O reflexo no espelho do elevador panorâmico não mostrava vestígios de hesitação. Ajustei o blazer azul-marinho sob medida e encarei de volta uma mulher de 25 anos que sabia exatamente onde queria chegar. Eu não estava ali para fazer média ou para ser o "rostinho simpático" do setor de criação. Eu estava ali para assumir a Diretoria de Marketing da maior corporação de cosméticos do país. E só existia um obstáculo entre mim e aquela sala de canto com vista para a avenida: Caio.
As portas do elevador se abriram com um bipe suave, revelando o burburinho matinal do quadragésimo andar. O carpete cinza abafava o som dos meus saltos, mas a minha presença nunca passava despercebida.
No ambiente de trabalho, eu e Leonardo mantínhamos uma postura estritamente profissional. Sabíamos que demonstrar intimidade excessiva nos corredores era dar munição para fofocas sobre favoritismo. Por isso, quando passei pela baia dele, a nossa interação foi cirúrgica. Um aceno de cabeça quase imperceptível da parte dele e um relatório estendido com os dados que eu precisava.
— Aqui estão as métricas do trimestre passado da concorrência que você pediu — Leo disse, o tom de voz formal e polido para quem estivesse passando por perto, mas seus olhos transmitiam uma admiração silenciosa profunda.
Ele sabia do que eu era capaz e me respeitava como a força motriz que eu realmente era. Não me via como alguém que precisava de proteção, mas sim como uma profissional brilhante.
— Excelente. Com esses dados, o projeto novo é nosso — respondi, pegando a pasta.
Olhei para ele e dei um meio sorriso contido, um gesto rápido que guardávamos para sinalizar nossa cumplicidade. Senti meu coração dar uma leve batida desalinhada. Eu gostava do Leo. De uma forma sutil, silenciosa e contida, a presença dele me trazia um calor que ia além da parceria profissional. Ele era o meu porto seguro, o homem que eu secretamente desejava ter por perto quando as luzes do escritório se apagassem. Aquela segurança doce era o que eu acreditava ser o início de algo real entre nós.
O clima descontraído evaporou no segundo seguinte. Passos firmes e pausados anunciaram a chegada dele. Caio. Ele vestia um terno cinza escuro perfeitamente alinhado e tinha aquela expressão enigmática que me dava nos nervos. Ele parou a poucos metros, olhando de relance para os papéis na minha mão.
— Relatórios? — Caio soltou um riso soprado, com sua voz rouca e pausada. — Uma tática previsível para a reunião de hoje. Olhar para o passado é o erro de quem tem medo do futuro.
Levantei-me devagar, sustentando o olhar dele. Meus lábios grandes se curvaram em um sorriso controlado, cortante. Eu adorava o gosto da batalha contra ele.
— Olhar para o passado, Caio, é o que nos impede de cometer os mesmos erros estúpidos que os nossos concorrentes cometeram — retruquei, dando um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós apenas para vê-lo enrijecer.
— Mas compreendo que, para você, analisar dados seja mais difícil do que confiar apenas na sua intuição arrogante. Ou o seu medo é que meu projeto jogue a sua 'visão de futuro' direto na lixeira da empresa?
Os olhos de Caio faiscaram por um breve milésimo de segundo. Ele deu um passo para trás, o maxilar tão cerrado que uma linha fina se desenhava em seu pescoço. Ele parecia subitamente tenso, afetado de uma forma que ia muito além de uma simples discussão de trabalho.
— Veremos qual abordagem o conselho prefere às duas horas — ele disse, a voz subitamente mais áspera, virando-se para caminhar rapidamente em direção à sua sala privativa.
