Goiânia, 2016.
O bar era pequeno, apertado, com cheiro de fumaça de cigarro e cerveja derramada no chão. As luzes amareladas mal iluminavam o palco improvisado — uma plataforma de madeira que rangia a cada passo. Mas Marília não se importava.
Ela tinha 16 anos. Cabelo preto quase castanho caindo em ondas soltas pelos ombros, corpo magro, rosto ainda com traços de adolescência. As roupas simples — uma calça jeans velha e uma blusa preta desbotada. Mas nos olhos castanhos, havia um brilho que nenhuma pobreza ou cansaço conseguia apagar.
Era mais uma noite de trabalho. Cantar em barzinhos era o que ela fazia para ajudar em casa e juntar dinheiro para um sonho que parecia cada vez mais distante: ser cantora.
O microfone chiou.
Marília fechou os olhos e começou.
A voz saiu rouca, potente, cheia de uma alma que não cabia naquele corpo magro. Era uma música sofrida, daquelas que arrancam lágrimas de quem ouve. Ela cantava como se cada palavra fosse verdade, como se tivesse vivido cada dor, cada despedida, cada amor quebrado.
O público — poucas pessoas, a maioria bêbadas — prestava atenção? Não. Mas Marília não cantava para eles. Cantava para o sonho. Cantava para o futuro.
E, naquela noite, cantava para alguém que estava ali sem saber.
---
Maraisa entrou no bar com Fernando. Era uma noite qualquer, um jantar a dois depois de um dia exaustivo de reuniões. Ela estava de vestido preto, salto alto, cabelo liso e brilhante. Tinha 26 anos e já era dona da Workshow ao lado do marido — uma das maiores empresárias do ramo musical. Poder, dinheiro, influência. Ela tinha tudo.
Ou quase tudo.
O bar era simples demais para alguém do calibre dela, mas Fernando insistiu: "A comida aqui é boa, confia."
Maraisa sentou-se de má vontade, os olhos percorrendo o ambiente com desdém. Piso grudento, mesas de plástico, atendentes desleixados. Que lugar horrível. Ela já estava pensando em ir embora quando a música começou.
A primeira nota a fez paralisar.
A voz preencheu o espaço como um furacão, como se o bar inteiro tivesse virado um palco de arena. Maraisa sentiu um arrepio percorrer a espinha.
— Quem tá cantando? — ela perguntou, virando-se para o palco.
Lá estava ela. Uma menina. Magra, cabelo escuro, olhos fechados, cantando com uma entrega que Maraisa raramente via em artistas consagrados.
— Não sei — Fernando respondeu, já pegando o cardápio, indiferente. — Deve ser mais uma cantora de bar.
Maraisa não respondeu. Não conseguia desviar o olho.
A menina cantava uma música que Maraisa nunca tinha ouvido — provavelmente composição própria. A letra falava de amor não correspondido, de espera, de dor. A voz tinha uma aspereza que arranhava a alma, um timbre inconfundível, uma emoção crua que não se ensina.
Maraisa prendeu a respiração.
Ela sabia, com a certeza de quem trabalha com música há anos, que aquilo era raro. Era talento de verdade. Era ouro puro.
— Fernando — ela chamou, a voz baixa, os olhos ainda fixos na menina. — Você tá ouvindo isso?
— Tô, tô. É bonito. Mas vamos pedir logo, tô com fome.
Maraisa sentiu uma vontade absurda de levantar da mesa, ir até o palco, falar com aquela menina. Oferecer um contrato. Mudar a vida dela para sempre.
Mas não fez.
Por quê?
Talvez porque fosse tarde. Talvez porque ela estivesse cansada. Talvez porque, naquela noite, Maraisa não estava disposta a misturar trabalho com a vida pessoal. Ela estava ali para jantar com o marido, não para garimpar talentos.
Ou talvez — e isso ela nunca admitiria — houvesse algo naquela menina que a desconcertava. Algo que ia além da voz. Um brilho. Uma pureza. Uma força que Maraisa, com todo o seu poder e dinheiro, sentia que não tinha.
Ela não gostou de sentir isso.
Maraisa desviou o olhar, pegou o cardápio e forçou um sorriso para Fernando.
— Vamos pedir logo. Tô morrendo de fome.
A música continuou ao fundo, mas Maraisa fingiu que não ouvia.
A menina terminou a apresentação, agradeceu com um sorriso tímido e desceu do palco, guardando o violão numa bolsa surrada. Ela parecia cansada. Magra demais. Com roupas que não tinham nada a ver com a potência da voz que carregava.
— Aquela menina canta bem — Fernando comentou, distraidamente.
— Canta — Maraisa respondeu, a voz fria. — Mas é muito nova. Tem muito o que aprender.
Ela não disse o que realmente pensava. Não disse que a voz daquela garota tinha mexido com algo dentro dela. Não disse que, por um momento, sentiu vontade de largar tudo e levar aquela menina para o estrelato. Não disse que sentiu um aperto no peito.
Maraisa engoliu o sentimento junto com o vinho, e naquela noite, quando voltou para casa, a imagem da menina de cabelo escuro a perseguiu.
Mas ela a ignorou.
---
Do outro lado da cidade, Marília chegou em casa depois das 2 da manhã. A casa era pequena, o sofá estava cheio de roupas para lavar, e a geladeira quase vazia. Ela largou a bolsa, sentou-se no chão do quarto e contou o dinheiro.
Não era suficiente.
Nunca era suficiente.
Mas naquela noite, enquanto contava moedas, algo a fez sorrir. Ela lembrou daquele momento no palco, quando sentiu que a voz tinha alcançado alguém. Não sabia quem. Não sabia que era a dona da maior empresa musical do Brasil.
Ela só sabia que, em algum lugar, alguém tinha parado para ouvir.
E isso era o bastante para continuar sonhando.
---
2018.
Dois anos se passaram.
Marília tinha 18 anos agora. O cabelo preto quase castanho tinha dado lugar a um loiro platinado. O corpo magro da adolescência se curvou em formas de mulher. O olhar já não era tão ingênuo — os perrengues, as noites sem dinheiro, as portas fechadas na cara tinham endurecido a menina.
Ela juntou cada centavo que tinha, pegou um ônibus de 12 horas e foi para Goiânia.
Sabia exatamente onde precisava chegar.
Workshow.
Ela ia cantar para Maraisa. A dona. A maior empresária do ramo.
O que Marília não sabia é que Maraisa já a conhecia. Já a tinha ouvido. Já tinha sentido aquela voz ecoar dentro dela.
E que, dois anos depois, a vida as colocaria no mesmo lugar novamente.
Só que, dessa vez, Maraisa não iria ignorar.
---
Fim do primeiro capítulo
YOU ARE READING
Intenção Oculta - MALILA
FanfictionAos 16 anos, Marília Mendonça sonha em viver da música. Cantando em pequenos barzinhos de Goiânia para ajudar nas despesas de casa, ela chama a atenção de uma mulher que observa sua apresentação em silêncio: Maraisa Pereira, dona da Workshow, um dos...
