PARTE I - O ALGORITMO INVISÍVEL Capítulo 1 - O Silêncio Entre Dois Códigos

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O algoritmo não mentia. Pena que as pessoas mentissem para si mesmas o tempo todo.

Theo observava a curva de engajamento subir como febre no gráfico à sua frente. O post de Meridiano sobre "os sinais que você ignora antes de uma perda irreversível" acabara de cruzar a marca de dois milhões de visualizações. Ele deveria se sentir satisfeito. Realizado. Talvez até orgulhoso.

Sentiu um aperto frio no estômago.

— Merda — murmurou, passando a mão pelo cabelo escuro que caía sobre os olhos.

A tela do notebook mostrava mais do que números. Mostrava vidas sendo desviadas. Destinos sendo cutucados com a ponta dos dedos enquanto ninguém olhava. E o pior: ele sabia que nenhuma daquelas pessoas teria a mínima noção do que estava prestes a acontecer com elas.

O que Meridiano previa se tornava real. Não por acaso. Porque Theo puxava os fios certos nos lugares certos.

A campainha tocou.

Ele salvou o arquivo com um movimento rápido – CTRL+S, fechar aba, limpar cache. Programador metódico até nos vícios. O notebook foi para a mochila preta, a mochila para dentro do armário embaixo da pia, atrás do amaciante. Ninguém que entrasse ali encontraria o que não deveria.

— Estou indo — avisou, embora não houvesse ninguém para ouvir.

A porta rangeu ao abrir.

Ninguém.

Olhou para a esquerda. Corredor vazio, luz amarelada do fim de tarde entrando pela janela do elevador. Para a direita. A escada de incêndio, o lixo do andar, o silêncio.

Foi quando sentiu.

Não era um som. Não era um cheiro. Era uma frequência. Como um zumbido profundo nos dentes, daqueles que fazem a mandíbula contrair sem permissão. Theo conhecia aquela sensação melhor do que conhecia o próprio nome.

Aracnídeo.

A três quarteirões de distância. Talvez quatro. Mas se aproximando.

Ele recuou um passo para dentro do apartamento, a mão já fechando a porta quando viu.

No batente. Um pedaço de papel dobrado em formato de triângulo.

Theo parou. Respirou fundo. Pegou o papel como quem pega uma agulha infectada.

Desdobrou.

A caligrafia era miúda, quase ilegal, mas as palavras queimaram na retina antes mesmo de ele processar o significado completo:

"Meridiano, eu sei o que você é. E sei o que você fez. Não estou aqui para te expor. Estou aqui porque preciso que você me mostre. 21h. Café Esquina, Santa Cecília. Venha sozinho."

Não havia assinatura. Apenas o papel áspero, dobrado com precisão cirúrgica.

Theo amassou o papel com força.

A frequência ainda pulsava. O outro Aracnídeo não havia ido embora. Estava parado ali, em algum lugar, esperando.

— Mostrar o quê, seu desgraçado? — sussurrou para o corredor vazio.

Ninguém respondeu.

Ele fechou a porta. Trancou as duas trancas. Passou a corrente.

Meridiano não encontrava ninguém pessoalmente. Era a primeira regra que ele mesmo impôs quando criou o personagem, dois anos atrás: ninguém vê meu rosto. A segunda: ninguém sabe meu nome. A terceira: ninguém toca no meu dom sem minha permissão.

Alguém acabara de quebrar as três de uma só vez.

Theo desamassou o papel com calma. Leu de novo.

"Preciso que você me mostre."

Mostrar o quê? O dom? O rosto? A fraqueza? Ou será que o desconhecido queria que Meridiano mostrasse o que via no destino dele?

Ele sentou no chão da sala minúscula, as costas apoiadas na porta. A noite caía rápido sobre São Paulo, e as luzes dos prédios vizinhos começavam a acender uma a uma, como pequenos fios de destinos alheios se conectando sem que ninguém pedisse.

Não queria ir.

Mas a frequência ainda estava lá. E quando tentou puxar o fio daquele desconhecido – apenas para sentir quem era, apenas para saber se era ameaça – o fio resistiu.

Nunca tinha acontecido antes.

Alguém que ele não conseguia influenciar. Alguém que sabia onde ele morava. Alguém que o chamou pelo nome que ele usava para se esconder.

Theo levantou, foi até o banheiro, lavou o rosto. Olhou no espelho. Viu os olhos escuros, as olheiras profundas, a mandíbula tensa.

— Vai, idiota — disse para o reflexo. — Vai descobrir quem quer te foder.

Pegou a jaqueta jeans. O boné preto. As chaves.

Antes de sair, fez uma coisa que não fazia há meses: abriu a gaveta da mesa de cabeceira e tirou de dentro um saquinho de pano preto. Dentro, uma ponta de osso humano – a falange de um desconhecido.

Segurou o osso na palma da mão. Sentiu o frio. O peso.

Guardou no bolso interno da jaqueta. Trancou a porta.

Ao descer as escadas em vez do elevador, Theo notou algo que não havia notado antes: a frequência não era hostil. Não era agressiva.

Era hesitante.

Como se o outro Aracnídeo também tivesse medo.

Como se o outro Aracnídeo também estivesse sozinho.

Theo apertou o osso dentro do bolso.

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⏰ Last updated: Apr 05 ⏰

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