A cidade de Varnis nunca dormia.
Não porque era viva…
Mas porque algo nela nunca descansava.
Kael sempre sentiu isso.
Não era medo. Não exatamente. Era como uma presença constante — um peso no ar, escondido entre as rachaduras das ruas, nos túneis esquecidos, nas estruturas enterradas sob camadas de tempo.
E era ali que ele trabalhava.
— “Última descida do dia.” — murmurou, ajustando a lanterna presa ao ombro.
O homem ao lado dele, Darek, cuspiu no chão.
— “Você sempre diz isso.”
Kael não respondeu.
Eles estavam a mais de trinta metros abaixo da superfície, em uma escavação ilegal — como quase todas em Varnis. O objetivo era simples: encontrar relíquias antigas e vender para colecionadores ou… para a Ordem, se o preço fosse bom o suficiente.
Mas aquele lugar…
Era diferente.
As paredes não eram feitas apenas de pedra.
Eram… suaves demais.
Como se tivessem sido moldadas.
Ou crescido.
Kael passou a mão pela superfície.
Ela estava… quente.
— “Você sente isso?” — ele perguntou.
Darek bufou.
— “Eu sinto que você tá enrolando. Anda logo.”
Kael hesitou.
Então ouviu.
Um som.
Não vindo do túnel.
Nem do chão.
Mas de dentro da própria cabeça.
Um sussurro.
Baixo. Antigo.
Quase… paciente.
“Você demorou.”
Kael congelou.
— “Você falou alguma coisa?” — perguntou, olhando para Darek.
— “Eu não disse nada.”
O sussurro veio de novo.
Mais claro.
“Você escuta… diferente.”
O coração de Kael acelerou.
A lanterna piscou.
E então ele viu.
No fim do corredor, onde antes havia apenas rocha…
Agora havia uma porta.
Ela não estava lá antes.
Kael tinha certeza.
Era alta, lisa, sem dobradiças ou maçanetas. Sua superfície parecia líquida — como metal derretido congelado no tempo, pulsando lentamente.
Darek xingou baixo.
— “Tá vendo isso?”
Kael assentiu.
Mas não conseguia desviar o olhar.
Algo naquela porta…
Chamava por ele.
— “Isso não é normal.” — disse Darek, dando um passo atrás. — “A gente devia ir.”
Mas Kael já estava indo.
Cada passo parecia mais fácil que o anterior.
Como se o próprio ar o empurrasse.
O sussurro agora não vinha mais em palavras.
Era uma sensação.
Reconhecimento.
Pertencimento.
Ele estendeu a mão.
— “Kael, não—”
Tarde demais.
Seus dedos tocaram a superfície.
E o mundo… quebrou.
Não houve explosão.
Não houve luz.
Houve dor.
Uma dor que não pertencia ao corpo.
Era como se algo estivesse sendo arrancado de dentro dele — e ao mesmo tempo… colocado no lugar.
Memórias que não eram suas passaram diante de seus olhos:
Céus em chamas.
Vozes discutindo em uma língua impossível.
Uma presença imensa… caindo.
E então—
Silêncio.
Kael caiu de joelhos, ofegante.
Sua pele ardia.
Ele olhou para o próprio braço.
Runas.
Negras.
Se movendo lentamente, como tinta viva sob a pele.
— “Que… que inferno é isso…” — Darek recuou ainda mais.
A porta atrás de Kael…
Se abriu.
Sem som.
Sem esforço.
Um vazio absoluto estava do outro lado.
Não escuro.
Vazio.
E o sussurro voltou.
Dessa vez… inegável.
Clara.
Profunda.
“Você carrega… o que restou de mim.”
Kael tentou responder.
Não conseguiu.
Seu corpo não obedecia.
“Você é a falha… e a possibilidade.”
O ar ficou pesado.
Darek gritou:
— “KAEL, SAI DAÍ!”
Mas Kael não podia.
Porque, pela primeira vez na vida…
Ele estava sendo visto.
De verdade.
“Venha.”
E então—
A porta respirou.
Sim.
Respirou.
Como um pulmão antigo.
E puxou.
A explosão veio depois.
Darek foi lançado contra a parede.
A estrutura inteira tremeu.
Pedras caíram.
A lanterna se apagou.
E por alguns segundos…
Nada existiu além de poeira e silêncio.
Quando Darek conseguiu se levantar, tossindo, tudo havia mudado.
A porta… havia desaparecido.
O túnel estava destruído.
E Kael…
Estava de pé.
Imóvel.
De costas.
— “…Kael?” — chamou, com medo.
Nenhuma resposta.
Então Kael virou.
Seus olhos…
Não eram mais os mesmos.
Havia algo neles.
Algo profundo demais.
Algo que… não pertencia ali.
As sombras ao redor dele começaram a se mover.
Não com a luz.
Mas por vontade própria.
Darek deu um passo atrás.
— “O que aconteceu com você…?”
Kael abriu a boca.
E por um segundo—
Não foi a voz dele que saiu.
“Finalmente.”
O chão tremeu.
E as sombras… responderam.
YOU ARE READING
A Graça de Azazel
FantasyDizem que o mundo já foi silencioso. Não havia correntes de energia fluindo entre os homens, nem sussurros do invisível. A realidade era rígida, imutável - até o dia em que o céu se partiu. Azazel, o Arcanjo da Dádiva, olhou para a humanidade e viu...
