O começo nunca parece perigoso

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A primeira vez que eu o vi, não teve nada de especial.
Nenhum vento dramático, nenhum olhar que parou o tempo.
Só… silêncio.
Ele estava encostado no fundo da sala, como se não pertencesse àquele lugar. E talvez não pertencesse mesmo. Enquanto todos conversavam, riam, fingiam normalidade… ele só observava.
E, de alguma forma, aquilo me incomodou.
Porque eu também observava.

Tentei ignorar.
Voltei minha atenção para o caderno aberto à minha frente, as palavras já preenchendo metade da página. Escrever sempre foi minha forma de manter controle. Sobre mim. Sobre o que eu sentia.
Sobre o que eu escondia.
Mas naquele dia…
as palavras não vinham.
Porque, mesmo sem olhar diretamente, eu sabia.
Ele ainda estava me olhando.

Levantei o olhar devagar.
Erro.
Os olhos dele já estavam em mim.
Não desviou.
Não fingiu.
Não fez nada além de… continuar olhando.
Como se estivesse me lendo.

Meu coração acelerou — e eu odiei isso.
Desviei primeiro, fechando o caderno com mais força do que o necessário. Não era nada. Só um garoto estranho. Só alguém sem educação suficiente pra parar de encarar.
Só isso.
Eu repeti isso pra mim mesma enquanto juntava minhas coisas.
Mas quando passei por ele…

— Você escreve sobre o que sente… ou sobre o que esconde?

A voz dele era baixa. Calma. Perigosa de um jeito que eu não sabia explicar.
Parei.
Devagar.
E me virei.

— Isso não é da sua conta.

Minha resposta saiu firme. Do jeito que eu sempre fazia.
Controle.
Mas ele sorriu.
E aquilo… não foi normal.
Não era um sorriso bonito.
Era o tipo de sorriso que dizia que ele sabia de algo.

— Ainda não — ele respondeu.

Ainda não.
Duas palavras.
E, de repente, eu tive a sensação mais estranha de todas:
Que aquilo…
não era o começo de algo simples.

Naquela noite, tentei escrever.
Abri o caderno. Peguei a caneta. Respirei fundo.
Mas tudo que vinha à minha mente… era ele.
O olhar.
A voz.
A forma como parecia enxergar além do que eu mostrava.
E foi aí que eu percebi.
Sem querer.
Sem planejar.
Sem controle.
Eu tinha encontrado alguém…
que talvez conseguisse me ler melhor do que eu mesma.
E isso — isso era perigoso.

Mas o que eu ainda não sabia…
era que ele já estava escrevendo a minha história.

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⏰ Última actualización: Jun 26 ⏰

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