Você não volta mais.

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Acordar de um pesadelo, é uma sensação sufocante.

Mas dessa vez, não consigo parar a asfixia.

A noite estava pesada, fria, e apesar do ruído baixo da chuva, o silêncio era assustador.

Hoje se completam 73 dias desde sua morte.

Exatamente á dois meses e treze dias atrás, nós estávamos nessa praça juntos. Você estava rindo, reclamando como os bancos estavam precisando de uma mão de tinta, enquanto descascava a que já estava corroída pelo tempo.

Eu havia deixado um tapa suave em sua mão, rindo também, enquanto pedia para que você parasse de destruir o resto do banco, sempre implicando com tudo de forma carinhosa.

"Eu não tô fazendo nada!"

Ouvi você dizer soando vitimista, mas as covinhas de seu sorriso arteiro lhe entregavam com facilidade.

A lembrança me rasga por dentro. O som da sua voz ainda ecoa, como se estivesse preso nas paredes invisíveis dessa praça. Cada detalhe é uma ferida: o jeito como você franzia o nariz ao rir, o calor da sua mão contra a minha, o brilho nos olhos que parecia eterno.

O banco continua aqui, descascado, frio, molhado pela chuva. Você não. E é nesse contraste que a realidade me sufoca: o mundo segue, indiferente, enquanto eu permaneço congelada no instante em que você partiu.

Hoje são setenta e dois dias sem você. Setenta e duas noites em que acordo com a sensação de que ainda posso te encontrar, só para lembrar que não há mais retorno.

Eu fecho os olhos e quase sinto seu peso ao meu lado, quase escuto você reclamar do frio, quase acredito que tudo não passou de um pesadelo. Mas quando abro, só há silêncio. Um silêncio tão pesado que parece gritar dentro de mim.

E se eu sentir sua falta para sempre?

Como eu vou me encontrar de novo?

Metade de mim foi embora, a metade mais linda, aonde estavam meus sorrisos, e tudo que havia de mais bonito no meu mundo.

Eu não sei para onde vou a partir daqui, não sem você ao meu lado

O luto não é apenas dor. É uma presença constante, uma sombra que me acompanha em cada gesto.

É acordar e sentir o corpo pesado, como se cada músculo lembrasse que você não está mais aqui. É olhar para o lado da cama e encontrar apenas o espaço vazio, frio, que insiste em me lembrar da sua ausência.

O luto é silêncio. Um silêncio que não é paz, mas um grito abafado. É caminhar pela casa e ouvir os ruídos que já não existem: sua risada, seus passos, sua voz chamando meu nome.

É também a repetição cruel dos dias. Cada manhã traz a mesma realidade: A morte não devolve, não negocia. O vazio é eterno. Cada noite traz o mesmo pesadelo, mas eu ainda espero por você, sempre com falsas esperanças.

O luto é saudade que não se dissolve. É sentir o coração apertar ao ver coisas simples — uma caneca, uma camisa esquecida, o cheiro que ainda insiste em permanecer.

E eu me pergunto se algum dia vou aprender a respirar sem você. Porque até o ar parece mais pesado desde que você se foi.

Apesar de tudo, feliz aniversário, meu amor.





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