Pra começar, eu me chamo Samuel Ito. Eu sei que não devia me apresentar pra porra de um caderno, mas é o que estou fazendo, minha mãe pensa que eu preciso de um psicólogo porque, desde que minha avó morreu, eu estou "deprimido" e "ansioso", de acordo com ela. E infelizmente, esse diário faz parte da terapia.
Não quero desobedecer minha mãe. Talvez pensem que eu sou um covarde por admitir isso, mas é verdade. Durante meus 17 anos, ela tem sido a pessoa mais importante pra mim, não sei se isso é uma coisa que filhos dizem ou se ela fez uma lavagem cerebral em mim pra me fazer pensar isso. Infelizmente, eu acredito nela e na minha psicóloga. Eu sempre fui ansioso e deprimido, talvez mais ansioso do que deprimido.
Lembro de uma vez, no fundamental, antes da morte da minha vó, que eu fui convidado para um aniversário e durante o verdade ou desafio, fui desafiado a beijar uma menina. Eu fiz isso e fiquei tão nervoso que literalmente vomitei na frente dela e de todo mundo na festa, essa foi a primeira vez que me lembro de ter vomitado de nervosismo e desde então, isso acontece toda vez que faço algo difícil.
Tenho vergonha de admitir, mas aquele beijo no ensino fundamental foi o meu primeiro e único, afinal não sou como o Nico, meu melhor amigo. Ele tem qualquer garota que quiser na palma da mão, às vezes sinto inveja disso, tenho inveja dele. Ao mesmo tempo, acho que deveria ser grato,
é por causa do Nico que eu ainda socializo e vou a festas. Não que eu faça muita questão, Minha mãe odeia que eu vá e a gente já brigou muito por causa disso.
Mesmo assim, é bom manter o Nico por perto. E acho que ele pensa o mesmo de mim, talvez eu seja só o chaveiro nerd dele, alguém que ele leva junto para servir de piada quando convém. Ou talvez ele só tenha pena de mim. Afinal, somos vizinhos desde sempre, crescemos juntos, e é difícil abandonar alguém que fez parte da sua vida por tanto tempo.
Ele já tentou empurrar algumas garotas pra mim, o que não funciona, a última garota que ele me fez conhecer ficou me chamando de "japa" pros amigos dela, o que eu geralmente não me importo quando vem de alguém com quem tenho intimidade, mas daquela menina? Não. Talvez o problema seja que eu queira escolher demais.
Na verdade, eu conheci alguém recentemente...
Semana passada, numa festa na casa do Nico, eu fiquei parado a noite toda porque teria aula no outro dia e prometi pra mim mesmo que não ia beber. Mas aí o Nico sumiu e, enquanto todo mundo falava alto e se movia pela casa, eu não pude deixar de quebrar essa promessa e comecei a beber pra me enturmar.
Foi aí que eu esbarrei na Carol.
Pode parecer tosco, mas eu me senti em um filme. A Carol é uma deusa total. Loira, um olho castanho... ou será que era âmbar? Tava escuro. Ela vestia uma camiseta larga, com um dos ombros parecendo ter sido cortado, não o ombro dela, o da camisa, ela parecia desleixada. Na verdade, uma deusa desleixada.
É engraçado lembrar disso porque ela me olhou de cima a baixo e parecia que podia rosnar pra mim.
— Olha por onde anda, caralho.
Por essa frase de cinco palavras eu pude notar o sotaque carioca. Eu sempre achei sotaque carioca bonito, talvez seja influência demais de novela ou de filme, não sei, naquele momento, qualquer coisa que ela falasse provavelmente ia soar bonita pra mim. Ela podia ter me mandado ir pro inferno e eu ainda ia ficar pensando na voz dela.
Ela tinha derramado um pouco de cerveja em mim. Eu gaguejei um "desculpa" e, não sei por quê, saí correndo procurando um banheiro, onde vomitei todo o energético com vodka que tinha tomado. Não vi mais ela no resto da noite, sai perguntando pra geral se alguém a conhecia, e o Nico disse que era melhor eu ficar longe dela.
— Eu te proíbo de gostar da Carol Garcia, Samuel. Pelo bem da sua saúde mental, que você nem tem, aquela mulher é louca. Você sabia que ela deixou o ex de muleta porque ele traiu ela?!
Eu dei de ombros. Acho que nada mudaria a forma como eu vi ela naquela noite. — É justo.
Não me leve a mal. Eu não sou um desses caras desesperados que gostam de qualquer mulher bonita que veem pela frente. Essa foi diferente. Quando vi a Carol, me senti diferente, sabe a sensação de borboletas no estômago que todo mundo fala? Foi isso. Agora, pensando bem, eu quero muito encontrar com ela de novo e não ligo pra oque o Nico diz. Ele até já namorou gente pior, além disso, o Nico exagera em tudo, qualquer mulher é louca pra ele.
Deve ser o suficiente por hoje. Comecei a ouvir minha mãe lá embaixo reclamando do meu pai pra minha irmã, acho que elas nem tentam mais discutir baixo quando eu tô em casa. Daqui a pouco ela sobe pro meu quarto, resmunga mais um pouco e manda eu ligar pra ele. Eu tô cansado disso, cansado da minha mãe, cansado do meu pai e da inutilidade dele.
Talvez eu deva deitar e fingir que já estou dormindo quando ela subir... e esquecer que aquela menina existe. Embora eu ache que essa segunda parte vai ser mais difícil.
ESTÁS LEYENDO
Doce Veneno |
Romance𝓓𝓸𝓬𝓮 𝓥𝓮𝓷𝓮𝓷𝓸 : Em 2002, Samuel Ito nunca imaginou que um diário faria parte da sua vida. Obrigado pela mãe e pela psicóloga, ele começa a escrever sobre seus dias após receber o diagnóstico de ansiedade. Mas quando é enfeitiçado por Carol G...
