O sol das 7h da manhã já castigava a Avenida Leitão da Silva. O asfalto refletia o calor como um espelho quente, e o ar tremia acima dos carros parados no semáforo. João ajustou a bandeja de doces nos braços, sentiu o plástico filme grudar na pele suada da mão direita. A esquerda segurava a mochila escolar, pesada com livros que ele carregava desde as 5h da manhã.
Mais um dia. Mais uma tentativa.
Ele olhou para o carro importado parado bem à sua frente. Um sedã preto, vidros fumê, rodas de liga leve que brilhavam sob o sol. Dentro, um menino de cabelos loiros olhava o celular, entediado, os dedos deslizando pela tela com a preguiça de quem não tem pressa. Ao lado, no banco do motorista, um homem de terno escuro, rosto fechado, dedos batendo no volante em um ritmo impaciente.
João respirou fundo. Ensaiava aquele sorriso todos os dias. O mesmo sorriso que ele usava para vender doces, para pedir licença, para dizer "obrigado" quando alguém lhe dava um real. Um sorriso que não chegava aos olhos, mas que ele aprendera a moldar como uma máscara.
Aproximou-se do carro. O vidro do passageiro estava aberto alguns centímetros, o suficiente para ele ouvir o som do ar-condicionado e o burburinho de uma rádio tocando música pop.
- Moço, quer comprar um brigadeiro? - disse João, com a voz educada, ensaiada. - Feito em casa, bem gostoso.
O homem não olhou para ele. Apenas revirou os olhos, como se João fosse um inseto incômodo.
- Felipe, vê se fecha esse vidro - disse, sem mover os lábios quase. - Esses meninos ficam grudando no carro.
O menino loiro ergueu os olhos do celular. Seus olhos encontraram os de João. E, por um segundo, houve algo ali - um lampejo de reconhecimento, como se ele visse João não como um "vendedor de doces", mas como um ser humano. Mas o instante passou. O menino abaixou o vidro com um toque no botão, e o ar-condicionado gelado sumiu da face de João, substituído pelo calor abafado da rua.
João sentiu o sorriso escorrer do rosto como cera derretida. A bandeja pesou mais nos braços.
- É só um doce, não um assalto - murmurou, para ninguém.
O carro arrancou com o sinal verde. O vento quente bateu no rosto de João, e ele ficou imóvel, vendo a traseira do sedã sumir na direção da Praia do Canto.
Lá no alto, em algum lugar entre os prédios luxuosos, morava aquele menino. João não sabia seu nome. Não sabia sua história. Mas sentiu, no fundo do peito, que aquele olhar tinha acabado de mudar alguma coisa.
Ele virou-se e foi para o próximo carro.
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LÁGRIMAS NAO TEM COR TEM PESO
Poetryuma história sobre racismo,e a amizade que nós uni
