O som das rodas da carruagem ecoava como um presságio, reverberando pelas ruas de pedra como se anunciasse uma sentença inevitável. Dentro dela, uma mulher de beleza fria sorria - não um sorriso de ternura, mas de vitória, de quem conquistou o que queria e não pretendia abrir mão. Ao seu lado, uma menina observava em silêncio, os olhos grandes refletindo inocência e confusão. Não compreendia o peso daquele gesto, mas sentia que algo maior estava em movimento.
O palácio erguia-se ao longe, dourado e imponente, suas torres brilhando sob a luz da manhã como se o próprio destino chamasse. Era belo e cruel ao mesmo tempo, um monumento que lembrava a todos quem detinha o poder.
Thalyra despertou com o coração acelerado. O sonho ainda pulsava em sua mente, como uma sombra que se recusava a partir. Mas o sol que entrava pela janela não lhe permitia escapar: hoje era real. Hoje era seu aniversário e o dia da cerimônia de maioridade. Tentou sorrir, mas o sorriso se quebrou antes de nascer, como vidro frágil atingido por uma pedra.
As servas entraram em seu quarto trazendo vestidos e adornos reluzentes.
- Hoje é um grande dia, princesa - disse uma delas, com voz doce demais para ser sincera.
Enquanto ajustavam o tecido, um alfinete perfurou sua pele.
- Perdão, princesa - murmurou outra, com um sorriso zombeteiro que não escondia a intenção.
Thalyra apenas respirou fundo. Já estava acostumada.
Sozinha diante do espelho, viu refletida uma jovem de beleza rara: cabelos negros como a noite, olhos safira que pareciam guardar oceanos inteiros. Mas o reflexo não mostrava apenas beleza - mostrava dor, solidão e a marca invisível de ser bastarda.
"Sou uma maldição", pensou. "Mas não mereço ser tratada como uma."
No café da manhã, o prato à sua frente exalava o cheiro azedo da comida vencida.
- Não vai comer? - perguntou um servo, fingindo inocência, mas com o olhar carregado de desprezo.
Thalyra empurrou a cadeira e saiu em silêncio, preferindo a fome à humilhação.
O ar da manhã a envolveu como um bálsamo. Estava fresco, carregado com o perfume das flores recém-abertas. O vento soprava suavemente, fazendo as pétalas das rosas se moverem como se dançassem em segredo. O sol filtrava-se entre as copas das árvores, criando manchas douradas no chão de pedra. O som distante da água correndo na fonte central trazia uma sensação de paz que Thalyra raramente conhecia.
Ela caminhava lentamente pelos jardins, deixando que o clima a envolvesse. O canto dos pássaros parecia zombar de sua tristeza, como se o mundo natural fosse indiferente ao peso que ela carregava. Por um instante, fechou os olhos e respirou fundo, tentando gravar aquele momento de tranquilidade, como se pudesse guardá-lo para os dias em que a dor fosse insuportável.
Então o viu - o filho do duque, seu primeiro amor. O coração dela disparou, como se quisesse escapar do peito. Ele estava de pé junto à fonte, a luz dourada do sol refletindo em seus cabelos loiro-escuros, que reluziam como ouro queimado sob o dia nascente. Seus olhos cianos, claros e intensos, lembravam-lhe o brilho de águas cristalinas, e o sorriso que surgia em seus lábios era tão genuíno que parecia capaz de aquecer até os cantos mais frios de sua alma. Para Thalyra, ele não era apenas um jovem nobre: era a lembrança de um tempo em que ainda acreditava em felicidade.
Ela deu um passo hesitante, sentindo o coração bater contra o peito como se quisesse escapar. O desejo de se aproximar era quase irresistível, como se cada fibra de seu corpo clamasse por estar ao lado dele.
Mas antes que pudesse avançar, uma voz suave e melodiosa cortou o ar. Elyssara, sua meia-irmã, já estava ali, ao lado do rapaz, mas até então permanecera fora do campo de visão de Thalyra. Com um sorriso doce, quase inocente, inclinou-se para ele como quem compartilha uma descoberta encantadora.
- Venha - disse, em tom leve, quase brincalhão. - Há algo mais interessante que quero te mostrar.
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O Último Brinde
FantasyEm um império marcado por intrigas e segredos, Thalyra enfrenta o peso de sua origem e o desprezo da corte. No dia de sua maioridade, entre sorrisos falsos e promessas sombrias, ela decide que não será apenas uma peça no jogo de poder. O que começ...
