piloto.

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A luz direcionada da lanterna e o reflexo luminoso da lua eram as únicas coisas que me possibilitavam enxergar algo naquela penumbra tenebrosa entre a mata selvagem da montanha. Meus pés doíam dentro das botas velhas que roubei do meu pai, ele que estava em algum lugar perto daqui, ajudando nas buscas no meio do escuro. Nenhum daqueles homens e oficiais podem saber que eu estou aqui, mas eu não aguentava mais essa maldita falta de comprometimento, uma semana inteira de procura e até agora... Nada? Isso é impossível.

Se eles não fazem, então eu mesmo procuro por Martin.

Meu cenho estava franzido a tanto tempo que começara a ficar dormente, meus dentes comecavam a doer com tanto tempo sendo cerrados uns contra os outros. O ar frio e denso do inverno invadia meus pulmões e rasgavam minha garganta a cada lufada em busca de oxigênio, o ar da montanha era rarefeito e cada inspirada era uma vitória em meio aquelas árvores altas e assustadoras que me cercavam como lobos. Porra, não deve ser tão difícil achar um brutamontes de quase dois metros e cabelos loiros que refletiriam quaisquer raio de luz que batesse em si, não é? A menos que...

Não. Martin está vivo, ele tem que estar. Talvez ele tenha montado algum acampamento temporário para esperar as buscas depois de se perder como um idiota na montanha, ou talvez tenha se sentado temporariamente em algum tronco caído de árvore e adormecido por lá mesmo, são coisas que ele claramente faria, eu riria disso caso não estivesse desesperado para me agarrar em qualquer possibilidade dele estar ao menos respirando. Mordi meus lábios com força, talvez um filete de sangue tenha escorrido, mas eu não tenha percebido isso em meio às inúmeras gotas finas de chuva que caíam há horas, minhas roupas estão encharcadas por baixo da capa amarela de chuva e eu estou tremendo de frio, mas eu não saio daqui sem o meu melhor amigo, nem que me arrastem, nem que o sol nasça e se ponha de novo, eu só saio daqui com ele.

Engoli em seco ao ouvir passos pesados e luzes brancas se aproximando, eles estavam chegando aqui. Rapidamente me abaixo, desligo a minha lanterna e colo meu tronco à uma arvore grande o suficiente para me cobrir no escuro, talvez a minha escolha de roupas não tenha sido eficiente, amarelo deve chamar atenção até demais, mas por sorte a pequena parcela da equipe de buscas improvisada apenas passou reto e segui em direção ao leste montanhoso. Respirei fundo, na medida do possível neste lugar, e dobrei, em direção ao nordeste, onde havia um barranco com uma descida íngreme. Caminhei com dificuldade ate uma clareira perto da inclinação violenta, um tropeço e eu estaria alguns palmos abaixo do chão amanhã.

Apontei a lanterna velha para todas direções, procurando algum sinal do Edwards, minha garganta fica seca ao não encontrar nada.

Ao iluminar minha esquerda, a única direção que sobrou, uma árvore com um formato peculiar me chamou a atenção: imitava quase perfeitamente um corpo feminino nu, curvilíneo e volumoso. Meus olhos se prende na riqueza de detalhes, por que diabos uma árvore seria assim?

ㅡ Que merda ㅡ murmuro baixo e seguido de um 'tsk' alto.

Ouço o farfalhar de passos mais uma vez, provavelmente outra pequena divisão da equipe de buscas está perto, vindo exatamenteda direção para onde eu estava indo. Num ato rápido de desespero, corri para o sudeste acompanhando a descida de maneira cuidadosa, assim que julguei estar longe o suficiente do grupo, meus joelhos quase cederam ao cansaço e ao desespero, mas apoiei minhas mãos sobre eles e tentei recuperar o fôlego com os olhos apertados em medo. Este lugar é escuro, úmido e assustador, tenho a sensação macabra de que há algo me observando a todo momento, e certamente não são os homens da cidade que procuram pelo meu melhor amigo desaparecido.

Ao perceber que meu corpo havia recuperado um pouco do vigor, levantei devagar, voltando a vasculhar os arredores com o olhar, mas algo me chamou mais atenção do que a maldita árvore humanoide: havia algo no chão, poucos metros à frente.

Meus passos se tornaram pesado e trêmulos assim que tive um vislumbre vermelho e azul, esta era a ultima combinação de cores que Martin havia usado. Caminhei lentamente, olhando apenas para o chão em que eu pisava e tentando não escorregar na terra úmida. Mordi meus beiços de novo, dessa vez mais forte, um galho se quebrando sob meu pé direito me assustou e meu olhar levantou rapidamente, enxergando com perfeição tudo o que eu mais queria:

O rosto de Martin.

Mas não era o rosto dele do jeito que eu queria vê-lo: com um sorriso torto, cara suja de terra e contando alguma piada sobre estar desaparecido ser comparável a ser low profile no Instagram. Aquele era o rosto de Martin pálido, com os olhos cerrados, boca entreaberta e sangue espalhado por suas bochechas.

Desesperado, me aproximei dele, pairando sobre seu corpo paralisado. Minhas mãos correram ao encontro de suas bochechas e meu peito apertou com muita força assim que o toquei.

Pálido. Estava frio e rígido como pedra, eu não sentia o vento gelado saindo de seu nariz assim como era esperado que saísse, seu peito não se movia sob o casaco grosso e vermelho. Seus olhos não tinham vida. Um trovão alto soou junto com meu raciocínio finalmente funcionando.

Martin está morto.

De repente, meu rosto estava próximo do dele, seu olho esquerdo estava vermelho e havia um sangramento em sua testa que escorreu em grande quantidade, deixando metade de seu rosto banhado no líquido vermelho. Ele não está tão machucado quanto deveria, seu corpo está em ótimas condições, talvez porque o inverno esteja excepcionalmente frio e isso temha favorecido a preservação de seu cadáver.

Cadáver.

Levantei rápido, me causando uma tontura igualmente ligeira. Minha respiração continuava difícil de ocorrer normalmente, mas eu tentava respirar cada vez mais violentamente, meu peito tremia a cada tentativa de inspiração e meu queixo tremelicava cada vez que eu expirava. Eu preciso sair daqui, agora.

Não posso continuar no leito de morte dele, não agora, nem nunca. Eu preciso ir para casa, para o meu quarto, para algum lugar onde eu não esteja perto do corpo rígido e gelado de Martin Edwards.

A partir disso, minha vista se tornou um borrão escuro com flashes de luz recorrentes das lanternas, minha cabeça estava uma zona, meu cérebro continuava repentindo a cena tenebrosa que foi ver o rosto sem vida de Ed, meus dedos ainda podiam sentir a derme dura e congelante, minha boca tinha um gosto amargo e eu poderia vomitar agora. A chuva havia cessado mas as nuvens fechadas continuavam lá, deixando a noite ainda mais escura e abafada, me sufocando em algum lugar entre as árvores e o cadáver do meu melhor amigo.

Ao chegar no sopé da montanha, senti algo em meu peito se destroçar. A ficha caiu com um baque forte que me fez perder as forças nas pernas.

Martin está realmente morto.

Seu corpo está se decompondo, seu coração não bate mais, nenhum de seus órgãos funcionam, nenhum músculo vai voltar a se mexer, eu nunca mais vou ver seu rosto, seu sorriso, ouvir sua voz, reclamar de suas brincadeiras sem graça, nada disso. Tudo se tornarão memórias doces de alguém que já se foi, alguém que não está mais entre nós.

Eu não queria ficar vivo por mais tempo, não em um mundo onde o meu garoto tem seu corpo sendo devorado pelas garras malignas do tempo e da natureza, onde eu nunca mais olharia para cima com as bochechas doendo por segurar sorrisos que ele insistia em me roubar com suas piadas idiotas, não reclamaria quando ele surgisse em minha casa sem avisar antes; ele sequer respira, seu corpo não passa de matéria orgânica em processo de decomposição, uma carcaça sem vida, mas que antes guardava a alma mais linda que eu já havia visto.

Sem sequer trocar as roupas molhadas e sujas, deitei na cama e abracei meu próprio corpo, sentindo um vazio imensurável em meu peito. Meus olhos se fecharam com forças assim que senti as lágrimas inundado minha vista. Estava frio, minha janela estava aberta, minhas roupas sujas de lama, mas nada disso me importa.

Até porque quem realmente importava estava morto, gélido e imóvel na montanha.

O Verão em que Martin Edwards MorreuHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora