma onda de choque.

O impacto o arremessou contra o chão sintético. As luzes dos drones se apagaram em modo de espera.

— O excesso de esforço geralmente mascara a falta de foco.

T'Challa observava da entrada do dojo, encostado na estrutura de acesso.

— Eu preciso estar pronto — disse Azari, levantando-se com dificuldade e limpando um filete de suor da testa. — A qualquer momento o manto será meu. Se eu falhar, o legado de vocês cai comigo.

T'Challa caminhou devagar até o centro da arena.

— Quando assumi o manto da Pantera Negra após a morte do meu pai, achei que meu dever era ser uma cópia perfeita de todos os reis que vieram antes de mim. Errei. O manto não serve para criar uma moldura onde você se força a encaixar. Ele serve para proteger o que você escolhe construir.

O Rei encarou o filho com orgulho direto, sem os filtros da realeza.

— Você não precisa ser o Pantera Negra do passado, nem a Tempestade do presente. Seja o herói que Wakanda precisará no futuro. Seja Azari.

Pela primeira vez em semanas, a tensão no peito do jovem cedeu espaço a um entendimento silencioso.

Enquanto a tranquilidade cobria as noites de Wakanda, a centenas de quilômetros dali, em uma instalação oculta sob as sombras de um desfiladeiro esquecido, o cenário era outro.

Telas holográficas exibiam dados biométricos e registros de combate de Azari T'Challa, roubados diretamente da rede de Wakanda.

Diante do brilho azulado dos monitores, uma figura observava atentamente a imagem do jovem príncipe. Em sua mão, ele girava um pequeno fragmento bruto de Vibranium, capturando a pouca luz do ambiente.

— O sangue das lendas corre nas veias dele... — sussurrou o homem, com uma voz fria e calculista.

Ele fechou o punho, ocultando a pedra reluzente.

— O povo de Wakanda dorme tranquilo sob a sombra dos seus deuses. Mas deuses envelhecem. E quando a tempestade verdadeira chegar, veremos se o garoto é um herói... ou apenas um reflexo do passado.

Pantera Negra: O Peso do LegadoHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora