Victoria
O despertador tocou às seis e meia da manhã.
Eu o desliguei antes que tivesse a chance de tocar pela segunda vez, ainda encarando o teto branco do meu quarto. Pela fresta da cortina, o céu de Silverstone estava exatamente como quase todas as manhãs inglesas: cinza, nublado e com uma garoa fina que parecia nunca ir embora.
Levantei da cama e fui até o banheiro.
No espelho, eu parecia exatamente como me sentia.
Cansada.
Porque, ultimamente, parecia que todos os meus dias começavam exatamente da mesma forma.
Acordar.
Estudar.
Enviar currículos.
Esperar uma resposta.
Prendi meu cabelo escuro em um rabo de cavalo, coloquei uma calça legging, um casaco escuro e peguei minha mochila.
No corredor, passei pelo quadro de fotos que minha mãe tinha colocado na parede.
Eu e ela.
Minha formatura.
Meu primeiro estágio.
Minha infância.
Algumas fotos antigas.
Parei por alguns segundos em uma delas.
Eu tinha oito anos.
Estava usando um vestido azul e segurava um desenho que tinha feito para o meu pai.
Ele não estava na foto.
Como em muitas outras.
Afastei o olhar antes que aquela lembrança ocupasse mais espaço do que deveria.
– Victoria?
A voz da minha mãe veio da cozinha.
– Já estou indo.
Quando cheguei lá, ela estava colocando o café na mesa.
– Você tem aula hoje?
Assenti enquanto pegava uma torrada.
– A especialização volta oficialmente essa semana.
Ela sorriu.
– Metade do caminho.
Sorri de volta.
– Metade.
Seis meses.
Seis meses estudando Fisioterapia Esportiva.
Seis meses tentando provar para mim mesma que eu tinha escolhido o caminho certo.
Eu não queria apenas um diploma.
Queria uma carreira.
Queria ser conhecida pelo meu trabalho.
Não pelo meu sobrenome.
Por isso, desde que comecei a especialização, eu vinha enviando currículos para todos os lugares possíveis.
Clínicas esportivas.
Centros de reabilitação.
Qualquer oportunidade.
Até agora, nada.
– Você tem alguma entrevista hoje?
Minha mãe perguntou.
Balancei a cabeça.
