O sinal tocou e eu levantei da carteira sem pressa nenhuma, como sempre. O corredor estava um caos de sempre: gente correndo, empurrando, gritando. Passei pela quadra de vôlei do colégio sem nem olhar direito. Tinha um pessoal jogando vôlei, mas eu nem parei. Fazia quase um ano que eu não pegava na bola com vontade.
Na sétima e oitava ano eu era bom. Era bom até demais, na real. O técnico até falava que eu tinha "mão boa" pra oposto. Treinava mais que todo mundo, ficava até tarde na quadra. Depois... sei lá. O time era uma bagunça, ninguém levava a sério, a gente perdia feio toda hora. Comecei a sentir que era só ilusão. Que por mais que eu fosse bom ali, não ia mudar nada na minha vida. Aí parei de ir. Devagar. Sem drama. Só fui perdendo a graça até não sentir mais nada.
— Caio, vai pro curso hoje? — Lucas me perguntou no portão.
— Vou.
— Ainda tá nessa de intercâmbio? Você tá maluco, mano. Imagina tu no frio.
Dei de ombros.— Tô fazendo o curso para poder aprimorar meus conhecimentos em inglês, imagina eu na Times Square ou até em Hollywood na calçada da fama.
Fui andando até o centro. O calor da tarde estava insuportável, o asfalto quente subindo pelas pernas. Cheguei no lugar do curso da SEDU suado, sentei no fundo da sala como de costume e fiquei esperando a prova começar. Hoje era o dia da seleção final. Depois de seis meses de curso, quem passasse na prova ia concorrer às vagas de intercâmbio pro Canadá. Eram poucas vagas. Muita gente boa na turma. Eu não me achava um deles.
A prova foi longa. Listening, reading, writing e uma redação idiota: "Por que você quer fazer intercâmbio?". Escrevi que queria melhorar o inglês, conhecer outra cultura e blá blá blá. As coisas que todo mundo escreve. Eu após 30 minutos escrevendo nessa redação chata terminei e entreguei.
Quando saí da sala, a professora me deu um sorriso.— Boa sorte, Caio. Você foi bem consistente esse tempo todo.
— Obrigado — respondi baixo e saí.
Voltei pra casa andando devagar. O sol ainda estava forte, o movimento da rua normal. Tudo igual. E era exatamente isso que me incomodava. Minha vida era isso: uma rotina sem graça e infinita. Colégio público, casa, jogo, dormir. E agora eu tinha feito uma coisa diferente. Tinha feito a prova.
Cheguei em casa, joguei a mochila no sofá e fui pro quarto. Minha mãe ainda não tinha chegado. Melhor. Não queria ter que ficar explicando como foi a prova. Deitei na cama e fiquei olhando pro teto. E se eu passar? A ideia parecia absurda. Eu, Caio, morando um ano no Canadá. Falando inglês todo dia. E estudando num High School e quem sabe conhecer um monte de canadenses gatinhas. Num lugar onde faz menos de dez graus no "verão". Sem meus amigos que só falam de futebol e de pegar sem ficar. Sem minha mãe enchendo o saco. Sem mais do mesmo.
Peguei o celular. O grupo da turma do curso já estava explodindo de áudios e mensagens nervosas. Todo mundo reclamando das matérias chatas e rindo de um vídeo besta de um dos nossos colegas fazendo farra na sala. Eu só visualizei e não respondi. Ia continuar minha vida normal. Suspirei e virei pro lado, encarando a parede descascada.— Anime-se, Caio — murmurei.
O resultado saía em poucos dias. Enquanto isso, só me restava esperar.
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Inverno em Vancouver
RomanceUma AU do livro Eu Não Planejei Você, na qual Helena nunca se mudou para a escola pública e consequentemente, nunca conhecendo Caio. Caio que nunca mais foi feliz desde o 8 ano, precisa fazer a prova do PIES para fazer intercâmbio no Canadá, mesmo s...
