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Tudo era absolutamente novo para mim. Eu olhava para aquelas torres enormes e espelhadas de Chicago, pensando em como seria a minha vida naquele lugar — agora que eu estava de volta à Terra, depois de tantos anos.

Meus pais morreram quando eu ainda era muito pequena, e minha família me deixou em um  convento de freiras em Green Valley, uma cidadezinha tão isolada e escondida entre as colinas que parecia esquecida pelo mapa. Eles enviavam uma quantia generosa para garantir que eu não fosse adotada, mas, fora isso, eu vivia como qualquer outra criança ali: órfã de afeto e de amor. Minha tia, Bárbara, foi a única que me visitou — duas ou três vezes, se bem me lembro —, e depois sumiu.

Agora que completei 18 anos e eles fecharam as portas para mim, minha tia não teve outra escolha a não ser me acolher em sua casa, nesta cidade imensa e barulhenta.

Minha tia me inspecionava pelo retrovisor, os olhos ocultos por trás dos óculos escuros. Era desconfortável me sentir assim: uma completa estranha para a minha própria família

No volante estava o homem que eu deveria chamar de meu tio, o marido da minha tia Bárbara. Eu não o conhecia; eles ainda não eram casados quando ela me deixou naquele lugar, tantos anos atrás.
O silêncio dentro do carro era ensurdecedor. Por um breve momento, apertei as mãos no colo, questionando se seria mesmo possível me adaptar àquela nova vida.
No convento, as garotas e eu tínhamos uma rotina rígida, moldada por conceitos morais estritos e regras inflexíveis. No entanto, lá eu tinha minhas amigas. Naquele instante, olhando para a nuca daquele homem estranho, tive a certeza absoluta de que sentiria falta delas.

Baixei os olhos para minhas roupas.

A saia longa de tecido xadrez, a blusa de lã grossa e os sapatos de couro gastos pareciam pertencer a outra vida. Irmã Margaret havia dito que eu estava bonita antes de partir, mas, naquele instante, tive certeza de que ela só queria me tranquilizar.

Ergui os olhos para a janela.

O carro deslizava pelas largas avenidas de Chicago com um silêncio quase assustador. Os enormes arranha-céus pareciam tocar as nuvens, suas fachadas de vidro refletindo o céu cinzento. As ruas fervilhavam de gente elegante, táxis amarelos, ônibus, buzinas e uma pressa que eu nunca tinha conhecido.

Tudo era grande.

Grande demais.

As vitrines exibiam roupas que eu jamais teria coragem de vestir. Mulheres caminhavam sobre saltos altos como se tivessem nascido para aquele mundo. Os homens, impecáveis em seus ternos escuros, passavam apressados segurando pastas de couro e copos de café.

Então olhei meu reflexo no vidro da janela.

Por um instante, tive a impressão de estar vendo uma menina perdida. Minha roupa simples, meu cabelo preso às pressas e minhas mãos marcadas pelos anos de trabalho no orfanato pareciam gritar que eu não pertencia àquele lugar.

Senti meu estômago se apertar.

Era como se eu tivesse saído de um pequeno canto esquecido do mundo e sido deixada, sem qualquer aviso, no coração de um universo onde todos sabiam exatamente quem eram... menos eu.

Encolhi os ombros e cruzei as mãos sobre o colo, tentando ocupar o menor espaço possível.

Nunca havia me sentido tão pequena.

Um ratinho cercado por gigantes.

Respirei fundo, mas o ar parecia não chegar aos pulmões.

Eu estava apavorada.

Então o carro diminuiu a velocidade.

Ergui os olhos e perdi o fôlego.

À nossa frente erguia-se uma imponente mansão de estilo georgiano, construída em tijolos avermelhados, com colunas brancas sustentando uma varanda majestosa. Janelas altas refletiam a luz do fim da tarde, enquanto uma larga escadaria de pedra levava até as enormes portas duplas de madeira escura, adornadas com detalhes em bronze.

O jardim parecia saído das páginas de um livro. Cercas-vivas perfeitamente aparadas desenhavam caminhos entre roseiras e hortênsias em plena floração. No centro da entrada, uma fonte de mármore fazia a água dançar suavemente, enquanto árvores centenárias cercavam a propriedade como guardiãs silenciosas.

Meu coração disparou.

Aquilo não era uma casa.

Era um palácio.

Fiquei tão fascinada que nem percebi quando a porta ao meu lado foi aberta.

— Cecília.

A voz grave do meu tio me trouxe de volta à realidade.

Virei-me depressa e o encontrei parado ao lado do carro, segurando a porta aberta para que eu descesse.

— Ah...

Ao colocar os pés para fora, a barra da minha saia enroscou no sapato. Cambaleei para a frente e quase fui ao chão, recuperando o equilíbrio por muito pouco.

O calor tomou conta do meu rosto.

— Desculpe... eu...

Ele sustentou meu olhar por um instante.

Um sorriso breve curvou seus lábios, mais por educação do que por gentileza. Havia algo distante nele, quase impassível.

— Não precisa se desculpar.

Naquele instante, a verdade me atingiu como um balde de água fria.

Enquanto meus olhos percorriam a imponência daquela mansão e tudo o que ela representava, compreendi que não havia mais volta.

O orfanato, a rotina que eu conhecia, as pessoas que haviam sido minha família durante tantos anos... tudo tinha ficado para trás.

Eu estava prestes a atravessar aquela porta como uma completa desconhecida.

E, no fundo, eu sabia...

Minha vida nunca mais seria a mesma.

O Segredo de CecíliaStories to obsess over. Discover now