Capítulo 1 - O Café das Luzes Douradas

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 O Encontro que Desarrumou Tudo

Lisboa amanhecia dourada e preguiçosa, como uma amante que sabia que não precisava se esforçar para ser desejada. O sol de início de primavera derramava-se sobre os telhados de telha laranja, iluminando as ruas de pedra ainda molhadas pelo orvalho da madrugada. O ar estava carregado com o perfume inconfundível da cidade: pão quente saindo dos fornos, café torrado, maresia do Tejo e o leve cheiro adocicado das sardinheiras que explodiam de vermelho nas varandas.

Num prédio antigo em Arroios, sem elevador e com escadas que rangiam a cada passo, Eva Navarro abriu as portas da varanda do seu pequeno T1. As sardinheiras vermelhas balançavam suavemente com a brisa, pintando de cor a grade branca simples. O apartamento era modesto, mas tinha alma: mantas claras dobradas com cuidado no sofá, velas aromáticas meio consumidas, pilhas organizadas de livros e um cantinho de plantas que ela regava religiosamente todas as manhãs.

Aos vinte e três anos, Eva era o tipo de mulher que fazia as pessoas virarem a cabeça sem esforço. Com 1,79m de altura, corpo esbelto e curvas naturalmente brasileiras, cabelos castanhos longos e ondulados que caíam como uma cascata pelas costas, pele dourada e um sorriso que transmitia calor genuíno. Ela já estava impecável: maquiagem leve e perfeita, perfume suave mas marcante, calças bege de cintura alta, camisa azul clara ajustada e tênis brancos imaculadamente limpos.

Acabara de voltar do crossfit das sete da manhã. Tomou três litros de água ao longo do dia, suplementos, fez sua skincare como um ritual sagrado e leria dez páginas de um livro antes de dormir. Não bebia, não fumava. Tinha opinião formada sobre política, economia, investimentos e comportamento humano. Empática, espiritualizada, disciplinada e absurdamente afetuosa. Uma mulher que parecia grande demais para estar servindo mesas.

E, no entanto, ali estava ela.

— Eva, tu não nasceste pra isso, caramba — dizia Teresa quase todos os dias, com seu sotaque brasileiro carregado. — Tu és inteligente demais, linda demais, carismática demais pra ficar atrás de um balcão.

Eva ria, mas as contas na bancada da cozinha não desapareciam. O aluguel em Lisboa era absurdo. Tinha se mudado para a capital há poucos meses, depois de um ano em Portugal, para tentar construir algo sólido ao lado de Álvaro Bragança — o namorado de três anos. Álvaro era tudo o que os pais dele queriam: brilhante desenvolvedor de software, rico, controlado, frio nos cálculos. Fazia tudo conforme o plano familiar. Eva, por outro lado, construía a vida com as próprias mãos, tijolo por tijolo, sacrifício por sacrifício.

Naquela tarde, o Café Magalhães fervilhava.

Tinha se formado há pouco, chegara ao Brasil há apenas um ano atrás para viver com Álvaro Bragança — o namorado de três anos. Um homem brilhante, controlado, filho de uma das famílias mais tradicionais de Lisboa. Álvaro planejava a vida como se fosse código: limpo, previsível, seguro. Eva era o oposto. Caos organizado. Espiritualizada, intensa, questionadora. Acordava às sete para treinar, bebia três litros de água por dia, cuidava da pele como um ritual sagrado e lia pelo menos dez páginas antes de dormir. Tinha opinião sobre tudo e, pior, escutava de verdade.

Talvez por isso Dimas Goiz estivesse perdidamente apaixonado por ela desde o dia em que se conheceram.

Mas isso era uma história que ainda não tinha sido contada em voz alta.

Naquela tarde, o Café Magalhães pulsava com vida própria.

O pequeno estabelecimento de esquina perto da Avenida Almirante Reis tinha se transformado num dos pontos mais vibrantes da zona graças à loucura genial de Cecilia Magalhães — CeCe. A dona era um furacão: linda, impulsiva, com riso fácil e talento para arranjar confusão. Seu irmão gémeo, Francisco, tentava manter o barco a flutuar entre faturas e crises.

Entre o Destino e o DesejoStories to obsess over. Discover now