O ar de Corinto tinha gosto de cinzas e ferro.
Da varanda de mármore do recém-tomado palácio real, a visão que se estendia era de uma beleza agonizante. As chamas que ainda consumiam os bairros periféricos pintavam a noite grega de um laranja doentio. Abaixo, na praça central, o som de correntes arrastadas pelo chão de pedra competia com o choro abafado dos sobreviventes.
Xena não piscava. Ela permanecia imóvel, com os braços apoiados no parapeito de pedra. A armadura escura, ainda suja com o sangue seco do rei deposto de Corinto, parecia absorver a pouca luz do ambiente.
Atrás dela, os passos de seu general de confiança, Darphus, ecoaram no salão. Ele hesitou por um segundo antes de se aproximar, sabendo que interromper o silêncio da Destruidora de Nações sem permissão expressa era um flerte perigoso com a morte.
- O perímetro está seguro, Xena - disse ele, a voz firme, mas baixa. - Os últimos rebeldes foram encurralados no templo de Apolo. O que fazemos com eles? E com os prisioneiros na praça?
Xena não se virou imediatamente. Quando o fez, seus olhos azuis, frios como o gelo do norte, fixaram-se em Darphus. Não havia um único traço de humanidade ou hesitação ali.
- O templo de Apolo - repetiu ela, com uma voz calma, quase um sussurro, que de alguma forma conseguia ser mais aterrorizante do que um grito. - Eles acham que os deuses vão protegê-los. Queime-o. Bloqueie as portas por fora e acenda o fogo. Que Corinto aprenda que o único poder que decide quem vive ou morre nesta cidade sou eu.
Darphus esboçou um sorriso cruel e assentiu.
- E os prisioneiros? São quase três mil. Nobres, artesãos, soldados que se renderam...
- Os soldados sobreviventes serão marcados a ferro quente e enviados para as minas de prata. Quero que trabalhem até que seus pulmões colapsem - determinou Xena, caminhando lentamente em direção ao trono improvisado no centro do salão. - Os nobres... humilhe-os. Despoje-os de suas joias e de suas roupas finas. A partir de amanhã, eles servirão o meu exército. Quero a filha do antigo rei servindo o meu vinho de joelhos antes do amanhecer.
Ela sentou-se no trono, apoiando o queixo na mão, observando o general.
- E Darphus... - ela o chamou, antes que ele cruzasse a porta. O tom de Xena era gélido. - Se eu ouvir um único sussurro de insurreição nesta noite, se um único escravo ousar levantar a cabeça, eu farei você engolir a sua própria espada na frente dos seus homens. Fui clara?
O general engoliu em seco, a arrogância sumindo de seu rosto em um piscar de olhos. Ele curvou a cabeça profundamente.
- Perfeitamente, Xena.
Sozinha novamente, a conquistadora olhou para as próprias mãos, calejadas pelo cabo da espada e pelo chicote. Ela não sentia remorso. Não sentia o menor vislumbre de piedade. Para ela, o mundo era dividido estritamente entre os que governavam e os que serviam.
Corinto havia ousado resistir ao seu nome. Agora, pagaria o preço eterno de sua audácia, ajoelhada aos pés da mulher que havia transformado a Grécia em seu próprio matadouro pessoal.
O grito que ecoou vindo da colina do templo de Apolo cruzou os céus de Corinto, misturando-se ao vento forte que soprava do Golfo. O fogo havia começado. Xena não precisava olhar para saber que as chamas já lambiam os céus, transformando o local sagrado em um forno de pedra e desespero.
Ela serviu-se de uma taça de metal pesado, mas não bebeu. Apenas observava o reflexo do fogo dançar na superfície escura do vinho.
A pesada porta de carvalho do salão do trono rangeu ao se abrir. Dois guardas brutais cruzaram o portal arrastando uma jovem mulher. Suas vestes de seda azul-celeste estavam rasgadas e sujas de fuligem, e seus pulsos estavam fortemente atados por cordas ásperas. Era **Evadne**, a filha mais jovem do falecido rei de Corinto.
- De joelhos - rosnou um dos guardas, chutando a parte de trás dos joelhos da garota.
Evadne caiu com força sobre o mármore frio. Ela tentou manter a cabeça erguida, os olhos vermelhos de choro, mas brilhando com um resto de dignidade real. Ela encarou a mulher sentada no trono de seu pai.
Xena permaneceu em silêncio. O silêncio da Destruidora de Nações era uma tortura por si só; ele preenchia a sala como uma pressão sufocante, fazendo os próprios guardas prenderem a respiração. Lentamente, Xena estendeu a taça de vinho na direção da princesa.
- Sirva-me - ordenou Xena. Sua voz era suave, quase macia, o que a tornava ainda mais ameaçadora.
Evadne hesitou por um segundo, os lábios tremendo.
- Meu... meu pai está morto. Meu povo está queimando. E você quer que eu...
Antes que a princesa pudesse terminar, Xena moveu-se com uma velocidade desumana. Em um piscar de olhos, ela desceu os degraus do trono e agarrou o queixo de Evadne com uma força que quase quebrou sua mandíbula. Os olhos azuis de Xena estavam a centímetros dos dela, desprovidos de qualquer calor.
> - Você não tem mais pai, menina. E o seu povo agora me pertence - sussurrou Xena, apertando ainda mais os dedos na carne da jovem. - Você não é mais uma princesa. Você é propriedade. E a propriedade faz o que lhe é ordenado, ou é descartada como lixo.
>
Xena soltou o rosto de Evadne com um empurrão despreocupado, fazendo a garota colidir contra o chão. A conquistadora pegou o jarro de bronze que estava sobre uma mesa lateral e o jogou aos pés da jovem escrava. O líquido vermelho derramou-se parcialmente pelo mármore.
- Limpe. E depois encha a minha taça. De joelhos.
Trêmula, soluçando baixinho, Evadne recolheu o jarro com as mãos atadas. Suas mãos tremiam tanto que o bronze batia contra o mármore, produzindo um som metálico e rítmico que ecoava pelo salão silencioso. Ela rastejou até os pés de Xena, limpando o vinho derramado com a própria manga de seda, antes de erguer o jarro e verter o líquido na taça da guerreira.
Xena pegou a taça, deu um gole lento e olhou para baixo, onde a herdeira de Corinto aguardava seu destino, de cabeça baixa.
- Excelente - disse Xena, sem qualquer traço de satisfação real, apenas uma constatação fria. - Você passará a noite acorrentada ao pé da minha cama. Se eu acordar e você não estiver lá, ou se fizer qualquer barulho... eu escolherei mais cem cidadãos de Corinto para queimar ao amanhecer. A vida deles agora depende da sua total e absoluta obediência.
Xena virou-se de costas, caminhando de volta para a varanda para observar sua nova conquista queimar sob o luar. Ela não era apenas uma conquistadora. Ela era a escuridão que Corinto nunca conseguiria esquecer.
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Destruidora de Nações
FanfictionSinopse Antes de buscar qualquer redenção, ela era o pior pesadelo do mundo conhecido. Xena, a Destruidora de Nações, não conhece a misericórdia. Onde seu exército pisa, a terra morre e os rios correm vermelhos. Movida por uma fúria fria e uma ambiç...
