O Crepúsculo dos Anjos - Parte I

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Eu fui o primeiro. O único. O portador da divindade. O sangue que corria em minhas veias jamais voltaria a existir. Sangue azul . Conhecido como o mais belo, astuto e inteligente entre todos. Ele me ensinou muito do que sei, mas nunca revelou tudo o que sabia. Aos poucos, tornei-me mais poderoso, moldando dons à minha semelhança. Vi aquele reino nascer diante de mim, povoado por formas angélicas quase inimagináveis. Apesar de tudo, meu Pai e eu sempre fomos próximos. Ele fez de mim quem sou hoje.

Eu o observava criar universos e implorava para aprender, para ajudá-lo. Mas sua resposta era sempre a mesma: 'Ainda não é o momento, esse dom não está em ti.' Mesmo assim, eu tentava imitar suas obras em segredo. Minhas criações, porém, eram frágeis, medianas, e logo se despedaçavam diante de mim.

Com o tempo, percebi que meu Pai se tornava mais solitário, vagando em silêncio por seu reino. Eu sabia que ele planejava algo novo, misterioso. Dizia-lhe que não precisávamos de mais criações, que já tínhamos o suficiente. Mas ele parecia vazio. Até que, após milênios, finalmente me chamou para participar de sua obra. Meu peito pareceu pequeno demais para conter a esperança. Seria, enfim, o dom da criação?

Ao entrar em seus aposentos, vi uma criatura moldada de algo escuro e lamacento. Ele me olhou e disse:

- Sei que me espias, Estrela da Manhã. Sei que tentas criar e falhas, assim como eu também falhei. - Pedi perdão, dizendo que só queria criar como ele. Mas sua resposta foi firme.

- Não é sobre criar igual, mas sobre compreender o porquê, o para quê, e se vale a pena. Não podemos ter ambições desmedidas, nem orgulho. Acima de tudo, devemos prezar pelo outro. - Na época, não compreendi aquelas palavras. Pensei.

Então, diante de mim, aquela massa informe se moveu. Era um anjo sem asas, pequeno e silencioso. Depois de tantas tentativas, meu Pai havia conseguido.

- ‎ Ele também será um príncipe, teu irmão. Preciso que o ensines, que o guies até que cresça.'

Assim nasceu Yehoshua. Eu o apresentei ao reino, mostrei-lhe os anjos, os dons, e juntos lhe mostrei o universo. Ele segurou meu dedo pela primeira vez. Não possuía asas. Tinha medo de caminhar sobre as nuvens. Eu o carreguei nos braços até o jardim. Sorri.

Nunca imaginei que alguém tão pequeno pudesse apertar minha mão com tanta força. Naquele instante prometi que jamais permitiria que algo lhe acontecesse.

Pela primeira vez, soube o que era ter um irmão.

Éramos inseparáveis, até que sua maturidade o aproximou mais de nosso Pai do que de mim. Ele herdara o dom da criação. Aos poucos, nossas semelhanças se perderam, e nossas diferenças se tornaram evidentes.

Meu Pai conversava longamente com ele, e logo Yehoshua começou a me contrariar, dizendo que o Pai não aprovaria minhas ideias. Ele sonhava com um reino maior, diferente, e eu via nossa irmandade se desfazer até restar apenas um aceno distante.

Nosso Pai convocou todo o reino. O céu estava repleto, cada anjo em silêncio absoluto, como se aguardassem o sopro de um mistério. No centro, meu irmão trazia algo em suas mãos - uma matéria que me lembrava o barro das primeiras tentativas de criação, aquele mesmo que eu só conseguia manter vivo por instantes.

Yehoshua pousou a mão sobre o barro. E a vida surgiu. Um murmúrio percorreu o ar, e logo todos se ajoelharam diante dele. Eu, porém, permaneci de pé, observando de longe, enquanto os olhares se voltavam para meu irmão.

Pela primeira vez, o céu inteiro se ajoelhou diante de uma criação que não era minha, e meu Pai lhe deu um jardim exclusivo para eles.

Antes daquele jardim, meu Pai caminhava comigo.

Depois dele... só caminhava com Yehoshua

Mas havia uma regra: ninguém poderia se aproximar, falar ou sequer observá-los. Apenas meu Pai e meu irmão tinham esse direito. Para mim, eram bestas de barro que não mereciam tamanha atenção, meros brinquedos de teste. E ainda assim, todos se encantaram. Criaram um jardim maior, animais, sentimentos, consciência. Estavam obcecados por aqueles dois. Eu, porém, sempre vi nisso um erro. Uma perda de tempo.

Continua...

O Filho da Manhã: As Cinzas do Paraíso Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora