Serena

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Em 1940, o ar pesado da mansão Wych Cross pareceu, por um breve instante, purificar-se. Entre as paredes de pedra fria, a tapeçaria gótica e a opressão silenciosa que Roderick Burgess impunha sobre todos ao seu redor, nasceu Serena. Para Alex, seu pai, ela era um milagre inesperado; para Roderick, ela era a joia da coroa da linhagem, uma menina de beleza quase irreal, com cabelos loiros que pareciam capturar a pouca luz que filtrava pelas janelas altas e olhos azuis que, desde o berço, pareciam enxergar além das sombras que infestavam a casa.
​Enquanto a Segunda Guerra Mundial devastava o mundo lá fora, dentro da mansão, o cerco era outro. Serena cresceu sob o olhar cobiçoso de um avô que via nela a pureza que ele desejava corromper para seus propósitos ocultos, e sob a proteção temerosa de um pai que tentava, sem sucesso, isolá-la das horripilantes atividades da Ordem dos Antigos Mistérios.





​O segredo, o ser pálido, o prisioneiro de vidro, habitava o subsolo da propriedade. Serena, com seus poucos anos de vida, movia-se pelos corredores da mansão como uma sombra silenciosa. Ela não brincava com bonecas ou brinquedos; ela era atraída pela vibração grave que emanava do porão, um som que ninguém mais parecia ouvir - uma canção de ninar feita de estrelas distantes e poeira estelar.
​Certa noite, quando a lua cheia banhava o jardim de Wych Cross em um prata fantasmagórico, Serena não foi para o seu quarto. Seus pés descalços, movendo-se com uma intuição ancestral, levaram-na até a porta pesada que escondia o abismo.







O guarda, um homem que deveria estar alerta, encontrava-se em um torpor profundo, como se a própria mansão estivesse conspirando para que a criança passasse.
​Ao chegar diante da redoma, a luz vinda da pequena Serena fez com que a criatura lá dentro, o Rei dos Sonhos, abrisse os olhos. Pela primeira vez em décadas, Morpheus não viu a ganância de um Burgess, nem a crueldade de um captor. Ele viu uma menina de olhos azuis, cuja aura não brilhava com a luz dos mortais, mas com a escuridão vibrante do abismo primordial.
- ​Você não deveria estar aqui, pequena - a voz dele ecoou na mente dela, não como palavras, mas como a sensação de um oceano profundo encontrando a terra.
​Serena, sem hesitar, estendeu a mão pálida até tocar a superfície do vidro.
​- Eu não estou aqui - ela sussurrou, sua voz soando estranhamente madura para uma criança, ecoando como o chamado de uma soberana em uma corte esquecida.
- Eu estou voltando para casa.







​No momento em que seu dedo tocou o círculo de contenção, as runas inscritas por Roderick começaram a falhar, não pela força, mas pelo reconhecimento. Algo dentro de Serena, uma herança que datava de antes mesmo de os Burgess sonharem em ter poder, despertou.

Os anos que se seguiram àquela noite de revelação foram tecidos em segredos e sussurros. A mansão Wych Cross, outrora um templo de obsessão, tornou-se o casulo de um segredo compartilhado. Roderick Burgess, o tirano, morreu de causas que os médicos da época descreveram como "uma falência súbita de espírito", mas Serena sabia a verdade ele havia tentado forçar as barreiras novamente, e o Sonhar, agora protegido por uma pequena guardiã, simplesmente o excluiu da existência.
​Com o avô fora do caminho e um pai cada vez mais submisso e temeroso da própria filha, Serena assumiu as rédeas da propriedade. Ela não libertou Morpheus de uma vez, ela aprendeu que, para o mundo, ele precisava ser um mito, enquanto, para ela, ele era seu único confidente.






​Agora, aos trinta anos, Serena Burgess não era mais a menina que se perdia pelos corredores. Ela era a Senhora de Wych Cross, uma mulher cuja elegância gélida e olhar perspicaz mantinham qualquer pretendente ou curioso à distância.
​A mansão estava silenciosa, banhada pela luz mortiça de uma noite de 1970. Serena desceu as escadas do porão, não mais com medo, mas com a familiaridade de quem caminha em direção ao próprio coração. O círculo de contenção ainda existia, mas as runas haviam sido alteradas por ela, transformando a prisão em um portal deliberado.
​Morpheus estava lá, sua silhueta pálida e esguia emanando uma dignidade que o tempo de cativeiro jamais conseguiu corroer. Seus olhos, como duas galáxias distantes, seguiram o movimento de Serena enquanto ela se aproximava.








O Último Desejo de MorpheusStories to obsess over. Discover now