A GAROTA QUE CHEGOU TARDE DEMAIS

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O céu acima de Magix parecia irreal.

Talvez porque fosse bonito demais.
Talvez porque ela estivesse cansada demais para acreditar que aquilo realmente existia.

A garota apertou os dedos ao redor da alça da mala enquanto observava os enormes anéis flutuantes girando ao redor da cidade. Luzes mágicas cortavam o céu como estrelas vivas, criaturas voavam entre as torres e pontes transparentes conectavam prédios que pareciam impossíveis de sustentar.

Ela já tinha visto magia antes.

Mas nunca daquele jeito.

Nunca tão... livre.

O vento bagunçou os cabelos dela enquanto descia da plataforma metálica da nave pública. Pessoas passavam apressadas ao seu redor usando uniformes diferentes, algumas carregando grimórios enormes, outras discutindo feitiços como se aquilo fosse tão comum quanto respirar.

Ela se sentia deslocada.

Completamente deslocada.

A mala velha bateu contra sua perna enquanto caminhava lentamente pela estação. O tecido preto do casaco escondia parte do corpo e fazia parecer que ela queria desaparecer dali.

Talvez quisesse mesmo.

Um holograma brilhante surgiu acima da entrada principal da cidade:

BEM-VINDOS A MAGIX.

Abaixo, em letras menores:

INSCRIÇÕES ABERTAS — ALFEA COLLEGE.

Ela parou.

Os olhos ficaram presos no nome.

Alfea.

A escola que aparecia em todos os livros antigos.
A escola das fadas mais poderosas.
A escola onde garotas aprendiam a controlar magia, combate, história dos reinos e tudo o que existia além do mundo comum.

Ela soltou uma risada baixa.

— Claro... porque isso parece muito a minha cara.

Ninguém ouviu.

Ninguém nunca ouvia.

Ela puxou um papel amassado do bolso do casaco. A carta já estava dobrada tantas vezes que parecia prestes a rasgar.

Convocação oficial.
Aceita por magia reconhecida.
Classe especial de desenvolvimento tardio.

Ela odiava aquele termo.

Desenvolvimento tardio.

Como se a magia dela tivesse acordado atrasada.
Como se ela tivesse chegado tarde demais para tudo.

Os dedos apertaram o papel antes que ela o guardasse novamente.

A verdade era simples:
ela nunca teve oportunidade.

Não existiam professores.
Não existiam pais.
Não existia ninguém.

Só ela.

Ela cresceu sozinha em um apartamento pequeno demais, aprendendo a esconder os acidentes mágicos antes que alguém percebesse. Quando objetos explodiam, ela limpava. Quando lâmpadas queimavam, fingia não saber. Quando sonhos estranhos mostravam lugares que nunca tinha visto... ela apenas acordava e continuava vivendo.

Sozinha.

Sempre sozinha.

Por isso Magix parecia tão absurda.

Ali ninguém escondia o que era.

Ela atravessou as ruas movimentadas observando tudo em silêncio. Feiticeiros discutiam em cafeterias suspensas, estudantes riam próximos às fontes luminosas e criaturas pequenas corriam entre os pés das pessoas.

Tudo parecia vivo.

Colorido.

Ela não conseguia decidir se aquilo a encantava ou assustava.

Talvez os dois.

Depois de quase meia hora caminhando, ela finalmente viu os portões de Alfea.

O prédio era gigantesco.

Torres altas tocavam o céu rosado do fim da tarde e vinhas brilhantes subiam pelas paredes claras como se fossem feitas de estrelas líquidas. Havia magia no ar.
Literalmente.

Ela conseguia sentir.

O coração bateu mais forte.

Por um segundo, pensou em ir embora.

Ainda dava tempo.

Ninguém sentiria falta dela ali.

Mas então lembrou do apartamento vazio.
Das noites silenciosas.
Dos anos fingindo não existir.

E pela primeira vez na vida...

Ela queria tentar.

Mesmo sem saber como.

A garota respirou fundo e começou a subir os longos degraus da entrada principal.

Os saltos de outras estudantes ecoavam pelo corredor enorme enquanto ela caminhava devagar, tentando não parecer perdida.

Falhou miseravelmente.

Uma mulher passou por ela carregando livros flutuantes e lançou um olhar rápido.

— Primeira vez em Alfea?

Ela hesitou por um segundo.

— Tá tão óbvio assim?

A mulher riu baixo.

— Um pouco.

Ótimo.

Ela desviou o olhar, sem graça.

— Relaxa. Todo mundo fica assustado no primeiro dia.

Todo mundo.

Aquela frase ficou presa na cabeça dela.

Porque ela nunca teve um "todo mundo".

Antes que pudesse responder, a mulher apenas apontou para o fim do corredor.

— Diretoria fica por ali.

— Obrigada.

Ela continuou andando.

As paredes enormes exibiam retratos antigos de fadas poderosas. Algumas sorriam. Outras tinham expressões sérias demais. Havia história naquele lugar.
História demais.

E ela não fazia parte de nenhuma delas.

Ainda.

Quando finalmente parou diante das enormes portas douradas da diretoria, sentiu o nervosismo voltar.

As mãos ficaram frias.

Ela respirou fundo uma vez.

Duas.

Três.

Então empurrou a porta lentamente.

E naquele instante...

Sem perceber...

A magia dentro dela despertou de novo.

Mais forte do que nunca.

Chamas & Ruínas Stories to obsess over. Discover now