Prólogo

1 0 1
                                        

O vento frio percorria os jardins suspensos do Palácio da Noite Eterna.
Acima deles, o céu de Tenebrae era um oceano infinito de estrelas, iluminado pela lua ancestral que parecia vigiar silenciosamente cada passo daqueles que caminhavam sob sua luz.
Muito acima das torres negras, duas enormes silhuetas riscavam os céus.
Nyxarion.
E o grande dragão prateado.
Suas asas atravessavam as nuvens como se dançassem com o próprio vento, enquanto Selene e Draemir aprendiam a voar lado a lado, unidos por um destino que ultrapassava vidas e eras.
Véspera permaneceu imóvel à beira da varanda.
Um raro sorriso suavizava sua expressão enquanto observava os dois desaparecerem e reaparecerem entre as nuvens.
Ao seu lado, Elaine também acompanhava a cena.
Havia orgulho em seus olhos.
Mas, acima de tudo...
Alívio.
Depois de tantos anos protegendo aquela menina, vê-la sorrindo novamente parecia um presente que jamais acreditara receber.
Por alguns minutos, nenhuma das duas disse uma palavra.
Apenas contemplaram o céu.
Até que Véspera rompeu o silêncio.
- Antes que esta guerra comece... existe algo que preciso que você faça.
Elaine voltou lentamente o rosto para a antiga soberana.
A serenidade da voz de Véspera contrastava com o peso daquelas palavras.
Seu coração apertou.
- O que é?
Véspera permaneceu olhando para o horizonte.
- Quero que desfaça o selo.
Elaine franziu a testa.
- Que selo?
Então compreendeu.
Seu corpo inteiro enrijeceu.
Os olhos se arregalaram.
- Não...
Ela deu um passo para trás.
- Você não pode estar falando daquele selo...
Véspera finalmente voltou seu olhar para ela.
- Estou.
O silêncio tornou-se quase insuportável.
Elaine sentiu o coração acelerar.
- O selo da Noite Eterna...
Sua voz saiu quase como um sussurro.
- Você quer que eu o desfaça?
Véspera assentiu lentamente.
- Sim.
Elaine balançou a cabeça de imediato.
- Isso é impossível.
- Não.
- Foi justamente para protegê-la que eu o mantive todos esses anos!
Sua voz tremia.
- Você mesma me pediu isso.
- Pedi.
- Então por quê?
A pergunta ecoou entre elas.
Véspera respirou profundamente antes de responder.
- Porque o tempo mudou.
Ela voltou os olhos para o céu.
Lá no alto, Selene fazia Nyxarion mergulhar entre as nuvens enquanto Draemir a acompanhava com o dragão prateado.
Os dois riam.
Ainda desconheciam o peso que o futuro lhes reservava.
- Quando pedi que selasse aquele poder...
Ela fez uma breve pausa.
- Selene ainda era uma criança.
Precisava crescer.
Precisava descobrir quem era antes de carregar aquilo que nasceu para se tornar.
Elaine permaneceu em silêncio.
Véspera continuou.
- Mas agora...
A guerra deixou de ser uma possibilidade.
Ela está vindo.
Cada dia que passa aproxima o momento previsto pela profecia.
Sua voz tornou-se mais grave.
- E quando esse momento chegar...
Selene precisará de toda a força que existe dentro dela.
Elaine sentiu um nó formar-se na garganta.
- Você está pedindo que eu liberte a Noite Eterna.
- Estou pedindo que devolva à Selene aquilo que sempre pertenceu a ela.
O vento aumentou de intensidade.
As árvores ancestrais curvaram-se suavemente.
Como se até a própria Tenebrae escutasse aquela conversa.
Elaine apertou as mãos.
- E se ela não conseguir controlar esse poder?
- Ela conseguirá.
- Como pode ter tanta certeza?
Véspera sorriu de maneira serena.
- Porque ela não é mais a jovem que chegou aqui sem compreender a própria existência.
Ela encontrou aliados.
Encontrou sua família.
Encontrou seu Velithar.
Encontrou seus dragões.
E, acima de tudo...
Encontrou a si mesma.
Ela fez uma pausa.
- O selo cumpriu seu propósito.
Agora ele apenas a impede de alcançar aquilo para o qual nasceu.
Elaine fechou os olhos por um instante.
As lembranças daquela noite distante voltaram à sua mente.
A pequena Selene dormindo em seus braços.
O ritual.
As runas.
A promessa que fizera.
Protegeria aquela menina, mesmo que precisasse esconder dela uma parte de sua própria essência.
Ela abrira mão da verdade para preservar sua vida.
Agora...
Véspera lhe pedia exatamente o contrário.
Que devolvesse à filha tudo aquilo que escondera durante tantos anos.
- Ela nunca vai me perdoar...
Véspera aproximou-se lentamente.
- Talvez, no início, ela não compreenda.
Talvez até a odeie por isso.
Mas um dia entenderá.
Porque esse nunca foi um ato de mentira.
Foi um ato de amor.
Ela pousou delicadamente uma das mãos sobre o ombro de Elaine.
- A profecia já está em movimento.
Não importa o quanto desejemos protegê-la...
Há caminhos que nem mesmo nós podemos alterar.
Os olhos dourados da antiga soberana encontraram os de Elaine.
- Selene nasceu para restaurar o equilíbrio entre os Eternos.
Mas nenhum equilíbrio pode existir enquanto parte de sua verdadeira essência permanecer aprisionada.
Elaine respirou profundamente.
Ainda havia medo.
Ainda havia dúvidas.
Mas também havia uma certeza que crescia silenciosamente dentro dela.
O momento que temera durante toda a vida finalmente havia chegado.
Véspera voltou a contemplar o céu.
Muito acima delas, Selene e Draemir desapareciam entre as estrelas, alheios à decisão que mudaria para sempre o destino de ambos.
A antiga soberana falou quase num sussurro, como se conversasse com a própria noite.
- Prepare-se, minha criança...
Muito em breve...
A Noite Eterna voltará a despertar dentro de você.
E, quando isso acontecer...
O mundo jamais será o mesmo.

O Legado da Noite EternaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora