Cibele😈
Agora
Há quem diga que a felicidade faz barulho.
Eu nunca concordei.
Para mim, ela sempre foi silenciosa. Morava nos pequenos detalhes: no café passado antes de o despertador tocar, na cama ainda quente quando eu acordava primeiro, no cheiro do perfume de Dalila espalhado pelo apartamento mesmo depois que ela saía para trabalhar.
A felicidade era isso.
Era acordar todos os dias e perceber que, de alguma forma, a vida tinha dado certo.
Meu nome é Cibele. Tenho vinte e sete anos, um metro e cinquenta e oito de altura ou, como Dalila insiste em dizer, "um metro e meio de pura fofura ". Sou morena, tenho cabelos longos e escuros, olhos castanhos e um corpo que construí com disciplina. Nunca fui naturalmente musculosa, mas a academia se tornou parte da minha rotina desde os dezenove anos. Hoje meus braços são definidos, minhas pernas fortes e meu abdômen marcado sem exageros.
Treino porque gosto.
Porque me faz bem.
Porque me sinto viva.
Dalila diz que eu fico ainda mais bonita quando volto da academia com o rosto corado e os cabelos presos de qualquer jeito.
Eu respondo que ela só fala isso porque está apaixonada.
Ela sempre ri.
E, sinceramente, acho que continua apaixonada exatamente como no dia em que nos conhecemos.
Às vezes me pego pensando em como tudo começou.
A verdade é que eu nunca escondi de mim quem eu era.
Desde adolescente, enquanto minhas amigas suspiravam por garotos da escola, eu me distraía observando garotas. Achava bonito o jeito como algumas sorriam, como prendiam o cabelo ou gesticulavam enquanto falavam.
Demorei para entender que aquilo não era admiração.
Era desejo.
Era paixão.
Era amor.
Passei anos tentando convencer a mim mesma de que era apenas uma fase. Afinal, era isso que todo mundo dizia quando aparecia alguma notícia parecida na televisão.
"Vai passar."
Não passou.
Quando completei vinte anos, cansei de fingir.
Chamei meus pais para conversar numa noite de domingo. Eu estava tremendo tanto que mal conseguia segurar o copo de água.
Lembro de repetir mentalmente dezenas de vezes a frase antes de pronunciá-la.
— Eu gosto de mulheres.
O silêncio que veio depois pareceu durar horas.
Minha mãe chorou.
Meu pai levantou da mesa sem dizer uma palavra.
Naquela noite, achei que tinha perdido minha família.
Os dias seguintes foram difíceis. Havia perguntas demais, olhares desconfortáveis e uma distância que machucava mais do que qualquer discussão.
Minha mãe insistia em dizer que eu ainda podia mudar.
Meu pai simplesmente evitava tocar no assunto.
Mas o tempo, às vezes, trabalha melhor do que qualquer explicação.
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O sabor que faltava
RomanceCinco anos de amor foram suficientes para que Dalila acreditasse ter encontrado tudo o que procurava ao lado de Cibele. Enquanto uma relação sólida parecia resistir ao tempo, um desejo que ela julgava enterrado começa a ressurgir: a saudade de se en...
