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Capítulo 1

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A chuva batia fraca nas janelas do apartamento em São Paulo, deixando o céu num cinza pesado que Ana Paula odiava. Não pelo frio - mineira aprende cedo a conviver com tempo estranho - mas porque aquele tipo de dia fazia a coluna dela reclamar mais do que o normal. Como se os ossos soubessem da tristeza antes dela.

E naquela manhã, reclamava muito.

- Ô trem maravilhoso... - ela resmungou sozinha, a voz arrastada de quem já acordou cansada, apoiando a mão na lombar enquanto saía do quarto. A dor latejava igualzinha a um aviso. - A senhora tá virando uma idosa, Ana Paula Renault.

O apartamento estava silencioso. Só o som distante da televisão ligada e o barulho do salto dela contra o piso. Cada passo ecoava vazio.

A dor nas costas atravessava desde cedo. Fina. Constante. Irritante. Como uma agulha que alguém enfiava devagar entre as vértebras e deixava ali, só de pirraça.

Ela caminhou devagar até a cozinha, prendendo o cabelo num coque frouxo enquanto pegava o celular em cima do balcão. Os dedos tremiam um pouco. Ela ignorou.

Uma mensagem nova apareceu na tela.

Milena.

📲 "Sumiu por quê? Tá aprontando, né?"

Ana Paula soltou uma risada baixa pelo nariz. A primeira coisa quente que sentia na manhã.

- Ô tia Milena... ocê implica comigo mais que fiscalização da Receita Federal.

Abriu a conversa. Os olhos marejaram levemente de saudade. Ela nem sabia direito de quê.

📲 "Meu amor, a agenda da artista aqui tá um caos."

A resposta veio quase imediatamente. Parecia que Milena estava esperando.

📲 "Agenda nada. Cê deve tá dormindo e babando no travesseiro até agora."

Ana apertou os olhos automaticamente, mordendo o riso.

- Estrupício...

Mas sorriu sem perceber. Daquele jeito involuntário que sempre acontecia quando a Milena aparecia do nada só pra provocar ela. O mesmo sorriso bobo.

A lombar latejou forte de novo.

Ela travou no lugar.

- Ai, desgrama...

A mão apertou automaticamente a bancada da cozinha. A dor desceu queimando pelas costas e fez o ar escapar dos pulmões. Ela segurou a respiração, apertou os dentes.

Não era a primeira crise.

Mas tinha alguma coisa errada.

Muito errada.

Ela caminhou até a sala em passos lentos e cautelosos e pegou a bolsa no sofá, respirando fundo como quem ensaia coragem.

Um passo. Outro. A perna esquerda ameaçou dobrar sozinha.

E então o pé escorregou na ponta do tapete.

O corpo perdeu completamente o equilíbrio.

E foi como se o mundo virasse de ponta-cabeça.

A coluna virou uma explosão absurda de dor. Uma dor que não parecia real. Que não cabia dentro de um corpo humano.

E Ana Paula caiu.

Violento.

Primeiro as costas, num estalo seco que ela sentiu até os dentes.

Depois a cabeça.

A batida ecoou seca pelo apartamento.

O mundo piscou branco.

Ela ouviu o próprio grito falhar na garganta antes do ar desaparecer completamente dos pulmões. A boca abriu, mas nenhum som saiu. Só um gemido molhado, sufocado.

Um Toque Do Destino (Milana)Stories to obsess over. Discover now