Elowen tem 35 anos e buscava paz e recomeço quando se mudou para o pacato e charmoso Vale Eldoria, abrindo um ateliê de restauração artesanal de livros. Ela acreditava estar apenas tocando a vida em um lugar tranquilo, mas a calmaria dura pouco. Num...
O cheiro de baunilha, papel antigo e café fresco era o único calmante que realmente funcionava para Elowen. Enquanto o vento do final de tarde soprava pelas ruas pacatas de Vila Eldoria, trazendo o aroma úmido da floresta de pinheiros seculares que abraçava a cidadezinha, ela passava a dobradeira com precisão cirúrgica sobre a lombada de um livro. Elowen tinha 35 anos e havia trocado o caos da cidade grande por aquele canto pacato no interior de Eldoria. Ela precisava de silêncio, de um ritmo mais lento e de tempo para se dedicar ao que amava: a arte paciente de curar livros esquecidos. Ali, em seu novo ateliê, cercada por potes de cola heráldica, fios de linho e suas coleções de lápis de cor perfeitamente organizadas por tons, ela finalmente sentia que tinha encontrado seu refúgio. Naquela tarde, uma xícara de chá fumegante descansava ao lado de seu estojo. Elowen observava a névoa mística que descia das montanhas e tocava a copa das árvores colossais. Havia algo de magnético e profundo naquela floresta. O sininho de latão acima da porta ecoou, interrompendo seus pensamentos. O ar no ateliê pareceu esfriar um grau. Um homem de casaco escuro, botas gastas e olhar profundamente cansado entrou. Ele não parecia dali; destoava do ritmo da cidade. Sem dizer quase nada, ele caminhou até o balcão de madeira maciça e colocou sobre ele um diário de couro extremamente desgastado, trancado por um cadeado pesado em formato de videira entrelaçada. - Ele precisa de restauração... e as páginas precisam ser lidas. Só você tem as mãos certas para isso - o homem sussurrou, a voz carregada de uma urgência silenciosa. Antes que Elowen pudesse pegar o talão de recibos ou perguntar seu nome, o homem recuou em direção à porta. Quando ela piscou, a rua do lado de fora estava deserta, completamente tomada pela névoa. Ele havia sumido. Sozinha e intrigada, Elowen limpou a mesa de trabalho. A curiosidade venceu o profissionalismo. Ao tocar o cadeado de videira com uma de suas ferramentas delicadas de precisão, um estalo ecoou. O metal cedeu com um clique satisfatório. Ao abrir a primeira página, o coração de Elowen bateu contra as costelas. Ela não encontrou letras comuns, mas runas antigas que pareciam quase pulsar sob a luz da luminária. Para o seu espanto, a ilustração de um homem desenhada em nanquim na borda da página trazia uma expressão tão real e vívida de agonia que parecia clamar por socorro. Aquilo era demais. Ela sentiu a cabeça girar. Precisava de ar. E, profissionalmente falando, justificou para si mesma que precisava ir até o comércio local comprar um solvente específico para tratar o couro daquela capa antes de fazer qualquer outra coisa. Deixando o diário aberto na mesa, Elowen pegou seu casaco e saiu para as ruas de Vila Eldoria. A neblina do fim de tarde estava mais densa, flutuando baixo sobre os paralelepípedos. Conforme caminhava, Elowen começou a notar coisas que a calmaria dos dias anteriores tinha camuflado. Os moradores que passavam por ela pareciam... distantes. Havia uma névoa invisível no olhar de cada pessoa, uma melancolia aérea, como se faltasse um pedaço da alma delas e todas estivessem vivendo no piloto automático. Ao passar pelas vidraças quentes da padaria da esquina, ela parou por um segundo. Lá dentro, o padeiro manuseava as assadeiras fumegantes do forno a lenha. Elowen prendeu a respiração quando viu o homem ajustar uma das grades em brasa diretamente com as mãos nuas, sem uma luva, sem um pano, e sem esboçar a menor reação de dor. Ele nem sequer olhava para o que estava fazendo; seus olhos pareciam perdidos em um lugar muito longe dali. Sentindo um arrepio subir pela espinha, Elowen apressou o passo de volta, esquecendo completamente o solvente. Foi na calçada de sua própria rua que o verdadeiro peso daquela tarde desabou. Um dos pinheiros seculares mais imponentes, que abraçava a esquina perto de sua porta, estava morrendo. Suas folhas estavam completamente cinzentas e caíam em uma chuva triste sobre o chão, embora estivessem no ápice da estação, longe do outono. Ao redor das raízes, a terra parecia cinza, morta, sem vida alguma. Elowen colocou a mão sobre o peito, sentindo uma conexão dolorosa com aquela árvore. Ela sentia no coração que algo estava terrivelmente estranho em Vila Eldoria. Ela empurrou a porta do ateliê e a trancou atrás de si, buscando o oxigênio e o cheiro familiar de baunilha que sempre a protegiam. Caminhou até a mesa de trabalho e encarou o diário aberto. Seus olhos, ainda trêmulos, se moveram para o balcão lateral, onde os pequenos gnomos de cerâmica que ela usava como decoração estavam parados. E foi ali, no silêncio absoluto do ateliê, que os olhos de pedra das criaturinhas piscaram. Reais. Vivos. Olhando direto para ela.
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