Narrador P.O.V.
A vida na zona sul do Rio de Janeiro tinha um ritmo próprio, pulsante, excessivo, quase hipnótico. Era como se o tempo ali corresse em outra frequência, embalado pelo som distante do mar batendo nas pedras e pelas luzes que nunca se apagavam completamente.
Naquele cenário onde o luxo se confundia com rotina, Fabiane Bang era mais do que uma espectadora: ela era parte ativa daquele espetáculo.
Integrante de uma das famílias mais influentes do país, Fabiane cresceu cercada por privilégios que poucos sequer ousariam imaginar. Dinheiro nunca foi um problema — era, na verdade, uma constante silenciosa, sustentando cada detalhe de sua existência.
Das roupas importadas que vestia com naturalidade às bolsas de grife que acumulava quase sem notar, tudo em sua vida refletia um padrão elevado demais para ser questionado. Havia também as festas — intermináveis, extravagantes, sempre regadas a bebidas caras e a uma sensação de liberdade que beirava o descuido.
Virar a noite era quase um hábito. Dormir, às vezes, parecia opcional.
Mas, por trás do brilho constante, havia rachaduras que começavam a se tornar difíceis de ignorar.
Fabiane era estudante da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a prestigiada PUC-Rio, onde cursava Relações Internacionais. A escolha não era exatamente fruto de um sonho pessoal, mas sim de uma expectativa quase inevitável.
Sua mãe, Maria Lúcia Bang, era uma figura respeitada no cenário diplomático, ocupando o cargo de embaixadora do Brasil no Consulado Geral em Nova Iorque. O caminho parecia traçado desde cedo, como se o sobrenome carregasse não apenas prestígio, mas também um roteiro pré-definido.
O problema era que Fabiane nunca se encaixou completamente nesse roteiro.
Ao contrário do que se esperava de alguém em sua posição, seu desempenho acadêmico era, no mínimo, preocupante. Reprovações se acumulavam discretamente, processos por má conduta surgiam e desapareciam com a mesma rapidez — abafados, convenientemente, antes de ganharem qualquer notoriedade. O nome Bang ainda tinha peso suficiente para manter as aparências intactas, mas, nos bastidores, a situação era outra história.
E Fabiane sabia disso.
Talvez fosse exatamente por isso que ela se jogava ainda mais intensamente naquela vida desregrada. Como se cada festa fosse uma tentativa de silenciar algo incômodo que crescia dentro dela. Como se o barulho externo pudesse, de alguma forma, calar o caos interno.
Até que, em uma única noite, tudo saiu do controle.
O telefonema veio como um presságio — breve, direto, carregado de uma tensão que atravessou quilômetros. Maria Lúcia não costumava agir por impulso, mas dessa vez foi diferente. Sem avisos prolongados ou justificativas detalhadas, ela embarcou para o Rio de Janeiro.
E quando chegou, encontrou exatamente aquilo que temia.
A cobertura no Leblon, que deveria ser um refúgio sofisticado, estava irreconhecível. Um verdadeiro formigueiro humano. Corpos jovens espalhados pelos cômodos, música alta vibrando nas paredes, copos esquecidos em qualquer superfície possível. O cheiro de álcool dominava o ambiente, misturado a perfumes caros e a um ar pesado de irresponsabilidade.
Era o retrato perfeito do excesso.
Maria Lúcia não hesitou.
Com uma frieza quase cirúrgica, começou a expulsar cada uma daquelas pessoas, sem se importar com protestos ou olhares indignados. Não havia espaço para diplomacia naquele momento. Um a um, os convidados foram sendo colocados para fora, até que o silêncio começou a retomar, ainda que timidamente, o controle do lugar.
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Entre dois mundos | MYRABI
Fanfiction"Descobrir consiste em olhar para o que todo mundo está vendo e pensar uma coisa diferente." - Roger Von Oech Entre os campos mineiros e o luxo da zona sul carioca, dois mundos colidem quando Fabi, uma garota rica, mimada e insatisfeita com tudo, é...
