O céu já estava fechado desde o meio da tarde, mas ninguém prestou muita atenção - afinal, chuvas de verão eram comuns naquela época do ano. O que ninguém esperava era que aquela tempestade se transformasse em algo tão violento.
Muichiro estava sentado na beirada da cama, enrolado em um moletom branco que pertencia a Genya e que, nas mangas, chegava quase até os dedos de suas mãos. Ele olhava pela janela com aquela expressão serena de sempre, mas havia algo diferente em seus olhos turquesa - uma tensão sutil, quase imperceptível, que só quem o conhecia muito bem conseguiria notar.
A primeira rajada de vento bateu forte contra o vidro, fazendo-o estremecer. Muichiro deu um pulinho pequeno, quase imperceptível, e apertou mais o moletom contra o corpo.
Ele ouviu passos no corredor. Pesados, apressados. A porta do quarto se abriu com um baque e Genya entrou, trazendo duas canecas fumegantes de chá.
- Peguei o seu favorito - disse ele, oferecendo uma das canecas. - Camomila com mel. Tá um frio danado lá fora.
Muichiro aceitou a caneca com um murmúrio de agradecimento, mas seus olhos não saíam da janela. Genya percebeu imediatamente. Ele sempre percebia.
- Ei. - Genya sentou-se na cama ao lado dele, fazendo o colchão afundar sob seu peso. - Tá tudo bem?
- Tá - respondeu Muichiro, rápido demais.
Um trovão distante roncou baixo, como um aviso. Muichiro piscou, e seus dedos apertaram a caneca com mais força.
Genya franziu a testa. Ele conhecia aquele sinal. Conhecia bem demais.
- Mui... - começou ele, baixinho.
- Eu... - Muichiro hesitou. Seus olhos turquesa finalmente se desviaram da janela e encontraram os roxos de Genya. Ele mordeu o lábio inferior, e por um momento pareceu um menino assustado, não o jovem calmo e distante que todos conheciam. - Eu não gosto de trovões.
Genya não riu. Não fez piada. Apenas assentiu, sério.
- Eu sei.
- Eu sei que é bobo - continuou Muichiro, olhando para as próprias mãos. - Eu tenho quase dezoito anos. Deveria...
- Não é bobo - interrompeu Genya, firme. - Não é bobo, Mui. Todo mundo tem medo de alguma coisa.
Outro trovão, mais próximo dessa vez. Muichiro deu um leve tranco, e o chá quase derramou. Genya pegou a caneca de suas mãos e a colocou na mesinha de cabeceira.
- Eu... - Muichiro respirou fundo. Suas bochechas estavam levemente coradas, e ele não conseguia olhar nos olhos de Genya. - Eu queria que você... dormisse abraçado comigo hoje.
A frase saiu tão baixinha, tão tímida, que Genya quase não ouviu. E seu coração deu um apertão doce e doloroso ao mesmo tempo.
- Claro - disse ele, sem hesitar. - Claro que sim.
Muichiro finalmente olhou para ele, e havia uma gratidão silenciosa em seus olhos, misturada com uma vergonha que ele tentava esconder.
- Você não precisa rir de mim - murmurou.
- Eu não vou rir - prometeu Genya, e sua voz saiu mais rouca do que pretendia. - Eu nunca rio de você, docinho.
Muichiro deu um leve sorriso, aquele sorriso pequeno e quase imperceptível que Genya adorava.
Eles terminaram o chá em silêncio confortável. Genya se levantou para fechar as cortinas, bloqueando a vista da tempestade lá fora. Depois, tirou o moletom que usava por cima da camiseta e o jogou em cima da cadeira.
