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Uma Quedinha por Você?

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     Meses após a paz entre Pookoos e Javans, o Vale voltava a florescer. As duas espécies já não viviam separadas. Construíam ninhos juntos, colhiam frutos em conjunto e, pela primeira vez em gerações, as crianças cresciam sem aprender a odiar o outro lado.
     Ollie e Ivy permaneciam inseparáveis.
     A experiência de terem trocado de corpos deixara uma marca que nenhum dos dois conseguia explicar. Às vezes, Ollie dizia sentir o vento da mesma forma que Ivy descrevia quando voava. Ivy, por sua vez, ainda conseguia compreender instintivamente os movimentos e os cheiros que os Pookoos sentiam.
     Certa noite, enquanto investigavam as antigas ruínas onde tudo havia começado, encontraram um pequeno broto coberto por raízes luminosas. Seu brilho roxo o lembrava dos mesmos brotos mágicos que haviam visto nos Dzos, porém aquele parecia diferente.
     Quando Ollie se aproximou, curioso, o broto reagiu.
     A mesma energia roxa que havia causado a troca de corpos anos antes espalhou-se pelo ambiente, mas desta vez não havia erro, nem acidente. Parecia responder ao desejo mais profundo de Ollie.
     — O que está acontecendo? — Ivy questionava, aproximando-se de seu amigo.
     O brilho mágico envolveu Ollie completamente. Ele tentou falar, mas sua voz desapareceu por um instante. Seu corpo começou a mudar. As pequenas patas ganharam forma diferente, se tornando garras. As penas surgiram lentamente, substituindo a pelagem. Seus braços tornaram-se asas completas, enquanto sua cauda crescia e adquiria as longas plumas características dos Javans — plumas desenhadas como belas folhagens.
     Quando a luz mágica desapareceu, um jovem Javan estava parado onde antes havia um Pookoo. Novamente, havia trocado de corpo.
     Ollie olhou para si mesmo, completamente atônito. Abriu as asas como se fosse sua primeira vez, e, quase sem pensar, bateu-as novamente, assustado. Seu corpo ergueu-se do chão, e finalmente começou a voar.
     Ivy riu ao vê-lo completamente desajeitado, desviando de árvores e quase caindo diversas vezes antes de conseguir pousar. No entanto, o terrível pensamento que corria por sua mente parecia também tomar a mente de Ollie: Os Dzos, dos quais produziam tais brotos, haviam se retirado, e ambos não conheciam lugar algum com outro broto mágico para trocar novamente seu corpo.
     Como quem tenta aliviar a tensão do assunto, Ivy o provoca. — Você voa pior do que um filhote.
     — Obrigado pelo apoio... — Responde Ollie, irônico. Seus olhos tentando esconder a preocupação em vão, o que claramente não estava funcionando.
     Ela aproximou-se devagar. — Está... tudo bem? — questiona, notando seu amigo que observava novamente o corpo trocado com certa curiosidade.
     Ollie permaneceu em silêncio por alguns segundos. — É estranho..., mas não parece errado. — Diferente de antes, agora ele não odiava sua amiga. Na realidade, passou a admirar a forma como tudo poderia virar carinho e diversão. Admirava não apenas Ivy, mas tudo o que ela poderia representar para si.
     Ele olhou para as próprias asas. — É estranho. Eu não faço a mínima ideia de como trocar de novo... — seu olhar abaixa, mas ele parecia estar se divertindo. Se lembrava de que os últimos brotos haviam queimado na floresta, e os Dzos que poderiam trazer seu corpo de volta estavam distantes do bosque. — Mas, pelo menos, dessa vez vamos poder voar juntos — um sorriso se formava em seu rosto enquanto olhava para Ivy.
     Ivy sorriu. — Então... bem-vindo aos Javans... de novo.
     Nos dias seguintes, a notícia espalhou-se pelo Vale inteiro. Alguns Pookoos ficaram assustados, mas não pela troca, e sim por não poderem desfazê-la. Alguns Javans desconfiaram, mas nenhuma das criaturas sabiam explicar exatamente o motivo. A magia não havia simplesmente transformado Ollie, ela respondeu à vontade criada entre as duas espécies. Pela primeira vez, um ser deixava de pertencer a apenas um povo — Ollie tornava-se um símbolo vivo de que aquela antiga divisão já não precisava existir.
     E enquanto reaprendia a voar ao lado de Ivy, ambos percebiam que suas vidas haviam mudado para sempre. A amizade que havia começado por acaso agora era o alicerce de um novo capítulo na história do Vale. Algo que talvez nem eles soubessem nomear, ou só não estivessem dispostos a aceitar. O tempo parecia correr de maneira diferente para os dois quando pertos um do outro, e isso era o real perigo.
     Enquanto Ollie aprendia a viver como um Javan, Ivy permanecia ao seu lado em cada pequena descoberta. Corrigia sua postura durante o voo, ria quando ele aterrissava de forma desajeitada e o incentivava a abrir as asas cada vez mais alto. Aos poucos, o medo de nunca recuperar seu antigo corpo deixava de ocupar seus pensamentos.
     A mãe de Ollie, no entanto, tinha medo. Medo de seu filho não voltar a ser quem era um dia. Ela o amava da mesma forma, mas notava que a cada dia que passava, ele permanecia cada vez mais tempo ao lado de Ivy. Não somente sua família, como também todos os outros percebiam que a proximidade de ambos estava aumentando. Mesmo as irmãs de Ivy, assim como seus parentes mais próximos, suspeitavam de algo.
     Havia algo maior crescendo entre eles — algo que ao mesmo tempo era perigoso, porém libertador, como abrir os olhos pela primeira vez na vida e enxergar algo novo.
     Numa tarde de céu dourado, decidiram voar até o topo da maior árvore do bosque, sobre um grande desfiladeiro, onde o vento era tão forte que fazia as longas penas de Ivy dançarem como folhas ao vento. Ollie pousou logo atrás dela. Ainda não era um voo elegante, mas já havia aprendido a aproveitar as correntes de ar.
     — Você melhorou... — comentou Ivy, observando o horizonte brilhante com olhos que pareciam brilhar tanto quanto.
     — Não é como se você fosse me deixar cair enquanto eu voava. — Ele esconde uma risada. Ela sorri discretamente. Um gesto que ele pôde observar.
     O silêncio que se seguiu não era desconfortável, pelo contrário. Pela primeira vez, apenas a presença um do outro era já preenchia toda a tensão que haviam criando entre si.
     Foi quando Ollie aproximou-se da borda do galho. — Engraçado... — disse baixinho. — Achei que eu sentiria falta de quem eu era.
     Ivy voltou os olhos para ele, surpresa. — E sente? — seu rosto girando em um gesto de curiosidade genuína.
     Ele demorou alguns segundos para responder. — Acho que não — seu olhar desviou para as próprias asas antes de voltar para ela. — Talvez eu esteja aceitando que os Dzos nunca voltem, e eu continue sendo quem eu sou agora para sempre. Afinal, tudo o que fazia meu antigo eu ser importante... ainda está aqui.
     Ivy percebeu que ele não olhava para as próprias penas. Ollie olhava para ela. Seu peito acelerou. Ela tentou dizer alguma coisa, mas apenas desviou o olhar, sentindo o rosto aquecer sob as delicadas penas esverdeadas.
     — Você está corando. — Ollie sorriu, divertido.
     — Não estou! — Ivy retrucou, cobrindo suas bochechas com uma de suas asas, pois sabia que estava.
     — Está, sim. — Reafirmou, divertindo-se.
     Ela soltou uma pequena risada, vencida pela própria tentativa de esconder o que sentia, e, sem perceber, ambos diminuíram a distância entre si. As pontas de suas asas encostaram de leve, e nenhum dos dois se afastou. Para Ivy, aquele gesto era simples, quase instintivo. Era uma forma silenciosa de demonstrar confiança absoluta em alguém. Mas Ollie não conhecia aquele significado.
     Mesmo assim manteve sua asa junto da dela, e Ivy fechou os olhos por um instante. Naquele toque havia algo diferente de amizade. Não era a empolgação das aventuras que haviam vivido, nem o alívio por finalmente haver paz entre seus povos. Era a tranquilidade de perceber que, independentemente da magia, do corpo ou da espécie, havia encontrado alguém cuja presença fazia qualquer lugar parecer lar.
     Ela virou lentamente a cabeça. — Acho... que estou feliz por você não ter encontrado outro broto.
      — É? — Ollie arqueou as sobrancelhas, incrédulo, em um pequeno sobressalto de surpresa. Ela assentiu, envergonhada.
     — Se você voltasse a ser um Pookoo... talvez ainda estivéssemos juntos — sua voz quase desapareceu no vento. — Mas... não seria tão fácil assim para mim. — Ela afirma, seus olhos baixando. Lágrimas se formavam, mas se recusavam a cair, fazendo seus olhos brilharem de emoção.
     Ollie permaneceu em silêncio, e então ergueu uma das asas com extremo cuidado. Envolveu Ivy em um abraço tímido, ainda desajeitado por não estar acostumado ao novo corpo. Ela apoiou a cabeça em seu corpo sem hesitar. Os dois permaneceram ali enquanto o sol se dividia entre o cume das montanhas.
     Nenhum deles precisou dizer nada naquele instante, ambos já sabiam que a amizade que os havia unido tinha florescido em algo muito mais profundo. Um sentimento construído não pela magia que trocara seus corpos, mas pelas escolhas que fizeram, todos os dias, de permanecer um ao lado do outro.
     Quando se afastaram, seus olhares se encontraram. Estavam ali, a sós, em um local totalmente secreto. Que sentimento era aquele? Questionavam-se. Estiveram sozinhos em outras ocasiões, mas agora parecia diferente. Aquilo era diferente para Ollie. Seu batimento acelerava com a ânsia de algo que estava por vir, mas o quê? O que ele enxerga de tão diferente? E por qual motivo ela ainda estava lá? Certamente ele deveria parecer um bobo enquanto olhava para ela, mas ela permanecia estática.
     — Ollie? — Ela pisca os olhos, observando-o com a mesma tensão. — Você... — Ela para, mas logo se aproximava ainda mais. Seu peito subindo e descendo com o ar carregado de expectativa.
     O que estava acontecendo? E o que ele deveria fazer afinal? Seu desejo era se aproximar dela o máximo que pudesse, de cobrir seu corpo com suas asas e tomá-la para si. Mas isso seria correto? Os olhos dela pareciam tomar sua razão, o convidando para que a tocasse.
     — Eu... — engolindo em seco, ele se afasta um passo para trás. — Não sei se é exatamente isso que está acontecendo, mas... — ele congela. Era exatamente isso o que estava acontecendo, e ele não sabia como lidar. Mais um passo, e ele estava à beira do precipício: encarar seus sentimentos à sua frente, ou cair centenas de metros à esmo rumo ao chão?
     — Ei, está tudo bem. — Ivy afirma, seu olhar disputando com sua feição perfeitamente amável. Seus olhos eram azuis, seu corpo era belo, com longas penas pela cauda, assim como seus contornos esbeltos. Não havia nada nela que não fosse bonito, e isso era difícil de apenas admirar. — Não se preocupe, não há nada de errado. — Ela toca seu rosto com uma de suas asas, se aproximando, seus rostos à centímetros de se encontrarem em algo que dividiria a amizade para algo muito mais extenso do que o céu dourado diante deles.
     Ollie não sabia como reagir. Ele queria se aproximar, queria conhecer esse novo limite que ambos estavam se impondo, mas era perigoso demais. Ela continuaria o olhando com os mesmos olhos depois disso? Seus passos vacilaram, e ele parecia ter se esquecido que agora era um Javan, que era como ela. Se esqueceu de que possuía garras e asas, e isso o fez tropeçar.
     O momento congelou seu coração. Bastava um único centímetro para que ele despencasse. Naquele instante, mesmo possuindo asas, sentia que a queda o mataria. Ivy, no entanto, não o puxou de volta. Contrariando tudo o que ele esperava, ela se aproximou, cobrindo seu corpo em um abraço apertado, as penas em seus peitos se tocando, espalhando o calor entre eles. Seus rostos estavam à um toque de distância, e seus olhos se encontraram ainda mais próximos.
     Ela se inclinou, os lançando sobre o desfiladeiro sobre as nuvens douradas. O reflexo em seus olhos era uma visão quase divina. Enquanto caíam, eram tomados um pelo outro. Havia paixão, amor, desejo e talvez algo mais. Naquele instante o mundo parecia desacelerar, e o momento se tornava apenas deles.
     Ollie deixou de lado seu medo, se permitindo ser tomado pelo êxtase que cobria cada fibra do seu corpo. Fechando os olhos, se aproximou em um beijo. Ela o aceitou, e retribuiu com o mesmo gesto.
     Aquilo foi transformador. Era muito diferente do que se esperava. Agora estavam dividindo não apenas o mesmo espaço, como também seus corpos. O toque mais íntimo que poderiam ter naquele instante acabava de acontecer.
     Seus corpos rotacionavam enquanto caíam em vertical, formando uma espiral que se fundia as nuvens do pôr-do-sol. Nuvens que tinham a mesma cor da chama que se acendia em seus corações. Com a velocidade, Ivy abriu as asas, e Ollie fez o mesmo. Permaneciam caindo, mas o chão não chegaria tão cedo. Aquele momento parecia eterno. Com cada pena estendida ao limite, ambos formavam uma extensão um do outro.
     Se afastavam lentamente enquanto rotacionavam por conta do vento, porém estavam unidos demais para aceitar que o céu os retirasse de perto um do outro. Com as garras, ambos se agarraram, puxando seus corpos para um contato ainda mais próximo do que antes. Agora eram apenas um ser, um único coração que batia em sintonia com a paixão que os tomava.
     Não falavam naquele curto prazo, mas seus olhos diziam por eles: queriam mais. Desejavam não apenas aquele beijo, mas também todo seu ser. Desejavam cada parte de seus corpos, cada sensação que aquele momento inesquecível poderia proporcionar. Estavam desesperados um pelo outro, e novamente se tomaram.
     Outro beijo, e agora estavam abaixo das nuvens. As asas abertas, os corpos se tocando de maneira que nunca teriam se permitido antes. Estavam presos um ao outro, e não soltariam jamais. "Jamais..." Ollie pensava. Jamais permitiria que ela se afastasse dele. Jamais permitiria que ela sofresse. Jamais.
     No entanto, o "Jamais" havia chegado. Ambos abriram os olhos em um enorme susto quando notaram que estavam perto demais do chão. Tentaram abrir as asas, mas isso apenas serviu para que um se chocasse contra o outro no céu, se embaraçando no ar enquanto se aproximavam da copa das árvores no vale, abaixo do desfiladeiro.
     Em um último segundo, conseguiram diminuir a velocidade, mas já estavam caindo entre as folhas das árvores-vinha. Se chocaram com os galhos, se separando um do outro quando o impacto leve os atingiu. Ainda caindo, as vinhas se embolaram em seus corpos, traçando nós que cobriam seus corpos, freando totalmente a queda.
     Ollie estava preso, e temia que Ivy tivesse se machucado. Ele não sabia onde ela poderia ter parado. Não até girar lentamente o corpo nos cipós que o prendia, enfim observando sua melhor amiga presa nas vinhas, tanto quanto ele.
     Um longo segundo de silêncio se seguiu enquanto se encaravam. Ela não estava machucada. Na realidade, estava segurando uma risada. Ele também não pôde deixar de rir, pois ambos passaram pelo momento mais intensos de suas vidas, e agora estavam amarrados em uma árvore de cipós.
     — Ivy... — Ollie se adiantava. — Estamos encrencados... né? — Ele riu, apontando com o bico para sua amiga, sinalizando suas penas totalmente emboladas, assim como as dele.
     — Você acha? — Ela respondeu, rindo também logo em seguida. De fato, estavam encrencados. Sair da árvore-vinha não era o mais difícil. Difícil mesmo seria explicar para todos o que havia acontecido, e pior ainda seria olharem para o rosto um do outro e tentar esconder o que sentiam para os outros animais do bosque. Afinal, aquele amor deveria ser proibido.

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