Numa terra onde caçar dragões era entretenimento, todos imaginavam que o pânico dominaria após o impacto do meteoro que trouxe consigo hordas de aberrações e fanáticos de olhos vazios. Mas o que veio depois surpreendeu a todos: um silêncio tão denso que parecia uma presença física, como se o próprio ar tivesse congelado. Em poucas semanas, o terror inicial se dissolveu em uma estranha normalidade. As pessoas voltaram às suas rotinas, evitando olhar para o céu, como crianças que fecham os olhos acreditando que o monstro desaparecerá se não for visto.
Mas nem todos silenciaram. Nas sombras, uma alma se recusava a aceitar aquela quietude podre. Elandra Violeth, moldada à força pela doutrina de uma igreja que escondia horrores capazes de devastar nações, sabia que para enfrentar o verdadeiro mal precisaria de guerreiros à altura.
E não havia lugar melhor para encontrar almas dispostas — ou desesperadas — do que Nefária, a infame Cidade do Pecado. Após o cataclismo, a cidade tornara-se um ninho de corrupção, não apenas pela proximidade com a cratera, mas por abrigar os últimos combatentes dispostos a lutar... ou lucrar. Ali, a sobrevivência custava mais do que ouro.
A noite caía pesada, com uma chuva grossa martelando os telhados como se o céu quisesse afogar a cidade. Dentro da Taverna do Martelo Partido, porém, o clima era outro: quente, barulhento e denso pelo cheiro de cerveja, suor e carne assada. Risos altos se misturavam a discussões ébrias e ao som de dados rolando. No canto da taverna, uma lareira crepitava, transformando roupas encharcadas em vapor e devolvendo vida a dedos endurecidos pelo frio. Era um caos vivo e vibrante.
Do fundo do salão, Elandra observava. Seus olhos logo pousaram sobre um grupo pequeno, mas promissor. Um bardo elfo espalhava melodias entre as mesas, mas foi uma guerreira tiefling que capturou sua atenção de imediato. Havia algo hipnótico nela: traços finos marcados por sombras pesadas, lábios escuros e um corpo escultural que parecia forjado entre batalhas e blasfêmias. Brutal e bela, uma ameaça envolta em seda rasgada. Ao lado dela, um monge isolado até no olhar, e um paladino cuja imponência carregava o peso de juramentos antigos.
Como uma estrategista nata, Elandra sabia que não podia se revelar ainda. Precisava de teatro. De impacto. Ela deixou a taverna pela porta dos fundos, desaparecendo na chuva para preparar sua entrada.
Enquanto isso, alheios ao escrutínio, o grupo comemorava uma caçada bem-sucedida. No centro das atenções, Kalissa — a tiefling de olhos selvagens — travava uma queda de braço contra um brutamontes local. O detalhe humilhante? Ela parecia entediada.
Com o braço firme como rocha, sem sequer olhar para o adversário que suava e tremia, Kalissa conversava com o paladino, Lukan, como se estivessem num chá da tarde.
— Eu realmente não entendo por que continuamos pegando essas missões de caça — disse ela, a voz arrastada de tédio, enquanto o oponente rangia os dentes. — Queria algo mais... dramático. Perigoso. Sabe? Algo que me faça sentir viva.
Lukan ajustou a postura, enrijecendo os ombros enquanto seu olhar viajava do braço imóvel de Kalissa até a face congestionada do oponente.
— Essas caçadas garantem nosso sustento. Teto. Refeições quentes — argumentou, com a solenidade típica de quem carrega juramentos. — Arriscar-se sem necessidade é tolice. E quanto a isso... — um aceno discreto na direção da disputa — ...ao menos disfarce seu tédio.
Com um estalo súbito, Kalissa finalizou o embate. O punho do adversário colidiu contra a mesa, sacudindo canecas e derramando cerveja. Ela arqueou uma sobrancelha, indiferente.
— Pfft. Nem suei.
A taverna explodiu em aplausos, mas nos olhos dela brilhava uma fome não saciada.
Foi então que a porta da taverna se abriu novamente.
Transfigurada na forma de um guerreiro imponente, coberta por armadura gasta e um manto pesado, Elandra entrou. Seus passos ressoaram no assoalho, abafando o som do alaúde e calando o burburinho. Atrás do balcão, Vornak reconheceu a presença, não a aparência.
Quando ela se aproximou, sua voz saiu baixa, carregada de um presságio que o velho anão jamais esqueceria:
— O bispo desapareceu. Esse era o sinal, Vornak... Está chegando a hora.
Ele ficou imóvel, assentindo enquanto o chão parecia sumir sob seus pés. Sem dizer mais nada, ela colocou um envelope negro sobre o balcão. O selo, simples e sem brasão, parecia pesar mais que chumbo.
Ela virou-se para sair. Antes de tocar a porta, parou. Com voz firme, audível em cada canto do salão, declarou:
— Quem tiver coragem... e nenhuma fidelidade cega... que ouça o que está por vir.
E desapareceu sob a chuva.
A música voltou hesitante, mas a tensão permaneceu. O envelope continuava lá. Ninguém ousou tocá-lo. Ninguém, exceto eles.
Kalissa inclinou-se, os olhos faiscando curiosidade.
— Desde o meteoro, essa foi a coisa mais estranha que já vi — disse ela, um sorriso torto nos lábios. — Querem ver o que tem aí?
Lukan franziu o cenho, pensativo.
— Ela usava um símbolo da igreja no peito, sob o manto... Mas não parecia fé. Parecia uma cicatriz. Quero saber o que ela sabe.
Korv, o monge conhecido como Sussurro Pálido, apenas assentiu, aceitando o peso da decisão antes mesmo dela ser tomada.
Ao romperem o lacre, encontraram um mapa desenhado à mão indicando uma trilha esquecida até a beira da cratera, e um bilhete de caligrafia apressada, manchada como se escrita em urgência ou sangue:
"O Bispo Eleandor desapareceu. Ele será parte de uma iniciação. A igreja mente. Encontre-o... antes que seja tarde demais."
No verso, em tinta dourada, uma promessa contrastava com o tom sombrio: "Aqueles que chegarem a tempo serão recompensados com terras e títulos de nobreza."
Kalissa sorriu, girando o machado nos ombros.
— Títulos não me interessam... desde que eu possa lutar.
Nesse momento, o som do alaúde cessou de vez. O bardo — Lethalan, um elfo de cabelos como fios de ouro — desceu do palco improvisado, enxugando o suor da testa com um pano colorido. Aproximou-se do grupo com um sorriso leve, mas seus olhos denotavam preocupação.
— Vocês pareciam bem animados... O que eu perdi? Briga? Brinde? Ou um segredo mortal?
Korv entregou o bilhete silenciosamente ao bardo. O sorriso de Let vacilou. Um suor frio se formou em sua testa.
— Olha... a recompensa é boa — tentou manter o tom leve, rindo de nervoso. — Mas... "Iniciação", "cratera", "a igreja mente"... Tem coisa aí que nem tragédia grega cobre. Isso não parece perigoso demais?
Kalissa avançou, o olhar predatório fixo no bardo.
— Ora, ora... não se preocupe com seu esqueleto frágil. Eu o protejo, desde que suas cordas continuem soando enquanto nossas lâminas trabalham.
O elfo tentou um sorriso que não alcançou seus olhos.
— Frágil? Prefiro pensar em mim como... delicadamente construído para a arte — ajustou o alaúde. — Mas aceito sua guarda.
Korv rompeu seu silêncio com palavras medidas como gotas de chuva.
— Partiremos ao amanhecer. A noite não é nossa aliada nesta jornada.
— Verdade — confirmou Lukan. — As sombras já abrigam inimigos suficientes.
Kalissa soltou o ar entre os dentes, visivelmente contrariada, mas sem argumentos. O bardo ergueu sua taça num brinde mudo às últimas horas de paz que lhes restavam.
YOU ARE READING
Sopro do Vazio
FantasyPor séculos, Auren prosperou em harmonia. Reis, clérigos e povos diversos mantinham um equilíbrio frágil - imperfeito, mas sustentável. Nas vilas, a fé servia como elo, e muitos viam nos templos a última defesa contra as trevas ancestrais. Até que o...
