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O Convite e a Verdade que Não Se Pode Esconder

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A noite já havia se instalado sobre Nova York, tingindo de azul profundo as vidraças da sede da Runway. Os corredores, antes cheios de passos apressados, vozes elevadas e o zumbido constante de máquinas, agora estavam mergulhados num silêncio pesado, interrompido apenas pelo som distante dos carros na Avenida Madison e pelo vento que batia suavemente nos andares altos. Todos os funcionários já haviam partido há horas, as secretárias, os editores de moda, os assistentes dos departamentos de fotografia e redação, cada um levando consigo a fadiga de mais um dia sob o olhar implacável de Miranda Priestly.

Ao menos é o que Miranda acreditava, pois duas luzes ainda permaneciam acesas no último andar: a da grande sala de Miranda, e a do pequeno escritório adjacente, onde Andrea terminava de organizar os arquivos da semana de moda em Milão.

Miranda estava sentada atrás de sua mesa de madeira escura, os dedos finos batendo levemente na borda de couro. Vestia um terno de linho preto de corte impecável, que realçava seus ombros eretos e a postura que parecia esculpida em pedra. Seus cabelos prateados, sempre arrumados com uma precisão cirúrgica, caíam em mechas perfeitas sobre a testa. Na tela do computador, a imagem de sua psicóloga, uma mulher de meia-idade, voz calma e olhar atento, a observava com paciência.

— Você adiou essa conversa por três sessões consecutivas, Miranda - disse a psicóloga, suavemente. — Não há vergonha em admitir que está ferida. Dois casamentos terminados em traição não são falhas suas, nem sinais de que você não mereça ser amada. Ou desejada.

Miranda desviou o olhar para a janela, onde as luzes da cidade pareciam estrelas caídas sobre o asfalto. Sua expressão permaneceu impassível, mas por um instante, seus dedos apertaram-se com força contra a mesa.

— E quem disse que quero ser amada? Ou desejada? Relacionamentos são um fardo. Exigem tempo, atenção... coisas que não tenho a perder.

respondeu, com a voz fria que usava para se defender de tudo.

— E além disso...

ela hesitou, e pela primeira vez em anos, sentiu a garganta apertar com uma vergonha que não esperava revelar

— ...Não é como se eu fosse capaz de receber isso.

— O quê quer dizer? perguntou a psicóloga, inclinando-se ligeiramente.

Miranda respirou fundo, e o ar pareceu pesar toneladas ao entrar em seus pulmões. Fechou os olhos, e as lembranças voltaram como facas afiadas: o primeiro marido, impaciente e rude na cama; o segundo, que fingia carinho mas nunca soube o que fazer além do movimento mecânico e rápido. Em ambos os casos, ela se deitava imóvel, deixava-os fazer o que queriam, sorria quando eles esperavam e fingia gemidos que nunca sentiu. Sempre terminava com o corpo tenso, a mente girando em vão, e o silêncio da solidão a engolindo assim que eles se afastavam.

— Eles diziam que eu era frígida

confessou, e a palavra saiu com amargura

— Que sou fria demais, distante demais, que não me entrego a nada. Que sou incapaz de sentir prazer. Me acusavam de não saber me soltar, de ser rígida até na cama. E eu... comecei a acreditar. Porque tentei, sabe? Tentei me forçar a gostar, a reagir como eles esperavam. Mas nunca deu certo. Nunca senti nada além de desconforto, de uma sensação de estar sendo usada, de estar... incompleta. Se eles não conseguiram fazer com que eu me sentisse viva, se até eles acharam que há algo de errado comigo... quem sou eu para tentar de novo?

Sua voz tremeu quase imperceptivelmente, e ela rapidamente recompôs a postura, como se o movimento pudesse apagar o que acabara de dizer.

— Nada disso é a verdade Miranda! - respondeu a psicóloga com firmeza. — O que aconteceu foi que nenhum dos dois soube te encontrar. Nenhum deles se preocupou em aprender quem você é, o que você precisa, como chegar até você. Confundiram seu silêncio com indiferença, e sua falta de reação com incapacidade. Mas isso é falha deles, não sua. Você merece alguém que tenha paciência, que queira entender cada detalhe seu. Que saiba que o prazer não é algo que se impõe, mas algo que se descobre juntos.

Aprendendo A Ser Amada Stories to obsess over. Discover now