CAPÍTULO 1: Ghosts in the Compound

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A madrugada no Complexo dos Vingadores tinha um silêncio peculiar, quebrado apenas pelo zumbido suave dos equipamentos e a melodia abafada que escapava dos fones de Florence. Imersa na penumbra da oficina, ela manipulava circuitos complexos com a destreza de quem nasceu para aquilo, os dedos ágeis e precisos. A insônia era uma velha conhecida, uma companheira noturna que a empurrava para o refúgio da tecnologia, um lugar onde a mente, por mais inquieta que fosse, encontrava um foco, uma distração bem-vinda dos pensamentos que, de outra forma, a consumiriam.

Um resmungo abafado a fez erguer os olhos. Tony Stark, seu pai, estava adormecido sobre uma bancada adjacente, a cabeça apoiada em um emaranhado de fios e ferramentas. Um sorriso pequeno e melancólico surgiu nos lábios de Florence. Aquela cena era a personificação da dinâmica familiar deles: amor incondicional, temperado com sarcasmo afiado e um caos inerente que, de alguma forma, funcionava. Eles eram uma unidade, uma constelação de gênios e corações complexos, navegando o universo à sua própria maneira.

Florence era, sem dúvida, uma Stark. A inteligência brilhante, a curiosidade insaciável e a paixão pela inovação corriam em suas veias. Mas, ao contrário da exuberância muitas vezes extrovertida de Tony, ela carregava uma camada de reserva, uma muralha emocional que poucos conseguiam transpor. Seus sentimentos eram um labirinto, guardados a sete chaves, e a oficina era seu santuário, onde podia ser ela mesma sem a necessidade de decifrar ou ser decifrada.

Enquanto soldava um microchip com precisão cirúrgica, uma pontada familiar de apreensão a atingiu. Seus poderes. Eles eram uma parte intrínseca dela, uma extensão de sua vontade, mas ultimamente, algo parecia... diferente. Uma corrente elétrica sutil, quase imperceptível, percorreu seus dedos, fazendo a pequena ferramenta em sua mão vibrar por um instante. Ela franziu a testa, a concentração desviada. Não era a primeira vez. Havia uma instabilidade crescente, um sussurro de descontrole que a assustava mais do que ela admitiria. Era como se a energia que a definia estivesse se tornando uma entidade própria, com uma vontade que nem mesmo ela conseguia domar completamente.

Horas se arrastaram, a noite cedendo lentamente ao cinza pálido do amanhecer. Florence finalmente desligou os fones, o silêncio da oficina agora mais denso. Ela se espreguiçou, sentindo a rigidez nos ombros. Era hora de tentar algumas horas de sono, ou pelo menos um simulacro dele.

Ao sair da oficina e caminhar pelos corredores silenciosos do Complexo, uma sensação estranha a envolveu. Não era o frio habitual da madrugada, nem o cansaço que pesava em seus ossos. Era uma presença. Um olhar. Ela parou, os sentidos aguçados, o ar ao seu redor parecendo vibrar de uma forma quase imperceptível. Não havia som, não havia movimento visível, mas ela sentia. Era como um fantasma, uma sombra que se movia nas periferias de sua percepção.

Um arrepio percorreu sua espinha. Ela virou a cabeça lentamente, varrendo o corredor vazio com os olhos. Nada. Mas a sensação persistia, um calor frio na nuca, a certeza de que não estava sozinha. Ela sabia que Steve Rogers havia mencionado que um velho amigo estava voltando, mas o nome James Buchanan Barnes não era o que ecoava em sua mente com curiosidade ou fascínio. O que ela conhecia, o que a fazia apertar os punhos e sentir o sangue gelar, era a figura sombria do Soldado Invernal. O assassino da HYDRA. O homem que, décadas atrás, havia tirado a vida de seus avós, Howard e Maria Stark.

De repente, ela o viu.

No final do corredor, parado diante de uma das janelas imensas que davam para o pátio, estava Bucky Barnes. Ele estava de costas para ela, a silhueta recortada contra a luz pálida do amanhecer. O braço de metal refletia o cinza do céu, uma marca indelével de seu passado. Ele não se moveu, não indicou que sabia que ela estava ali, mas a tensão no ar era quase física.

Florence parou a alguns metros de distância, observando-o. Não havia compaixão em seu olhar, nem o desejo de entender o que ele havia passado. Tudo o que ela sentia era uma antipatia visceral, um instinto de preservação que gritava em seus ouvidos. Ele parece um problema, ela pensou, as mãos fechando-se em punhos ao lado do corpo.

Bucky virou a cabeça ligeiramente, apenas o suficiente para que seu perfil fosse visível. Ele não olhou diretamente para ela, mas Florence sentiu o peso de seu desdém, uma frieza que rivalizava com a sua própria. Ele claramente não gostava da presença dela ali, da mesma forma que ela detestava a dele. Não houve palavras, nem saudações, nem mesmo um aceno de cabeça. Apenas um silêncio carregado de hostilidade mútua.

Ele se afastou primeiro, desaparecendo em um dos corredores laterais com a quietude de um predador. Florence permaneceu imóvel por um longo tempo, o coração martelando contra as costelas. O passado acabara de entrar pela porta da frente, e ele não trazia paz. Ele trazia guerra. E Florence Stark, observando o lugar onde ele estivera, soube naquele instante que sua vida no Complexo nunca mais seria a mesma. Ela não queria conhecê-lo, não queria ajudá-lo. Ela só queria que ele fosse embora. Porque Bucky Barnes não era apenas um fantasma; ele era uma tempestade prestes a desabar sobre tudo o que ela tentava construir.

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