Prólogo

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Há muitos anos, existia um reino isolado do resto do mundo, o último reino inteiramente dominado por humanos. Era um reino grandioso, farto, e com vida abundante. Neste reino, havia um marquesado chamado Kindborough. Um lugar calmo, que era em sua maior parte preenchido por plantações e pasto.

Os cavaleiros iam e vinham em seus cavalos, as famílias organizavam festas e churrascos quase que toda semana, além de festivais e feiras semanalmente. Crianças brincavam, e idosos gostavam de aproveitar seus últimos anos com calma naquele lugar. Um lugar que parecia intocável. E estes, são os relatos daqueles que conheceram esse lugar, antes da guerra o transformar. São os relatos de uma terra, que foi consumida pelas chamas.

O ano era 370 D.L., e no sexto dia do segundo mês, um marquês nasceu. Conrad Evander Harvey Kindborough. Enquanto sua mãe gritava no quarto, com duas criadas segurando suas mãos e a dando consolo, uma terceira criada aguardava diante das pernas abertas da mulher. Fria, calma e indiferente, apenas aguardando que o bebê fosse expelido. E assim que foi, mal aguardou que os procedimentos necessários fossem feitos, para pegar a criança em seus braços.

A empregada carregou o bebê por alguns corredores, ignorando os questionamentos da marquesa exausta. Ela o levou até a sala mais distante dentro da mansão. Ao chegar lá, encontrou o pai do rapaz, andando de um lado para o outro, com um cachimbo na boca, enquanto outros nobres permaneciam sentados em silêncio, todos aguardando a confirmação.

A mulher foi até o centro da sala, e diante de todos ergueu o bêbe, que chorava e tremia de frio de maneira incontrolável. Ao verem diante de seus olhos, a confirmação que precisavam. A única confirmação que importava, a confirmação de que o marquês teve um menino. Todos explodiram em gritos e risos, comemorando alegremente e parabenizando o marquês.

Ao ver a empregada voltando com o filho, a mulher quase chorou de alegria, e o aninhou em seus braços com todo o amor e cuidado que apenas uma mãe poderia demonstrar. Ela então logo começou a amamentar o bebê, e não conseguiu evitar morder o lábio para conter a dor.

O marquês entrou no quarto á passos largos, e logo foi até a mulher, enfiando a mão no cabelo castanho claro da esposa. Ela teve de se controlar para não se encolher e desviar do toque. Ao invés disso, ela fechou os olhos e permaneceu contida.

— Nunca pensei que diria isso, mas... bom trabalho. — O homem a parabenizou, e passou uma mão na cabeça do bebê. — Só... não entendi porque o cabelo dele é dessa forma. — Ele murmurou, frio, analítico, removendo a mão de cima do filho.

— De... de que forma? — A marquesa perguntou, se controlando para não gemer diante da dor de amamentar.

— Castanho. Eu sou loiro, toda a minha família é. Então, por que meu filho não é? — Ele inquiriu, apertando o cabelo da esposa com um pouco de força.

— Senhor... ter cabelo claro não é algo tão comum. Além de que sua esposa não é loira, pode ser que... — Uma criada começou, em defesa da mulher.

— Cale a boca. Isso é um assunto familiar. — O homem interrompeu, sem sequer se dar o trabalho de olhar para a criada. — Eu não sei porque você decidiu dar a liberdade para eles, nos faz gastar dinheiro desnecessário, além de que eles ficam preguiçosos e falantes demais... De qualquer forma. Eu sou o pai, e este é meu filho. Por que ele não se parece comigo? Você... não andou trepando com outro andou? Porque sabe que posso me separar de você e da criança se for o caso. — Ele falou devagar, calmo sem sequer erguer a voz, mas apertando o cabelo da esposa com muita força.

— Eu... eu jamais faria isso senhor... pode ser que ele apenas tenha o cabelo parecido com o meu pai... meu pai também tinha cabelo castanho, lembra?

A esposa justificou, começando a tremer. Ele não teria coragem de bater nela agora, teria? Não. Não com o bebê nos braços. Se bem que... se ele continuasse com essas suspeitas... sabe-se lá até onde ele iria. O homem se levantou, e deu um riso de escárnio. Então tirou um cachimbo do bolso, e o acendeu com uma vela próxima.

— Melhor que isso seja verdade... Agora... — Ele fez um gesto, que foi o bastante para que as criadas soubessem que deveriam sair do quarto. Então puxou uma cadeira e se sentou ao lado dela. — Vamos às negociações... Agora que tudo foi feito, partirei no próximo navio, ainda hoje pela noite. Conseguirá criar o garoto sozinha? Não me leve a mal... sou grato por ter um herdeiro, mas... não estou preparado para ter um filho.

A mulher sequer conseguiu responder, e apenas o olhou boquiaberta e chocada. Ele tinha chegado apenas para o parto, e já estava indo embora? Ainda assim, ela engoliu em seco, e apenas concordou com a cabeça. O homem sorriu, e então partiu.

— Senhoras, podem me ajudar a chegar até a janela? — Clarisse pediu quando o filho parou de mamar.

Algumas criadas a pegaram pelos ombros, e a guiaram até uma cadeira diante da janela, onde a mulher se sentou com o bebê nos braços. E uma vez lá ela admirou os prados, o sol se pondo no horizonte, o gado mais próximo, e a plantação de carvalho não muito longe. Pássaros cantavam e voavam, enquanto uma brisa suave entrava pela janela.

— Veja meu filho, este é Kindborough... esse lugar é nosso. Um dia, você irá governar esse lugar, e caberá a você proteger toda essa beleza, e as pessoas que vivem aqui. E eu sei que você meu doce Conrad... — Ela murmurou com lágrimas nos olhos. — Será um excelente líder... eu sinto isso em meu coração. Sinto que irá proteger muitos, e será bom para esse povo... E mesmo se não for... eu te amo hoje, e te amarei, não importa quem você se torne.

E ela manteve essa promessa, criando Conrad da melhor maneira que podia. E ele cresceu, recebendo de sua mãe, o amor, por aquele lugar, pelos valores deles, e por tudo que possuíam. Estes são os relatos de Conrad de Kindborough, sobre como ele sobreviveu às chamas.

Relatos de uma terra em chamasStories to obsess over. Discover now