O Primeiro Cliente

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Nova York. 06h37 da manhã.

A cidade ainda despertava quando abri a porta dos funcionários do pequeno café onde trabalho. O frio cortava a minha pele, me fazendo apertar o casaco mais forte contra o corpo, tentando reter qualquer fiapo de calor.

— Bom dia, Lu! — o padeiro gritou, quebrando o silêncio da manhã.

— Bom dia! — respondi com um sorriso.

Mesmo cansada, eu sempre sorria. Aquilo era uma das poucas coisas que a vida ainda não tinha conseguido tirar de mim.

Senti meu celular vibrar dentro da bolsa. Peguei o aparelho e vi o nome na tela acompanhado de um coração: Sofia.

"Cheguei na faculdade", dizia a mensagem.

Respondi imediatamente: "Me avisa quando voltar para casa."

Eu fazia isso todos os dias. Fazia isso desde que os nossos pais morreram. Eu não era apenas a irmã da Sofia; eu era a sua mãe, a sua amiga, a sua única família.

Guardei o celular no bolso do avental e comecei a organizar o balcão, limpando a superfície de vidro e ajeitando as xícaras. Suspirei, me preparando para mais um dia longo e comum.

O sininho da porta do café tocou, anunciando o primeiro cliente da manhã.

Eu estava acostumada a abaixar os olhos. Não por submissão, mas por sobrevivência. Desde pequena aprendi que chamar atenção era perigoso. Menos perguntas significavam menos problemas e menos riscos. Por isso, eu evitava discussões, evitava conflitos e evitava até mesmo olhar diretamente para estranhos na rua. Era mais fácil passar despercebida. Mais seguro.

Mas quando a porta do café se abriu naquela manhã, algo em mim falhou.

Talvez tenha sido a presença dele. Talvez a forma como o ambiente pareceu diminuir quando ele entrou. Ou talvez aquele homem simplesmente fosse impossível de ignorar.

Ele caminhou pelo salão sem pressa. O som dos seus sapatos caros ecoava pelo piso de madeira. Seu terno escuro parecia ter sido feito sob medida para cada centímetro daquele corpo alto e imponente. Os ombros largos, a postura rígida, a expressão fechada... Ele não parecia apenas um homem; parecia uma tempestade prestes a desabar.

Senti meu coração acelerar. E, antes que eu pudesse evitar, meus olhos encontraram os dele.

Azuis. Profundos. Gelados.

Por um segundo, senti como se conseguisse enxergar além daquela superfície imaculada. Uma tristeza antiga, solidão... algo quebrado. Mas foi apenas um vislumbre de um segundo. Logo o seu olhar  mostrou afiado, cortante e intimidador, como uma lâmina pressionada contra a minha pele.

Fui a primeira a desviar. Baixei os olhos para o balcão e respirei fundo, tentando ignorar o arrepio frio que percorreu a minha coluna.

— Bom dia — disse, quase num sussurro.

Ele não respondeu imediatamente. Eu não precisava olhar para saber; eu sentia. Sentia que ele continuava me encarando, me observando, me analisando, como se estivesse tentando me decifrar. E aquilo me deixou nervosa. Muito nervosa.

Os homens na rua costumavam olhar para o meu rosto, para o meu corpo ou para o meu uniforme de garçonete. Mas aquele homem... ele parecia olhar diretamente para a minha alma.

— Um café preto.

A voz grave e aveludada me fez erguer os olhos novamente. Um erro. Mais uma vez encontrou aquele azul intenso, frio, implacável e perigoso. Meu coração tropeçou dentro do peito e desviei o olhar imediatamente.

Acho que ele percebeu. Deve ter notado a forma como eu evitava encará-lo, a maneira como minhas mãos apertavam o pano de limpeza com força e o leve tremor nos meus dedos. Mas, apesar do medo que ele me causava, eu sustentei o olhar por aquele breve instante. Eu não sabia, mas naquele silêncio tenso sobre o balcão, nossas vidas tinham acabado de se entrelaçar.

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