CAPÍTULO ÚNICO

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​─ Você chamou ele mesmo assim? - Lia comentou, passando a mão pelos vestidos na arara de roupas.

​─ Convidei quando ainda estávamos juntos, tá?! - Jorge respondeu, cobrindo metade do rosto com a mão, num misto de frustração e cansaço. - Ele deve ir. Guille, Luiz e Jorginho confirmaram presença... não há a menor chance dele não comparecer.

​Para Carrascal, aquilo não era exatamente um problema - ou, pelo menos, era o que ele tentava convencer a si mesmo. No fundo, porém, gostava de dramatizar a situação diante da amiga para não ter que encarar o tamanho do nó em seu peito. Todos os dias daquela semana exaustiva tinham sido um inferno. Ter que manter distância de Erick, limitando-se a vê-lo apenas nos treinos, dividindo o mesmo gramado sem trocarem sequer um cumprimento ou um olhar direto, estava corroendo-o aos poucos. Ainda assim, o orgulho falava mais alto; a culpa da briga não foi dele, e não seria agora que daria o braço a torcer.

​A situação no trabalho só piorava o clima. Na treino do dia anterior, Erick parecia jogar com o pé trocado de propósito, sem fazer questão alguma de colaborar na construção das jogadas com ele. Pelo contrário, manteve-se distante, parcialmente displicente, ignorando as passagens de Jorge. No segundo tempo, a teimosia cobrou o preço e Jorge precisou ser remanejado taticamente. O volante conseguiu anulá-lo em campo, tornando Carrascal praticamente inexistente durante boa parte do jogo. Uma guerra silenciosa vestindo o mesmo lado da moeda.

​─ Eu te conheço, cara - Albuquerque riu, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha para o amigo. - Você quer que ele vá. Quer que veja que você está bem sem ele. E, se eu apostar, ainda vai fazer questão de beijar alguém na frente dele.

​─ O quê? Eu nunca faria isso... não fale besteiras, Lia. - Ele revirou os olhos, sentindo as bochechas esquentarem de leve, e virou-se bruscamente, dando as costas para o interior da loja. - As roupas daqui são comportadas demais para você. Não vai usar nada disso. Vamos embora.

​Lia riu alto, satisfeita por ter acertado em cheio na ferida do camisa 15. Ela já estava quase enlouquecendo de tédio para sair dali de qualquer forma.

​─ Também te amo, gatinho.

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Erick aproveitava aquela folga da pior maneira possível. Eram sete horas da noite, e ele permanecia jogado no sofá, assistindo a uma série repugnante. Tinha visto uma cena aleatória nos reels e, tomado por uma curiosidade besta, decidiu conferir o restante. Era péssima - irritantemente péssima -, mas, ainda assim, ele continuava ali. Precisava desesperadamente de qualquer atividade estúpida que ocupasse sua mente e o impedisse de pensar.

​Porque ele sabia que, exatamente naquele minuto, a festa de aniversário do ex-namorado estava começando. A simples ideia lhe embrulhava o estômago. Era obrigado a ver Jorge todos os dias nos treinos e, mesmo tendo a oportunidade, simplesmente não conseguia engolir o orgulho para pedir desculpas pela merda que tinha feito.

​Erick sabia que foi o único culpado pela briga. Sabia que tudo tinha sido desnecessário, exagerado, estúpido. Deveria ter pedido perdão na mesma hora, antes que o sangue ficasse frio novamente. Em vez disso, preferiu pegar o celular, as chaves do carro e ir embora naquela madrugada horrorosa, deixando para trás qualquer possibilidade de diálogo entre os dois.

​Quando chegou em sua própria casa, chorou feito um bebê recém-nascido jogando em um canto qualquer do escuro da sala. E, mesmo que o peito doesse, não enviou uma única mensagem. O maldito orgulho não permitiu.

BEBE E VEM ME PROCURAR ⌜ pulgarrascal ⌟ Příběhy, které tě pohltí. Začni objevovat